sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Agenda: Os sonhos de uma geração e de uma mulher chamada Clarice.

Retratos do universo Clariceano, com Beth Goulart, ©
 foto de Ricardo Chaves
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“A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão – e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir.”
(...)
Clarice Lispector, in: Laços de Família.

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Esse mundo belo, intrínseco, caótico e quase inacessível, é revisitado no monólogo “Simplesmente Eu. Clarice Lispector”. Ainda não assisti ao espetáculo, coisa que não tardará a acontecer, assim que o vir, provavelmente compartilharei impressões.
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Algumas pessoas falam sobre si e os outros, com beleza incomum. Parecem comungar com a pluralidade do mundo. Penso que sintetizam tão bem o tempo, as transformações, os sentimentos, seus fantasmas ou mesmo os sonhos, porque respeitam a sensibilidade que possuem. As ideias assim se abrangem, por isso são belas, por isso falam diretamente como flechas que nos atingem em cheio. Aquele tipo de golpe que desarma, que paralisa. Que metaforicamente, mata de amor ou de dor.
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Peça Simplesmente Eu. Clarice Lispector
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro
De quarta à domingo, às 19h. Até 4 de outubro
Ingresso: R$ 10,00
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Utopia, sf. projeto irrealizável; quimera; lugar ou posição ideal, ainda não atingida
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Para falar da incessante vocação do homem em sonhar, estréia dia 31 de agosto, segunda-feira, às 20h30, na TV Brasil, a série “Era das Utopias.”
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A conferir!
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"A questão é: quanta realidade se deve reter mesmo num mundo que se tornou inumano, se não quisermos que a humanidade se reduza a uma palavra vazia ou a um fantasma? Ou, para colocá-la de outra forma, em que medida ainda temos alguma obrigação para com o mundo, mesmo quando fomos expulsos ou nos retiramos dele?"
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Hannah Arendt, in: Homens em Tempos Sombrios.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Os Semelhantes...

Parecenças incomuns, Diego Rivera e Frida Kahlo
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Forçar-se a agir contrariamente ao que julga coerente ou predileto é uma forma de constrangimento tal, quase uma violência. Foi o que pensei ao pegar o metrô dia desses. Considero-o um meio de transporte civilizado e ágil, mas não tenho o hábito de apanhá-lo.
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Me incomoda muitíssimo a sua internalidade. Aquele ar pesado. A ausência do movimento frenético da superfície, da visão da cidade e seus contornos, mesmo das inconstâncias climáticas. O que há para se fazer num deslocamento subterrâneo? Certamente ler ou escutar música seriam bons escapismos, mas estava despreparada de ambos. Comecei então a observar quem entrava e saía. Um hábito legítimo, afinal. Algo que me dispersa do sentido de tempo e espaço.
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Não é um tipo de observação alcoviteira. É quase utópica. Imagino qual a história daqueles, cujos rostos serão esquecidos na próxima esquina. Deduzo pelas rugas nos semblantes alguma alegria invulgar, apreensão, desconforto, tédio, mansidão. Por vezes um "por favor, obrigada", "com licença" ou "boa qualquer coisa", dão indícios de educação elementar.
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Os trajes também auxiliam a constituição dos retratos. Colarinhos puídos, sapatos opacos de sola gasta, unhas por fazer, cabelos desgrenhados, dão uma inexorável sensação de desleixo. Logo vem à cabeça: por qual desgosto terá passado, para que soe assim tão displicente da vida? Em contrapartida, "o outro" adiante, é ainda mais enigmático, impecavelmente bem vestido e com ar pomposo. Seria só vaidade ou autoafirmação de quem gosta pouco de si?
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O contraditório homem de terno italiano desceu duas estações depois. A mesma em que embarcou aquele casal tão estranho. Percebi que aqueles aos quais meus olhos já haviam radiografado, flertavam menos indulgentes com o meu passatempo. Provavelmente só enxergavam o abismo harmonioso entre os dois.
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Ela, obesa e atarracada. Percebia-se no rosto esticado e branco, algo em torno dos 35 anos. Ainda na face, reluziam óculos de armação fina e feições fortes, pouco simétricas. Trajava um vestido florido que lhe cobria a opulência do corpo com elegância. Uma verdadeira matrona italiana de quadris largos, uma parideira.
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Ele, magro e longilíneo. Possivelmente com os mesmos pares de anos dela. Vestia jeans lavado e uma camisa rosa-bebê. As feições delicadas, quase femininas e olhos doces. Na verdade, doce era o olhar que ele destinava a ela. Tinha uma certa idolatria naquele olhar. Eles estavam apaixonados inegavelmente. Assim como era inegável os olhares aturdidos, incrédulos da união pouco comum.
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Quem afinal constituiu que há de haver sincronismo físico entre os enamorados? Que só nos apaixonamos por clones rebuscados de nossa imagem ou pelo modelo estético vigente? Que tolice. As pessoas apenas se atraem por motivos que a maioria desconhece. O resto é teoria.
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Era o que ela deveria pensar, enquanto segurava um livro da Anne Sexton (realmente a amei por isso) e, conversava ininterruptamente com ele num tom de voz pouco audível, e gestos leves.
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"Next, Botafogo Station", avisou a locutora do metrô. Dirigi-me à porta ávida por ar, quando vi cair um marcador de livros. Abaixei e o apanhei automaticamente. Quando pus-me de pé, havia uma mão estendida pronta à recebê-lo. A moça opulenta! Retribuiu-me com um sorriso aberto e assertivo, além de um "muito obrigada" em tom melodioso.
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Já em superfície, abastecendo meus pulmões de ar carbonado, os vi seguir em direção contrária atravessando a rua. O rapaz com corpo de louva-a-deus e sua musa botticelliana.
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Seus rostos começam a desbotar, é sempre assim. Antes que aconteça, preciso escrever no verso do "retrato", qualquer coisa que seja. Talvez, "ser o que se é"...

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"Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isso com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isso com o pensamento seria achá-las todas iguais."
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Fernando Pessoa.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os círculos...

Rodízio de pizzas, na casa da Lilliam.


Tomate pelati, e especiarias... eis o molho.

"A Redonda", transbordando de recheio.
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Nos círculos,
o ponto de chegada e partida é sempre o mesmo.
A peculiaridade fica nos trajetos,
que podem ser alterados, postergados,
limitados, negligenciados. Terem especiarias,
sabores variados, densidades,
ingestão rápida ou vagarosa.
Frescor, puerilidade ou
a artificialidade de molhos ácidos e
outros enlatados prontos.
Um paladar apurado e olhos que enxergam a “beleza”.
Uma boca amarga e olhos nublados.
A leveza das massas fofinhas, discretamente crocantes.
A dureza da farinha em demasia,
do fundo solado, queimado, pragmático.
Os bons aromas que enebriam, entorpecem.
Os que enjoam e principiam enxaquecas repentinas.
A habilidade das improvisações.
A limitação dos olhares obtusos.
O tempo e a temperatura adequados. A propósito,
eles andam juntos.
O tempo, às vezes esfria.
E em alguns casos, isso é inevitável.
Alguns ingredientes desandam
quando há discrepância de temperatura.
Noutros, o calor, a fervura, a fusão das misturas,
dão a liga necessária. Nesses,
a ação do tempo não diz muito.
Uma circunferência, se traça no "compasso" e
no descompassado das ações antagônicas,
que são a própria vida.
Há quem prefira as massas e
se prenda aos começos e finais.
Mas o que faz diferença e dá significado
são as trajetórias cheias de "recheio".
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

"As pessoas querem aprender a nadar e ter um pé no chão ao mesmo tempo..."


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Certo dia, o escritor francês Marcel Proust respondeu a um questionário, que foi oferecido aos convidados de uma festa da alta-roda parisiense. Dizem que gostou tanto das perguntas, que o modelo foi batizado com o seu nome; segundo outra versão, a partir daquele momento, Proust começou a interessar-se pelo assunto e fez mudanças significativas nas questões. De convicto mesmo, só o fato de já terem sido respondidas por grandes artistas e escritores.

Quando minha amiga mandou o email com o questionário, disse em síntese: “Olha, até Drummond e o Manuel Bandeira já responderam!” tentando soar persuasiva.

Depois da sabatina, fiquei a pensar na antítese criativa, que só gênios como Proust são capazes de oferecer.
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O questionário pode ser um passatempo divertido. Mas se prefere algo "denso", há ainda a alternativa intelectualmente instigante de "No Caminho de Swann", "As Sombras das Raparigas em Flor", "O Caminho de Germantes", "Sodoma e Gomora", "A Prisioneira", "A Fugitiva" e "O Tempo Reencontrado", os sete volumes de romances que formam o épico "Em Busca do Tempo Perdido".
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Leitura Proustiana para todos os gostos e estados de espírito.
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1. Qual é a sua maior qualidade?
Lealdade.
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2. E seu maior defeito?
Incapacidade de síntese e assertividade, coisa de quem economiza a palavra dita.
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3. A característica mais importante em um homem?
Masculinidade.
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4. E em uma mulher?
Feminilidade.
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5. O que você mais aprecia nos seus amigos?
A diferença.
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6. Sua atividade favorita é…
Ler, cozinhar, nadar, fotografar...
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7. Qual a sua ideia de felicidade?
Auto-conhecimento. Amigos. Uma estante de livros em madeira, com o pé direito tão alto que exija uma escada. Passar pelos anos de mãos dadas com alguém. Casa com flores, ruídos, cozinha viva. Viagens sem destino.
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8. E o que seria a maior das tragédias?
Alguns acontecimentos fizeram-me rever o trágico. Por isso considero dramas pessoais uma contingência da vida. Menos trágicos que algumas cegueiras e alienações.
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9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
Seria interessante saber o que se passava na cabeça do Leonardo da Vinci.
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10. E onde gostaria de viver?
Amsterdã ou Paris.
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11. Qual sua cor favorita?
Azul.
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12. Uma flor?
Orquídea.
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13. Um pássaro?
Beija-flor.
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14. Seus autores preferidos?
Clarice Lispector, James Joyce, Julio Cortázar, Simone de Beauvoir, Guimarães Rosa, Albert Camus, Susan Sontag, Marcel Proust...
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15. Os poetas que mais gosta?
Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Rainer Maria Rilke, Drummond, Manuel António Pina, Manoel de Barros, Shakespeare, Florbela Espanca, Mario Quintana, Alejandra Pizarnik, João Cabral de Melo Neto...
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16. Quem são seus heróis de ficção?
Snoopy.
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17. E as heroínas?
Mafalda.
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18. Seu compositor favorito é…
Tom Jobim, Sebastian Bach e Beethoven.
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19. E os pintores que você mais gosta?
Caravaggio, Van Gogh, Marc Chagall, Leonardo da Vinci, Frida Kahlo, Michelangelo, Peter Paul Rubens, Renoir, Francisco de Goya, Rembrandt, Gustav Klimt, Toulouse-Lautrec, Edvard Munch...
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20. Quem são suas heroínas na vida real?
Clarice Lispector, pela inquietação.
Frida Kahlo, pela força.
Madre Tereza, pela humanidade.

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21. E quem são seus heróis?
Leonardo da Vinci, pela genialidade..
22. Qual sua palavra favorita?
Delicadeza.
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23. O que você mais detesta?
Indiferença.
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24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?
Adolf Hitler.
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25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?
Telepatia.
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26. Como você gostaria de morrer?
Não penso a respeito, talvez dormindo.
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27. Qual seu atual estado de espírito?
Serve "o seu eterno estado de espírito"?
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28. Que defeito é mais fácil perdoar?
Defeitos não são da alçada dos perdões, e sim, da aceitação, quando possível.
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29. Qual é o lema da sua vida?
Não criei um ainda. Mas é recorrente a busca pelo entendimento dos meus “processos”. 
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"E, logo que o nosso chamado retiniu, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se inclinam, um ruído leve – um ruído abstrato – o da distância surpresa – e a voz do ser querido se dirige a nós.
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É ele, é a sua voz que nos fala, que ali está. Mas como essa voz se acha longe! Quantas vezes não pude escutar senão com angústia, como se ante essa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu melhor sentisse o que há de decepcionante na aparência da mais doce aproximação, e a que distância podemos estar das pessoas amadas, no momento em que parece que bastaria estendermos a mão para retê-las...”

Marcel Proust, in: Em Busca do Tempo Perdido, vol. III.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Tempo revisitado...

El Relojero, Remedios Varo, 1955
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Preciso tiempo necesito ese tiempo
[ Preciso de tempo necessito desse tempo ]
que otros dejan abandonado
[ que outros deixam abandonado ]
porque les sobra o ya no saben
[ porque lhes sobra ou já não sabem ]
que hacer con él
[ que fazer com ele ]
tiempo
[ tempo ]
en blanco
[ em branco ]
en rojo
[ em vermelho ]
en verde
[ em verde ]
hasta en castaño oscuro
[ até em castanho escuro ]
no me importa el color
[ não me importa a cor ]
cándido tiempo
[ cândido tempo ]
que yo no puedo abrir y cerrar
[ que não posso abrir e fechar ]
como una puerta
[ como uma porta ]
tiempo para mirar un árbol un farol
[ tempo para olhar uma árvore um farol ]
para andar por el filo del descanso
[ para andar pelo fio do descanso ]
para pensar qué bien hoy es invierno
[ para pensar que bom que hoje é Inverno ]
para morir un poco
[ para morrer um pouco ]
y nacer enseguida
[ e nascer em seguida ]
y para darme cuenta
[ e dar-me conta ]
y para darme cuerda
[ e dar-me corda ]
preciso tiempo el necesario para
[ preciso do tempo necessário para ]
chapotear unas horas en la vida
[ chapinhar umas horas na vida ]
y para investigar por qué estoy triste
[ e para investigar por que estou triste ]
y acostumbrarme a mi esqueleto antiguo
[ e acostumar-me ao meu esqueleto antigo ]tiempo para esconderme
[ tempo para esconder-me ]
en el canto de un gallo
[ no canto de um galo ]
y para reaparecer en un relincho
[ e reaparecer num relincho ]
y para estar al día
[ e para estar em dia ]
para estar a la noche
[ e para estar em noite ]
tiempo sin recato y sin reloj
[ tempo sem recato e sem relógio ]
vale decir preciso
[ vale dizer preciso ]
o sea necesito
[ ou seja necessito ]
digamos me hace falta
[ digamos que me faz falta ]
tiempo sin tiempo
[ tempo sem tempo ]

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Mario Benedetti.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Agenda: Simone de Beauvoir, Brecheret, Burle Marx, Little Joy...

Simone de Beauvoir, © foto de Elliot Erwitt, Paris, 1949

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Peça "Viver Sem Tempos Mortos"
Monólogo com Fernanda Montenegro, baseado nas cartas e depoimentos autobiográficos da escritora e intelectual existencialista Simone de Beauvoir.
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Teatro Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo.
Qui, Sex, Sáb e Dom às 19:30h. Até 30 de Agosto.Entrada: R$ 15,00.

Depois a peça prossegue a temporada no teatro do Shopping Fashion Mall, ou seja, aproveite o módico e camarada ingresso do espaço Oi Futuro..
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Exposição "A Arte Indígena de Victor Brecheret"Mostra com 29 esculturas e 23 desenhos do artista que transformava pedras, terracota e madeira em arte. As peças são inspiradas na cultura indígena e marajoara, da Ilha de Marajó, no Pará..
Caixa Cultural
Av. Almirante Barroso, 25, Centro.
Ter à Sáb, das 10h às 22h. Dom, das 10h às 21h.
De 07 de Julho à 23 de Agosto.
Entrada Franca.

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Festival de Cinema "Assim Vivemos"
O universo pretensamente limitado de pessoas com deficiência física, é abordado nos 24 filmes de 13 países exibidos no festival. No final do dia, sempre às quartas e quintas, serão realizados debates.
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Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro.
Até 16 de Agosto.
Entrada Franca.
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Programação completa no site do festival.
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Show da Banda "Little Joy"
Encontro despretencioso de trabalhos paralelos, que resultou num som muito bacana. A banda é formada pelo Rodrigo Amarante (guitarrista do Los Hermanos), Binki Shapiro e Fabrizio Moretti (baterista do The Strokes).
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Fundição Progresso
Rua dos Arcos, 24, Lapa.
Dia 14 de agosto, às 22h.

Entrada: R$ 100,00 (inteira), R$ 50,00 (meia).
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Exposição "Burle Marx"
Comemoração do centenário de nascimento do paisagista. Fazem parte da programação, exposição fotográfica de Marcel Gautherot, lançamento de guia paisagístico, distribuição de mudas e atividades infantis.
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Instituto Moreira Salles
Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea.
Ter à Sex, das 13h às 20h. Sáb, Dom e Feriados das 11h às 20h.
De 08 de Agosto à 27 de Setembro.
Entrada Franca.

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"Nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante: a inércia é que é o sinônimo da morte. A lei da vida é mudar."

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Simone de Beauvoir, in: Balanço Final.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Rio Buárquico, subjetividades de tempo e espaço.

Urca, calmaria que me representa, meados de 2007
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Sempre gostei da minha cidade, São Sebastião do Rio de Janeiro.
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Uma carioca típica, que se apressa eufórica para dizer-te maravilhosa, mas que aponta as agruras, sem que necessariamente fique confortável quando outros se lançam a críticá-la. Tenho meus lugares cativos em pedras, meios-fios, museus, cinemas, jardins, mares... mas a cidade nunca pareceu tão bonita quanto nos últimos dias. Enxerguei-a sob a perspectiva de outros olhos e quão doces eles foram. Na liquefação das nuvens ensaiando os tons do inverno, a cidade ganhou cores, sons, sotaques, aura, alma.
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Que lindo esse Rio de discussões socio-filosóficas, afinal, pensar nos difere e nos escraviza. De andanças sem hora de partida ou chegada. De desmistificações sobre o ir e vir de uma metrópole dita caótica. De sorrisos e olhares. De Chico Buarque como trilha sonora. De (re) encontros. De cafés, em cafés. De letras & expressões.
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segunda-feira, 27 de julho de 2009

"Cariocas não gostam de dias nublados..."

O Inverno, cinza melancólico e belo, © foto de Custódio Coimbra/Agência O Globo
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Casacos naftalínicos
Ressacas no Arpoador
Chocolate quente
Chocolate em barra
Chocolate em qualquer forma sólida e líquida
Livros
Rinite Alérgica
Edredon
Fondue
Cinema
Café
Guarda-chuvas de cinco reais
Perder guarda-chuvas de cinco reais
O calor dos abraços
No inverno.
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terça-feira, 21 de julho de 2009

O tempo devora tudo, inclusive os segundos que perdemos traçando linhas retas.

Study of Hands, Leonardo da Vinci, 1474



"Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto não resistiu à tentação de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a prudência. ‘E se de repente eu pudesse?’, indagou-se ele. E então não conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por não conseguir escrever ‘a outra coisa’. Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A proibição era muito mais funda…, surpreendeu-se Martim.

Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara. E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intacta e viver dela – ou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isso: o alcançável. Como quem não conseguisse beber a água do rio senão enchendo o côncavo das próprias mãos – mas já não seria a silenciosa água do rio, não seria o seu movimento frígido, nem a delicada avidez com que a água tortura pedras... Seria o côncavo das próprias mãos. Preferia então o silêncio intacto. Pois o que se bebe é pouco; e do que se desiste, se vive."

Clarice Lispector, in: A Maçã no Escuro.

domingo, 12 de julho de 2009

"Só porque viver não é relatável..."

"Blanche et muette habillée des pensées que tu me prêtes", Marcel Mariën, 1952
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"Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra…"
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Álvaro de Campos, in: Datilografia.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Eu que nunca gostei dos ímpares...

 Philippine Bausch, 1940 - 2009
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Dois mil e nove poderia terminar amanhã, só a tempo de colocar umas poucas mudas dentro de uma sacola e apoiá-la nas costas. Um ano difícil, certamente.

Se contava ainda com certa complacência, tornou-se mais pesado, sem a leveza dos Cravos de Pina Bausch. Foi dela a primeira apresentação de dança que assisti na vida, 'Ifigênia em Tauris' e os tais 'Cravos', no Municipal. Eu, que assim como dos ímpares, não gostava tanto de dança. Que bom que nada é tão exato, exceto a 'luz' que se apaga um dia.
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Coreografia "Cravos", oito mil deles no palco
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"Um campo florido guardado por cães pastores simboliza as dualidades humanas: de um lado o desejo, o sonho e a esperança. De outro, a realidade."

Pina Bausch.

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sábado, 27 de junho de 2009

Agenda: Virtuosismo Russo, Verger, Festlip...

 The Promenade, Marc Chagall, 1917
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Exposição 'Virada Russa' 
Oportunidade imperdível de ver obras do movimento artístico e cultural da primeira fase da Revolução Russa. As peças, num total de 123, pertencem ao Museu de São Petersburgo e correspondem o período de 1890 e 1930. Obras de Kandinsky, Maliévitch, Chagall e Filonov fazem parte da mostra.
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Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março , 66, Centro
Ter à dom, das 10h às 21h
Até 23 de agosto
Entrada franca.
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Exposição Pierre Verger - Andalucía, 1935
Registro fotográfico em preto e branco da região de Andaluzia, pouco antes da Guerra Civil Espanhola.
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Museu Histórico Nacional
Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro
Ter à sex, das 10h às 17h30m. Sáb, dom e feriados, das 14h ás 18h
Até 02 de agosto
Entrada: R$ 6,00 (livre, aos domingos).
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'Saber Viver Nos Dias Que Correm' 
Peça sobre as relações familiares. O texto tem como base os contos "Laços de família" de Clarice Lispector e "Linda, uma história horrível" do Caio Fernando Abreu.
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Centro Cultural Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241, Centro
Sex à dom, às 19h
Até 26 de julho
Entrada: R$ 20,00.
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Festival Festlip 
Onze peças teatrais, encenadas por companhias de países de língua portuguesa. As apresentações acontecem no Teatro Sesc Ginástico, Espaço Sesc e Teatro Sesc Tijuca. Toda a programação tem entrada franca e vai de 02 à 12 de julho.
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Mais informações no site do festival:

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

"Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim."

Michael Joseph Jackson, 1958 - 2009
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Meus irmãos mais velhos são fãs entusiasmados de Michael Jackson. Lembro de assistir o clipe de "Thriller" 2.248 vezes, ao ponto de sonhar com os zumbis à noite, foi bem traumatizante. Em contra partida, nós dançavamos "Billie Jean", de meias no chão encerado. É a imagem mais terna de nós cinco juntos.

Felizmente somos dotados de duas capacidades incríveis, a de ter lembranças e a de sentir saudade.

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terça-feira, 23 de junho de 2009

Fenecimento...

Home, Yann Arthus-Bertrand, 2009
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Muito se fala em desenvolvimento sustentável e sua aplicação como conceito sócio-ambiental imprescíndivel. Na esteira dessa discussão importante, vários documentários pipocam por aí. Alguns merecem destaque, por imprimir uma linguagem visual 'definitiva' para filmes com essa temática. É o caso de Home, com direção de Yann Arthus-Bertrand e produção de Luc Besson.
O filme, que estreou dias atrás, não tem fins lucrativos e os produtores optaram por abrir mão dos direitos autorais em todos os formatos, desde salas de cinema, aos canais abertos na internet. Home está disponível no You Tube em várias versões.

sábado, 20 de junho de 2009

O que está por trás daquilo que você não vê?!

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Ganhei dois presentes esses dias: um "sorriso pleno" e um livro lindo.


O sorriso, por resposta à delicadeza do presente e a felicidade em recebê-lo. Mas se este não fosse um livro de arte, ainda sim, teria sorrido, pela circunstância, pelo significado do momento. É bom saber-se limitado aos olhos alheios e mesmo assim ser chamado de amigo. Há tempos não sorria plenamente. Explico. Sorrisos que você dá e só percebe quando o coração reverbera, irradiando para o corpo todo, como algo que desmancha na boca e deixa um gosto bom.

Não sei ao certo sobre a viabilidade de um post tão grande, e na verdade, não dá para começar qualquer coisa limitando-se. Arte é o conceito mais abrangente e eterno de beleza, foge a entendimentos vários, é pra ser sentida, assim como a amizade. Segue, resenhas breves e difícil escolha do que considero mais perfeito, nesta que é dita a quarta arte.


O Rapto de Proserpina (Bernini)

A definição das quatros estações deriva da lenda de Proserpina (Perséfone). Diz-se que Demeter (Ceres), mãe de Proserpina, desesperada com o rapto da filha por Plutão (Hades, Deus da morte) caiu em desespero tornando o solo infertil. Atendendo a um pedido de Zeus (Júpiter), seu marido, concordou devolver a fertilidade à Terra, exigindo no entando, que Plutão lhe devolvesse a filha. Como Proserpina havia comido seis grãos de romã, não poderia abandonar definitivamente o Tártaro, submundo de Plutão. Passaria então, metade do ano nas profundezas da terra, representação do outono e do inverno, quando sua mãe, triste, descuida da natureza e, a outra metade na superfície, na companhia dos seus, o que corresponde a primavera e o verão; a terra viva e produtiva, fruto da felicidade de sua mãe Demeter, deusa das plantas.

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Isso é mármore, dá para acreditar? Detalhe para a sutileza das mãos fincadas na pele.

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Perseu com a cabeça da Medusa (Antonio Canova)

Em um banquete, o Rei Prolidectes perguntou a seus convidados, que presente cada um estava disposto a oferecer-lhe. Todos prometeram cavalos, mas Perseu, o herói grego, ofereceu-lhe a cabeça da Medusa (monstro que transformava em pedra quem a olhasse). Quando Prolidectes o fez cumprir sua palavra, ele foi forçado a honrar sua oferta. Perseu obteve sucesso graças a ajuda dos Deuses Athena, Hades e Hermes. Athena deu a ele, um escudo tão bem polido, que podia se ver o reflexo ao olhar para ele. Hades, um capacete que tornava invisível quem o usasse, e Hermes lhe deu suas sandálias aladas. Guiado pelo reflexo do escudo, mas sem olhar diretamente para a Medusa, derrotou-a cortando-lhe à cabeça.



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Apolo e Dafne (Bernini)

Apolo era o mais belo dos deuses do Olimpo, senhor da Arte, da Música e da Medicina. Sua arrogância irrita Cupido, que o atinge com duas flechas de amor e outra de chumbo, em Dafne. Cupido passa a assediá-la inutilmente. Desesperado, começa a perseguí-la pela floresta. Dafne sentindo-o cada vez mais próximo, suplica ao pai, o Deus Peneu, que lhe mude as formas. O pai atende o desejo da filha e, no momento em que Apolo começava a tocar seus cabelos, Dafne revesti-se de cascas, os cabelos transformam-se em folhas, os braços ramos e galhos, os pés cravam-se no solo, como raízes. Transtornado com a metamorfose da amada em arbusto – o Loureiro, Apolo chora dizendo que aqueles ramos serão sua coroa verde e vistosa, participando de seus triunfos eternamente. Quem acompanha os Jogos Olímpicos, deve se lembrar que a coroa de Louros de Apolo simboliza a vitória.






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Moisés (Michelangelo)

Segundo a bíblia, Moisés subiu o Monte Sinai e recebeu de Deus os 10 mandamentos. Michelangelo parece entender a divindade do profeta, e esculpe um Moisés imponente.



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David (Michelangelo)

Esculpida em mármore, a estátua de 5,17m retrata-o antes da batalha com Golias. Realismo absurdo na concepção anatômica dessa, que é considerada por muitos, a obra mais importante da humanidade.





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O Êxtase de Santa Teresa (Bernini)

Simboliza as visões que Santa Teresa de Ávila teria tido, com um anjo que lhe cravava uma flecha de ouro no peito. Bernini dá à obra um sentido transcendental ao evocar tamanha mansidão e júbilo em meio aos espasmos de seu drama corporal. O resultado é só contemplação.




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A Vênus de Milo (atribuida à Alexandre Antióquia)

Uma estória curiosa explica a “falta” de braços da Vênus (Afrodite). Quando foi encontrada na Ilha de Milo no Mar Egeu, já estava danificada, quebrada ao meio, mas possuía os braços. O camponês que a achou quis vendê-la à oficiais franceses, mas como tardaram na aquisição da Vênus, o homem aceitou a oferta de outro comprador. Quando a escultura estava sendo embarcada para a Turquia, os franceses chegaram, e convenceram o camponês a manter o acordo de compra. Durante sua transferência para o barco, a escultura foi arrastada através de pedras e danificou-se, perdendo o que restava dos braços. Os marinheiros se recusaram a voltar para recuperá-los.


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La Pietá (Michelangelo)

Escultura cheia de significado litúrgico e apesar de dramática, incrivelmente doce. A representação de Maria segurando o filho morto, resignada e forte como só as mães conseguem ser.



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O Beijo (August Rodin)

Suavidade em meio ao caos, fruto da relação romântica com Camille Claudel.


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Cupido e Psique (Antonio Canova)

Psique em grego significa tanto borboleta, como alma. Ela representa a alma humana purificada pela dor, preparada, assim, para desfrutar a felicidade verdadeira. A união de Cupido e Psique simboliza o encontro do amor e da alma.



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"Com arte, forma, cor, tudo isso em jogo, engrinaldado e rútilo de crenças, o sonho cresce - o pássaro de fogo, que habita as altas regiões imensas."

Cruz e Souza.

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