Mostrando postagens com marcador Picasso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Picasso. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de julho de 2013

"...antes essa memória aberta com um olho ou a clareira de uma órbita ossosa que vos deixa ver sem vos mostrar absolutamente nada."

The Blind Man's Meal, Picasso, 1903
.
.
.
O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
.
Ele lê - pois já não pode parar -
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
.
Ele gostaria de omitir - embora seja impossível -
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.
.
.
Wislawa Szymborska.
.
.

domingo, 13 de janeiro de 2013

"aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo..."

Guernica, The Woman Fleeing, (detail),  Pablo Picasso, 1937
.
.
.
Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.
.
Rubem Braga, in: A Viajante. 
Rio de Janeiro, abril de 1952.


* * * 

O cronista, que teria completado 100 anos ontem, talvez não seja tão lido quanto merece, mas tem o mérito de ter retratado o cotidiano como poucos. 
.
.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Variações sobre um mesmo tema: representações pictóricas do carnaval

 Bacchus, Caravaggio, 1596-1597
.
.
.
Não há como precisar a origem do Carnaval. Todavia, consta que teria surgido durante cultos agrários no Egito, Pérsia, Creta, Fenícia e Babilônia, no período que compreende o IV milênio a.C. e o século VII a.C.

O Carnaval Pagão inicia-se em meados do século VII a.C. até 590 d.C., quando Pisístrato, oficializou o culto ao deus Dionísio, na Grécia. Durante o declínio da hegemonia artística de Atenas, em 370 a.C., multiplicaram-se as celebrações a Dionísio, em Roma, onde é conhecido como deus Baco.

Subsequente a essa passagem, desenvolve-se o Carnaval Cristão, dando início a um novo modelo de festa, mais parecida com o que vemos hoje. Nice, Roma e Veneza eram os grandes expoentes.

Já o Carnaval contemporâneo, começou a partir do século XVIII, concentrando-se nos países onde a cultura negra era mais atuante, sobretudo no Brasil, considerado o maior Carnaval do mundo.
.
.
.
Carnaval de Rua, Jean-Baptiste Debret, 1834
.
.
.
Carnaval, Cândido Portinari, 1960
.
.
.
Carnival Scene or The Minuet, Giovanni Domenico Tiepolo, 1755
.
.
.Carnival in the Mountains, Paul Klee, 1924
.
.
.
Baile à fantasia, Rodolfo Chambelland, 1913
.
.
.
Carnival Clowns, Willem Cornelisz Duyster, 1620
.
.
.
Carnival of Harlequin, Joan Miró, 1924-1925
.
.
.
A Carnival Ball, Pierre Bergaigne, 19th century
.
.
.
Masked Ball at the Opera, Édouard Manet, 1873
.
.
.
The Burial of the Sardine, Francisco de Goya, 1812-1814
.
.
.
Pierrot the Musician, Gino Severini, 1924
.
.
.
Harlequin and Columbine, Jean Antoine Watteau, 1716-1718
.
.
.
Élysée Montmartre, Jules Chéret, 1891
.
.
.
Mardi Gras (Pierrot et Harlequin), Paul Cézanne, 1888
.
.
.
Carnival Evening, Henri Rousseau, 1886
.
.
.
Harlequin and His Lady, Giovanni Domenico Ferretti, 17th century
.
.
.
Harlequin and Pierrot, André Derain, 1924
.
.
.
At Lapin Agile or Harlequin with Glass, Pablo Picasso, 1905
.
.
.
.

"Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade..."
.
.
Cecília Meireles, trecho da crônica "Depois do Carnaval".
.
.

domingo, 16 de outubro de 2011

As palavras e as coisas...

Girl Before a Mirror, Pablo Picasso, 1932
.
.
.
"As palavras agrupam sílabas e as sílabas, letras, porque há, depositadas nestas, virtudes que as aproximam e as desassociam, exatamente como no mundo as marcas se opõem ou se atraem umas às outras..."
.
Michel Foucault, in: As Palavras e as Coisas,
uma Arqueologia das Ciências Humanas.


.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails