Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecília Meireles. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

"Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás..."

The Wanderer Above The Mists, Caspar David Friedrich, 1818
.
.
.
O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e, entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual,
de desejo e desespero.

Cecília Meireles.
.
.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Representação de construções impossíveis...

 Relativity, Maurits Cornelis Escher, 1953
.
.
.
"Grande aula, a do silêncio.
Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso. De tudo viverás.
Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas,
Projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.
Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais."
.
.
Cecília Meireles,
Trecho do poema "O Estudante Empírico".
.
.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"como podes saber onde me circunscrevo, e de que modo me pode o teu desejo atingir?..."

 Lovers, Jarek Puczel, 2010
.
.
.
Voz obstinada, por que insiste chamando
por um nome que não corresponde mais a mim?
Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite
e como o silêncio tenta mover-se inutilmente,
quando diriges teus ímãs sonoros,
sondando direções!
Não é do meu propósito, ó voz obstinada,
mas da minha condição.
As aparências dispersaram-se de mim,
como pássaros:
que sol se pode fixar nesta existência,
para te definir a minha aproximação?
Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?
Eu mesma deixei de entender a minha substância;
tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.
Como podes chamar por mim como às coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?
.
.

Cecília Meireles.
.
.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Variações sobre um mesmo tema: representações pictóricas do carnaval

 Bacchus, Caravaggio, 1596-1597
.
.
.
Não há como precisar a origem do Carnaval. Todavia, consta que teria surgido durante cultos agrários no Egito, Pérsia, Creta, Fenícia e Babilônia, no período que compreende o IV milênio a.C. e o século VII a.C.

O Carnaval Pagão inicia-se em meados do século VII a.C. até 590 d.C., quando Pisístrato, oficializou o culto ao deus Dionísio, na Grécia. Durante o declínio da hegemonia artística de Atenas, em 370 a.C., multiplicaram-se as celebrações a Dionísio, em Roma, onde é conhecido como deus Baco.

Subsequente a essa passagem, desenvolve-se o Carnaval Cristão, dando início a um novo modelo de festa, mais parecida com o que vemos hoje. Nice, Roma e Veneza eram os grandes expoentes.

Já o Carnaval contemporâneo, começou a partir do século XVIII, concentrando-se nos países onde a cultura negra era mais atuante, sobretudo no Brasil, considerado o maior Carnaval do mundo.
.
.
.
Carnaval de Rua, Jean-Baptiste Debret, 1834
.
.
.
Carnaval, Cândido Portinari, 1960
.
.
.
Carnival Scene or The Minuet, Giovanni Domenico Tiepolo, 1755
.
.
.Carnival in the Mountains, Paul Klee, 1924
.
.
.
Baile à fantasia, Rodolfo Chambelland, 1913
.
.
.
Carnival Clowns, Willem Cornelisz Duyster, 1620
.
.
.
Carnival of Harlequin, Joan Miró, 1924-1925
.
.
.
A Carnival Ball, Pierre Bergaigne, 19th century
.
.
.
Masked Ball at the Opera, Édouard Manet, 1873
.
.
.
The Burial of the Sardine, Francisco de Goya, 1812-1814
.
.
.
Pierrot the Musician, Gino Severini, 1924
.
.
.
Harlequin and Columbine, Jean Antoine Watteau, 1716-1718
.
.
.
Élysée Montmartre, Jules Chéret, 1891
.
.
.
Mardi Gras (Pierrot et Harlequin), Paul Cézanne, 1888
.
.
.
Carnival Evening, Henri Rousseau, 1886
.
.
.
Harlequin and His Lady, Giovanni Domenico Ferretti, 17th century
.
.
.
Harlequin and Pierrot, André Derain, 1924
.
.
.
At Lapin Agile or Harlequin with Glass, Pablo Picasso, 1905
.
.
.
.

"Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade..."
.
.
Cecília Meireles, trecho da crônica "Depois do Carnaval".
.
.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Aos que buscam reação ao peso de viver: leveza


The Water, Leslie Feist

.
.

Leve é o pássaro:

e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
.
Cecília Meireles.
.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Tão longe, se perto...

O gurizinho dos olhos negros, peça de Natal da escola, 1983.
.
.
Saudade funciona como despertador. Alerta-nos sobre o perigo do esquecimento, da displicência com nossas memórias. Por tantos motivos que não só o avanço vertiginoso das horas ou o número crescente de informações, exigindo, sugando a nossa atenção, esquecemos. Do perecível, do imperecível, esquecemos. Pelo menos até que sintamos saudade.
.
.
* * * 
 
"A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como "delicioso pungir de acerbo espinho", estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico. Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade. Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum."
.
Cecília Meireles.

.

domingo, 24 de maio de 2009

"a cabeça em maresia..."

Awaiting The Fishermen's Return, Josef Israëls, d.i
.

.
"Em praias de indiferença
navega meu coração.
Venho desde a adolescência
na mesma navegação.
Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
despovoada inconsistência,
de penúria e de aflição?
(Triste saudade que pensa
entre resposta e a intenção!)
Números de grande urgência
gritam pela exatidão:
mas a areia branca e imensa
toda é desagregação!
Em praias de indiferença
navega meu coração.
Impossível, permanência.
Impossível, direção.
E assim por toda a existência
navegar, navegarão
os que têm por toda ciência
desencanto e devoção."


Cecília Meireles,
in: Mar Absoluto.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui..."

 Room in Brooklyn, Edward Hopper, 1932
.
.
.
"Estarei só. Não por separada, não por evadida. Pela natureza de ser só. No entanto a multidão tem sua música, seu ritmo, seu calor, e deve ser uma felicidade, às vezes, ser na multidão o que o peixe é no oceano. Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes! .
..Se me chamares, responderei, mas serei solidão. Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares. Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei: como o eco. Mas é tu que vens e voltas: a tua solidão e a minha solidão."

Cecília Meireles.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails