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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Estou escrevendo umas coisas loucas..."

A Obscena Senhora Silêncio, direção de Leandra Lambert, 2010
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Há tanto a te dizer agora! Meus olhos se gastaram
Procurando a palavra nas figuras, nos textos, nas estórias.
Era preciso viajar e levantada em renúncias redescobrir
.....................................................................................[ a morte
Além de seu sudário e suas tremuras. Quase nada 
...............................................[ aprendi. De nada me lembrei.
Há talvez a memória de tatos, um sentir rarefeito, um
........................................................................ [ ouvido inexato.
Deitado em solidão sobre o teu peito. E adeuses
..................................................[ ingênuos, calados de vitória
E aquele de fereza, de acerto, dissolvido em orgulho, 
............................................................................[ ressuscitado
Vagamente em canto. E na manhã, o meu sonho passara
..........................................................................[ e a minha voz 
Não se erguera em poesia.

Será preciso esquecer o contorno de umas formas que
.....................................................................[ vi: naves, portais
E o grande crisântemo sobre a faixa restrita do canteiro.

Através do gradil, no terraço do tempo te percebo.
E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que
...............................................................................[ amanhece.
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Hilda Hilst.

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

"Era a flor da morte. E era uma canção... tão linda que só se poderia ler dançando..."

Petite Mort, Nederlands Dance Theatre, by Jirí Kylián
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"Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."
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Eduardo Galeano, in: O Livro dos Abraços.

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domingo, 15 de abril de 2012

"Quando a memória transformada em ave pousar sobre o meu peito a sua leveza."


The Hours,
direção de Stephen Daldry, 2002
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E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura.

E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera

Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra (...)

Há certos rios que é preciso rever.
Por isso volto... àquelas margens
Onde na sombra um verde descansava (...)
Volto, seguindo a viagem
De mim mesma e aos poucos convergindo
Oculta, vária,
Até fechar um círculo e entender
Essa asa de fogo sobre as coisas.
Talvez neste canto eu te direi
Das estreitas passagens, do lodo
Convulsivo dos ancoradouros, dos funerais
Que vi, para chegar à luz da primeira paisagem.
Meu olhos deram volta à ilha.
Sigo pelos caminhos, transfiguro-me

Sei que um igual destino eu já cumpri
E ao mesmo tempo em tudo me descubro
Casta e incorpórea. Sou tantas,
Tantos vivem em mim e pródiga descerro-me (...)

Olhai o que mais vos convém.
Em tudo, o todo que sois feito
Se mantém. Pórticos, escadas
Ave sob um teto de chumbo,
O que estiver à tona, o mais fundo,
Ventre, ombro.

O caminho de dentro
é um grande espaço-tempo (...)

Àquele grande e pausado passo de ave que se parece.
Ah, que dor de ter assim um todo na memória
Que dor na fluidez do tempo e a mesma hora se fazendo sempre (...)

Hilda Hilst, fragmentos do poema "Memória".
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quarta-feira, 6 de julho de 2011

(( Desire ))

The Rape of Proserpina, Gian Lorenzo Bernini, 1621-1622*



E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível


E o que eu desejo é luz e imaterial.


Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?


Hilda Hilst.




* É a segunda vez que a escultura, uma de minhas preferidas, aparece no "Le Silence", a primeira aqui.

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Correspondências: Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst

Clarice Lispector, Giorgio de Chirico, 1945



Hildinha,


A carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico.

Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela.

Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor.

Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — "Fica comigo". Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela.

Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu,


Caio.



* Caio e Hilda se conheceram em meados de 1968, quando o escritor, então perseguido pela ditatura militar, refugiou-se na Chácara do Sol, residência de Hilda, em Campinas, São Paulo.




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