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sábado, 6 de julho de 2019

Canta a eternidade de mansinho, João.

João Gilberto (10/06/1931 - 06/07/2019)
© foto de Tom Copi, São Francisco, 1976
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A vida cotidiana é um instante
de outro instante que é a vida total do homem.
mas por sua vez quantos instantes não há de ter
esse instante do instante maior
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cada folha verde se move ao sol
como se perdurar fosse seu inefável destino
cada pardal avança a saltos imprevistos
como burlando-se do tempo e do espaço
cada homem se abraça a alguma mulher
como se assim agarrasse a eternidade
.
na realidade todas estas pertinácias
são modestos exorcismos contra a morte
batalhas perdidas com ritmo de vitória
réus obstinados que se recusam
a admitir a injusta punição
viventes que se fazem de distraídos
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a vida cotidiana é também uma soma de instantes
algo assim como partículas de pó
que continuarão caindo em um abismo
e contudo cada instante
ou seja cada partícula de pó
é também um copioso universo
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com crepúsculos e catedrais e campos de cultivo
e multidões e cópulas e desembarques
e bêbados e mártires e colinas
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e vale pena qualquer sacrifício
para que esse abrir e fechar de olhos
abarque por fim o instante universo
com um olhar que não se envergonhe 
de sua reveladora
efêmera 
insubstituível
luz
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Mario Benedetti.
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sexta-feira, 29 de março de 2019

"Je me souviens pendant que je vie..."

Agnès Varda (30/05/1928 - 29/03/2019)
© Micheline Pelletier: on the set of Vagabond/Sans Toit ni Loi, 1985.
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Quando o não-ser fica em suspense
abre-se a vida esse parêntese
com um gemido universal de fome
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somos famintos desde o vamos

e o seremos até o vamo-nos
depois de muito descobrir
e brevemente amar e acostumar-nos
à falida eternidade
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a vida se encerra em vida

a vida esse parêntese
também se fecha..........incorre
em um gemido universal
o último
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e então somente então

o não-se segue para sempre.
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Mario Benedetti. 
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"La poesía terminó conmigo."

Nicanor Parra (05/09/1914 - 23/01/2018)
© foto de Hans Ehrmann, d.i
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Ha llegado la hora de retirarse
Estoy agradecido de todos
Tanto de los amigos complacientes
Como de los enemigos frenéticos
¡Inolvidables personajes sagrados!

Miserable de mí
Si no hubiera logrado granjearme
La antipatía casi general:
¡Salve perros felices
Que salieron a ladrarme al camino!
Me despido de ustedes
Con la mayor alegría del mundo.

Gracias, de nuevo, gracias
Reconozco que se me caen las lágrimas
Volveremos a vernos
En el mar, en la tierra donde sea.
Pórtense bien, escriban
Sigan haciendo pan
Continúen tejiendo telarañas
Les deseo toda clase de parabienes:
Entre los cucuruchos
De esos árboles que llamamos cipreses
Los espero con dientes y muelas.
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Nicanor Parra.
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segunda-feira, 27 de março de 2017

"Tudo o que é musical é uma questão de reminiscência..."

Best Puccini 100 e Chopin Piano Works
para seguir escutando Noturnos...
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Últimas aquisições na "Escuta Som". 

A simpática lojinha de cd's, na Rua do Rosário, se equilibrava graças a resiliência do proprietário, um entusiasta que resistia ao esvaziamento do segmento. 

Cláudio faleceu há pouco mais de um mês e a loja vai fechar as portas essa semana. 

Enquanto o Noturno No.9 avança, só consigo pensar nas horas de boa música e que a vida sem paixões não faz o menor sentido.
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domingo, 29 de janeiro de 2017

"C’est beau la vie, la longue vie..."

Emmanuelle Riva (24/02/1927 - 27/01/2017)
Hiroshima Mon Amour, Dir. Alain Resnais, 1959
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recusa-se a tocar a
mãe desta expectativa
que desperdiça
tantas secreções
em seu sistema
de produtos 
mensais emmanuelle 
riva em 'hiroshima 
mon amour'
& 'bleu' o esquecimento
da amante
ontem a esclerose
da mãe amanhã
azul a água
dissolução da 
memória ah! a
memória deixe-a
à mercê da
manhã
no entanto
sabe que só 
a expectativa
fertiliza
a perda a
predileção
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Ricardo Domeneck.
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Amour, Dir. Michael Haneke, 2012
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Olhar é um ato de escolha..."

John Peter Berger (05/11/1926 - 02/01/2017)
© foto de Jean Mohr, 1980 
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“Só vemos aquilo que olhamos. Olhar é um ato de escolha. Como resultado dessa escolha, aquilo que vemos é trazido para o âmbito do nosso alcance – ainda que não necessariamente  ao alcance da mão. Tocar alguma coisa é situar-se em relação a ela... Nunca olhamos para  uma coisa apenas; estamos sempre olhando para a relação entre as coisas e nós mesmos. Nossa visão está continuamente ativa, continuamente em movimento, continuamente captando coisas num círculo à sua própria volta, constituindo aquilo presente para nós do modo como estamos situados. 

Logo depois de podermos ver, nos damos conta de que podemos também ser vistos. O olho do outro combina com o nosso próprio olho, de modo a tornar inteiramente confiável que somos parte do mundo visível..." 
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John Berger, in: Modos de Ver, Ed. Rocco, 1999.
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

"E aí adormecia dum sono sem remorsos e sem melancolia..."

Master Bedroom, Andrew Wyeth, 1965
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Para Madonna, que agora chamamos e já não está.

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,

nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava

ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido em que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: " É a vida..."
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Manuel António Pina.
Poema "O Nome do Cão", do livro Todas as Palavras: poesia reunida. Ed. Assírio & Alvim, 2012.
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domingo, 29 de março de 2015

"Pode ser que tudo esteja bem no plural de um mundo intenso. Mas o amor é outro poder, a carne vive da sua absorta permanência..."

Herberto Helder, 23/11/1930 - 23/03/2015
© foto de Alfredo Cunha, fevereiro de 2015
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Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Ó feroz mundo puro,
ó vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.


Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti, quando é a altura das rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?

— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
com uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.

Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se à maturidade
confluente
de um minuto de verão. 
— Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.

Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.

Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.

— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.

Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive da sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. É única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.

........................... — Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
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Herbeto Helder.
Elegia Múltipla, V.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O caramujo flor...

Manoel Wesceslau Leite de Barros, 19/12/1916 - 13/11/2014
© foto de Marcelo Buainain. s.d.
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Da viagem que direi?
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Tácito ajuste singular,
de que os outorgantes
somos eu e a bruma
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Ajuste segundo o qual
nascer equivale a ser exposto
num comboio
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E não se pode rescindir o ajuste.
Nem querelar da bruma.
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A. M. Pires Cabral.
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Língua de Brincar, direção de Lucia Castello Branco e Gabriel Sanna, 2007
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(a um Pierrô de Picasso)
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Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.
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Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.
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Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto
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Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
.................
Solidão tem um rosto de antro.
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Manoel de Barros.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

"porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão, não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra."

Gabriel García Márquez, 06/03/1927 - 17/04/2014
© foto de Isabel Steva Hernández (Colita), s.d
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"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza..."
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Gabriel García Márquez, in: Memória de Minhas Putas Tristes.
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"Todos, absolutamente todos estamos sós..."
 Assista a entrevista que Gabo concedeu à RTVE.es, em 1982.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

A arte de esculpir o tempo...

Alain Renais, 03/06/1922 - 01/03/2014
© foto de Georges Pierre, 1961
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"O tempo é o pleno, quer dizer, a forma inalterável preenchida pela mudança. O tempo é a reserva visual dos acontecimentos em sua justeza."
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Gilles Deleuze, in: A Imagem-Tempo.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"A vida es acto que conoce y cada acto, introducción al otro no saber. La inteligencia y el instinto encienden fuegos en la noche. Pero es del infinito que estamos exiliados..."

Juan Gelman, 03/05/1930 - 14/01/2014
© foto de Daniel Mordzinski, s.d.
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hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher/nem na alma
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje/que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando/e como
mas o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado.
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Juan Gelman, do livro Isso, Ed. UNB, 2004.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"Brada o anseio da liberdade e da estepe, dos corações entre cordões de isolamento..."

Nelson Rolihlahla Mandela (1918-2013)
 escultura de Marco Cianfanelli ¹ 
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Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
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Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
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Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
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Não importa o quão estreito seja o portão
e quão repleta de castigos seja a sentença,
eu sou o dono de meu destino,
e sou o capitão de minha alma.
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William Ernest Henley.
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¹ Escultura inaugurada em 2012, por ocasião do aniversário de 50 anos da prisão do líder africano pelo regime do Apartheid. O local é o mesmo onde Mandela foi capturado, em 05 de agosto de 1962, na província de Kwazulu Natal, Howick. Ele passaria 27 anos na prisão.
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sábado, 17 de dezembro de 2011

"Nos meus olhos o tempo é uma cegueira. E a minha eternidade, uma bandeira aberta em céu azul de solidões..."

Sodade, Cesária Évora (27/08/1941 | 17/12/2011)
-.
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Sem muito ânimo para ruminações sobre a inexorabilidade do tempo. Não tem jeito. Ele passa e leva tudo consigo. Vento forte que quebra a vidraça, estraçalha; a gente conserta, ou finge que conserta, até que acontece novamente. De todo modo, me resta a impressão de que o saldo é negativo. Perde-se gente como Sérgio Britto (29/06/1923 | 17/12/2011) e Cesária Évora, ao passo que criaturas medíocres parecem embalsamadas. Tempo, tempo, tempo... és um senhor impreciso!
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"Quem te indicou
Esse caminho longínquo?
Esse caminho
Para São Tomé
Saudade
Da minha terra de São Nicolau
Se me escreveres
Eu te escreverei
Se me esqueceres
Eu te esquecerei
Até ao dia
Que tu voltares"
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Sodade, tradução.
Música de Armando Zeferino Soares.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Porque sem os olhar, deixo de lado os restos agonizantes do mundo..."


Estamira,
direção de Marcos Prado, 2005



D. Estamira faleceu ontem no Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro, após aguardar atendimento, sem sucesso, por dois dias.


"Isso aqui é um depósito dos restos,
às vezes é só resto.
E às vezes vem também descuido.
Resto e descuido..."

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

De Lucian Freud para Amy, com carinho

Lucian Freud, 08/12/1922 - 20/07/2011
© foto de David Dawson, 2010



"Alleine", que significa sozinho em alemão foi, segundo sua mãe, a primeira palavra que Lucian Freud aprendeu a dizer. E parecem ter sido as ruminações de quando se está só, o que fomentou o universo do artista.

A mítica ascendência, cuja insistente referência parecia aborrecer-lhe, coincidentemente ou não, teve reflexo na evidente abordagem psicanalítica em sua pintura.

Se a tinta funcionava como carne, as pessoas retratadas seriam bem mais que representações corpóreas do realismo. "Que os meus retratos sejam as pessoas e não parecidos às pessoas". E o que somos nós além da "materialidade"? Ao retratar o ser humano sem suscetibilidades, concessões ou adereços, os quadros de Lucian Freud simplesmente dizem: ninguém escapa de si mesmo!


Woman Smiling, Lucian Freud, 1959




Susanna, Lucian Freud, 1999




Portrait of Lady Elizabeth Cavendish, Lucian Freud, 1950




Naked Portrait, Lucian Freud, 2001




Triple Portrait, Lucian Freud, 1987




Benefits Supervisor Sleeping, Lucian Freud, 1995




Girl With Closed Eyes, Lucian Freud, 1987




Leight On a Green Sofa, Lucian Freud, 1993




Red-Haired Man On a Chair, Lucian Freud, 1963




Ali, Lucian Freud, 1974




Reflection With Two Children, Self-Portrait, Lucian Freud, 1965




Naked Portrait With Reflection, Lucian Freud, 1980




Amy Winehouse, 14/09/1983 - 23/07/2011
desconheço a autoria da foto, Londres, 2004



Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca.

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