Herberto Helder, 23/11/1930 - 23/03/2015
© foto de Alfredo Cunha, fevereiro de 2015
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Não
posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha
vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do
mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa
canção
devastadora. Ó feroz mundo puro,
ó vida
incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas
silenciosas,
e vejo que minha lembrança é mais remota
que
tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se
dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo
da estação.
O sangue escorrega por ti, quando é a altura das
rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e
folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria
rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não
posso sentir encher-se assim a vida
com uma canção fria e uma
roseira
tão espalhada em mim.
Pode
ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de
repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente
agudeza escoar-se à maturidade
confluente
de um minuto de
verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não
cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta
delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de
feroz plenitude.
Gostaria
de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida da
obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a
eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as
roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na
tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu
próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida
inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente
silêncio
do que se não sabe.
Não
se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua
vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a
alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma
canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre
folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que
se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de
qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
— Por
sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada
nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode
ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o
amor é outro poder, a carne
vive da sua absorta permanência.
Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os
superlativos
diários. É única
e perene sobre a escondida
fluência
dos movimentos.
........................... — Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção
vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é
triste e perfeita
como um livro.
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Herbeto
Helder.
Elegia Múltipla, V.
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