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terça-feira, 9 de abril de 2019

"Diante da dor dos outros..."

Beth Gibbons, Sinfonia No.3, Mov. III: Lento - Cantabile-Semplice, Henryk Górecki
Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional Polonesa, regência: Krzysztof Penderecki, 2019
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Homens atiram 80 vezes em um carro de família assumindo o risco de matar porque o extermínio de símbolos de insignificância social, racial, sexual, econômica e ideológica tornou-se coisa banal. E você se incomoda ou mesmo chora se ainda lhe resta algum resquício de consciência. E desacredita e pragueja e se enfraquece. Tudo é muito vil e feio, vil e feio. Então, esses mesmos homens — os que ainda resistem a brutalidade, a arbitrariedade e ao adoecimento psíquico — enxergam a beleza contida no mundo, se inspiram e se apiedam dele, de sua condição ainda primeva e celestial, 'sempre' a resistir à nossa virulência opressiva e devastadora; e criam poesia. Compõem músicas, tocam instrumentos, esculpem, pintam, cultivam flores e frutos, a manutenção dos afetos... e cantam. Cantam ainda que seja um lamento.
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segunda-feira, 27 de março de 2017

"Tudo o que é musical é uma questão de reminiscência..."

Best Puccini 100 e Chopin Piano Works
para seguir escutando Noturnos...
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Últimas aquisições na "Escuta Som". 

A simpática lojinha de cd's, na Rua do Rosário, se equilibrava graças a resiliência do proprietário, um entusiasta que resistia ao esvaziamento do segmento. 

Cláudio faleceu há pouco mais de um mês e a loja vai fechar as portas essa semana. 

Enquanto o Noturno No.9 avança, só consigo pensar nas horas de boa música e que a vida sem paixões não faz o menor sentido.
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Naked

Mann und Frau (Umarmung), Egon Schiele, 1917
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É absolutamente legítimo, até mesmo necessário que, conscientemente ou não, alicercemos mecanismos de autodefesa. Mas é ainda melhor quando prescindimo-nos parcial ou totalmente deles com a mais absoluta naturalidade. Algo acerca de confiança e, sobretudo, um sentimento pacífico de que suas vulnerabilidades não se voltarão contra você. É uma dádiva.
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sexta-feira, 18 de julho de 2014

"tudo é muito eterno, só choramos por sermos condizentes..."

"Qualquer Coisa Que Brilhe", Adélia Prado
 programa Roda Viva, março de 2014
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Minha vida ganhou outros contornos quando aprendi a ler. Desde as primeiras palavras por meio das histórias em quadrinhos aos títulos exigidos na escola. Dos clássicos devorados no fim da adolescência aos livros de psicologia e filosofia. Todos, certamente, me disseram algo, contribuíram para um aprimoramento e enriquecimento não só cultural, mas sobretudo humano. No entanto, nenhum deles me ofereceu o entendimento, a beleza e a epifania que experimento através da POESIA. Não pretiro a prosa, absolutamente, mas é na poesia que eu encontro sentido e alivio para a rudeza do mundo, e o assombramento de viver.
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São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste,
a morte não ameaça, tudo é parado e vive,
num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu deus!
Que lugar perfeito!
Ainda que volta e meia alguém morra, tudo é muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
tanto mais que descubro:
Deus espera de mim o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
desde que abri meus olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui o meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso é único e não cintila.
Veio de vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.
Abba! Abba! Aceita o que me enoja,
gosma que me ocultou Teu rosto.
Vivo do que não é meu.
Toma pois minha vida
e não me prives mais
desta nova inocência que me infundes.
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Adélia Prado, in: Qualquer coisa que brilhe.
Miserere, Ed. Record, 2013.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

"O ingrediente secreto para o sexo é o amor."

The Ash Yggdrasil, Friedrich Wilhelm Heine, 1886
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Ninfomaníaca é, entre outras coisas, uma grande tiração de sarro (mais uma) do diretor Lars von Trier, com aqueles que previsivelmente classificariam o filme como "o primeiro pornô soft exibido em cinemas multiplex". 

Assim como a polifonia de Bach em justaposição com os amantes diletos de Joe, o filme louva a tríade que marca o "estilo" do cineasta: o pensamento estético e filosófico + o tragicômico + o lúdico. 

Ponto para quem mortificou-se mais com a cena da montanha e menos com a chuva de falos. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

"A flor flore, o colibri colibrisa e a poesia poesia."

St Matthew and the Angel, Caravaggio, 1602
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Imaginem um recanto na Lapa muito além da boêmia e dos tipos excêntricos, onde se respira poesia, é só poesia! O lugar chama-se Livraria Poesia Incompleta. Changuito, o proprietário, livreiro desses em extinção, migrou-se de Portugal para o Brasil, e trouxe na bagagem uma especificidade e qualidade jamais dedicadas ao gênero na cidade, quiça no país. O livro e a poesia tratados como objetos de arte, como verdadeiramente são. 
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Ele comentou e eu observei  não há livros seriados, as edições quase não se repetem. Então quando você se depara com Walt Whitman, Alejandra Pizarnik, Mallarmé, Rimbaud, Haroldo de Campos, Jorge de Sena, Edgar Alan Poe, Sophia de Mello Breyner, Goethe, Cummings, Szymborska, Drummond, T.S. Eliot... a impressão é de estar tendo um particular com cada um deles.
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No blog da livraria é possível visualizar parte do acervo, entrar em contato com o Changuito e, claro, adquirir poesia-relicário.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Nada é mais claro que o amor imerso em sua ilusão..."

Amour, de Michael Haneke, 2012
para seguir com fundo musical... Montserrat Figueras, Lamento della Ninfa, Madrigali Guerrieri et Amorosi, de Claudio Monteverdi
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Difícil escrever sobre a experiência de assistir "Amour", sem cair no desagradável que são os tais spoilers. Talvez o mais importante a ser dito seja: não compre um livro pela capa. 
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Num primeiro momento o espectador desavisado pode pensar: "Amour" é sobre tudo, menos amor. Familiarizada com a filmografia do diretor Michael Haneke, algo dizia que a experiência reservaria-me mais que meia dúzia de situações clichês.
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Amor de interesses comuns, de companheirismo, de admiração, de afetividade, de gestos corriqueiros que ganham visibilidade num cenário de metáforas. Um piano. Móveis robustos de madeira forte, cd's comprados na "Virgin", discos, livros, muitos deles. Quadros. Álbuns de fotografia. Cenário de cozinha esmaecido. 
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Amor que supunha sobreviver numa atmosfera minunciosamente preparada e preservada - como se costuma fazer com o que nos é caro - cruelmente aniquilado física e emocionalmente; sem concessões. Significâncias que hoje não passam de um mausoléu frequentado por pombos.
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Amor ressignificado diante a precariedade do corpo, dos espaços e objetos de empréstimo, da perecividade, do desconhecido.
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Amor sem abstrações, em estado bruto, mas ainda assim, e mais do que tudo, amour.
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“O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? Que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? O limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória...”
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Raduan Nassar, in: Lavoura Arcaica.
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domingo, 8 de janeiro de 2012

"Nuvens me cruzam de arribação. Tenho uma dor de concha extraviada. Uma dor de pedaços que não voltam..."

Christina's World (detail), Andrew Wyeth, 1948
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Christina's World (detail 2), Andrew Wyeth, 1948
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Christina's World (detail 3), Andrew Wyeth, 1948
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Christina's World, Andrew Wyeth, 1948
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"Mas há mais alguma coisa… Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituirem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o elétrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!"


Bernardo Soares,
heterônimo de Fernando Pessoa, in:
O Livro do Desassossego
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terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Onde uma janela se abre para o que é..."

"E assim como água fala-me...", praia da Pituba, Salvador/BA
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"...No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio..."
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Nuno Júdice.
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Felicidade: substantivo comum, feminino, singular, polissilábico..."

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"... O tempo é escasso - mãos à obra.
Primeiro é preciso transformar a vida,

para cantá-la - em seguida.

Os tempos estão duros para o artista:

Mas, dizei-me, anêmicos e anões,
os grandes, onde, em que ocasião,

escolheram uma estrada batida?

General da força humana - Verbo - marche!
Que o tempo cuspa balas para trás,

e o vento no passado só desfaça um maço de cabelos.

Para o júbilo o planeta está imaturo.

É preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício."
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Vladimir Mayakovsky.
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sábado, 1 de outubro de 2011

"Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê..."

 The Incredulity Of Saint Thomas, Caravaggio, 1601-1602
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Agradeço a troca de opiniões, o carinho e a delicadeza dos quase 600 comentários do blog, mas o mecanismo ficará desabilitado daqui para frente. Motivo? Zerar-se. É preciso CRER em recomeços.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Labyrinth...

 Labyrinth, Salvador Dali, 1941



Compêndio sobre a dor de existir.


"O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança."


"Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha."


"A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar. Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."


"Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio. Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento. Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão. Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passei o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo."


"Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja má - e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má - ,sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são. E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valeram pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapaz de agir."


"Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso noturno do meu passeio à beira-mar… Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser!"


Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.
Fragmentos de "O Livro do Desassossego".
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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Consonâncias em meio as minhas dissonâncias todas...

"Si, mi chiamano Mimi", da Ópera La Bohème, Puccini, 1896
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Maria Callas canta como se estivesse sangrando
Como se sentisse a maior de todas as dores, a emoção mais incontida.
Me emociona gente assim, em carne viva.
Logo a mim, que internalizo tanto
Que cultivo emoções em cárcere,

Nunca ditas [compreendidas?]
Que dirá cantadas com paixão.
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"Mi piaccion quelle cose
che han sì dolce malìa,
che parlano d'amor, di primavere,
di sogni e di chimere,
quelle cose che han nome poesia...
Lei m'intende?"
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Trecho da ária "Si, mi chiamano Mimi", 1º ato.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fastio...

La Notte, Tomba di Giuliano de' Medici, Michelangelo, 1524-1534
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Ando economizando palavra
acento, pontuação
Lendo um livro a cada quatro
ou cinco dias
sem borrar uma página
sem desembarcar em sonho
em terra nenhuma
Economizando a fastidiosa
falta de sentido.


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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Placebo...

Silence, Henry Fuseli, 1799-1801

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"Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado."
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Carlos Drummond de Andrade, trecho do poema "Não Passou".
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domingo, 16 de maio de 2010

"tudo pede um pouco mais de calma..."


The Swan, Carnival of the Animals, Camille Saint-Saëns, 1886
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Sem roda ou asa que leve,
o andar acelera, diminui,
às vezes pausa. Visão
e olfato se apuram. A realidade mais corriqueira
desabrocha em flor na copa de uma árvore
cem vezes vista, no canto ritmado dos pássaros,
nas ondas quebrando na praia,
na forma como se recebe ou se doa.
A contemplação exacerba os sentidos,
que instigados pelo hábito, por vezes 
banalizam tudo o que vemos e sentimos.
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ontem...

Laura and Brady in the shadow of our house, © foto de Abelardo Morell, 1994
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Dia desses sintonizei a tevê num programa infantil. Pensei: Que nostalgia da minha infância! Havia um total desconhecimento sobre o que é ter problemas, sobre o peso das decisões ou omissões. Não existiam paradigmas ou culpas maiores. Os dias passavam sem pressa cheios de leveza.
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Na volta para casa após a escola, o cheiro de comida fresquinha de mãe dobrava a esquina. As roupas sujas iam pro cesto, antes do banho com bucha. Mamãe então avisava que só depois de comer tudo, tomaríamos o suco e comeríamos a sobremesa. Geralmente uma fruta: goiaba, laranja, morango ou uva, a minha preferida. Depois a mesa dava lugar à lição de casa. Fazia a minha com gosto, enquanto meu irmão oscilava entre bocejos e garranchos. Ambos tinham certa pressa, naquela rotina parcimoniosa, a tarde era a melhor hora. Era quando mamãe deitada conosco e assistíamos desenhos. Eles eram igualmente leves, até bobinhos. Ria-se muito, gargalhava-se de doer a barriga em companhia de Snoopy, Pernalonga, Pepe Lê Gambá, Tom e Jerry, Pica-Pau, Manda-Chuva, Pepe Legal e Babalu... por fim, sempre sucumbíamos ao sono naquelas sestas vespertinas aninhadas em colo materno. Quão boas eram... Nossos sonhos de criança deveriam ganhar moldura, e ficar eternamente vivos, eternamente acessíveis, se não por nostalgia, para nos lembrar daquilo que fomos.
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Seguem alguns dos meus desenhos preferidos. Quem curtiu a infância na década de 80, certamente se recorda de como eram espirituosos. Havia uma inocência e virtuosismo na animação que não existem mais. Destaque para as trilhas sonoras, onde se escuta de Tchaikovsky à Zequinha de Abreu..
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Pica-Pau e Andy Panda no episódio "Musical Miniatures" de 1947
Músicas:
- Polonaise Military, Op.40 No.1 (Chopin)
- Three Écossaises, Op.72 No.3 (Chopin)
- Fantasie Impromptu, Op.66 (Chopin)
- Polonaise Heroic, Op.53 (Chopin)
- Scherzo, Op.31 No.2 (Chopin)

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Hortelino troca-letras, Pernalonga, Gaguinho e o Patinho feio no episódio "A Corny Concerto" de 1943
Músicas:
- Concerto No.1 para piano (Tchaikovsky)
- Tales from The Vienna Woods ( Strauss)
- Danúbio Azul (Strauss)

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Pernalonga no episódio "Long-Haired Hare" de 1948
Música:
- O Barbeiro de Sevilha (Rossini)
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Tom e Jerry no episódio "The Cat Concerto" de 1946

Música:
- Rapsódia Húngara No.2 (Franz Liszt)
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Mickey e Pato Donald no episódio "The Band Concert" de 1935

Música:
- William Tell Overture (Rossini)
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Snoopy no episódio "She’s Good Skate, Charlie Brown" de 1980
Música:
- O Mio Babbino Caro (Puccini)

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Pato Donald e Zé Carioca no episódio "Aquarela do Brasil" de 1943

Músicas:
- Aquarela do Brasil (Ari Barroso)
- Tico Tico no Fubá (Zequinha de Abreu)

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Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias.
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.
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Alberto Caeiro, heterônimo do Fernando Pessoa.
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domingo, 24 de janeiro de 2010

"O caracol não rejeita o dedo que lhe toca, encolhe-se..."

La niña de la muñeca de palo, © Foto de Alberto Korda, 1959.
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Estou triste. Falo de tristeza profunda, a que sinto quando deveria estar feliz. Tristeza de quem tem bote salva-vidas. Isso faz sentido? De quando todos riem das mesmas piadas entrecortadas por um copo de vinho ou outro etílico. De quando observo o dia claro. Já notaram como tudo fica bem torneado e limpo? As montanhas ficam acinturadas, as flores dançam uma valsa ritmada, o mar... ele dança qualquer coisa entre Beatles e Chico Buarque, depende das mares. Mas é quase sempre calmaria. E cheiro. E cochichos ao pé do ouvido. E brisa leve mudando o curso da lágrima no rosto. Nenhum daltonismo é relevante em dias assim. Cores bem definidas na brancura dos olhos. É só tristeza de saudade saciada, de saudade de sentir genuína felicidade.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Prescrição...

Man's Head, self portrait, Lucian Freud, 1963
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"Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia."
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Nietzsche.
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Upgrade:
Modifiquei a foto das "águas-vivas" encontrada no google imagem, depois de receber um comentário do autor, reivindicando com veemência a sua exclusão resguardado por direitos autorais. A mensagem foi um tanto ríspida e tão confusa, que gerou um erro de interpretação. O fato é que descobri (com auxílio de uma leitora do blog) que se tratava de uma fotografia da Cinelândia (já deletada!), vinculada ao post: "O pretérito-mais-que-perfeito."

Certo dia me perguntaram por que havia de ter um blog, não soube responder de pronto, mas certamente desejo que algo seja visto, dito, ouvido, compreendido. Alguns processos derivam de mim, e tantos outros de terceiros, aos quais me relativizam, decodificam ou inspiram, mas que em detrimento disso, merecem respeito e menção de seus inspiradores feitos.
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Na imagem, devidamente creditada, como de praxe, um auto-retrato do pintor Lucian Freud, neto do pai da psicanálise. A frase do Nietzsche em equivalência de imagem.
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Rio, 12/01/2010.
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