Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre desintegrar-se...

Anna Pavlova, "The Dying Swan", de Camille Saint Saëns, 1925
.
.
.
Parte do público frequentador de cinema certamente anseia por uma atmosfera que os mantenham em suas zonas de conforto. Afinal, "cinema é para divertir".
.
O cineasta Darren Aronofsky não seria tão assertivo. Nenhum dos cinco filmes que dirigiu até hoje flertam com soluções de fácil digestão. "Pi", "Réquiem para um Sonho", "A Fonte da Vida", "O Lutador" e o recente "Cisne Negro", discorrem sobre um mesmo tema; dramas humanos em toda a sua visceralidade e exageros. O que se vê são trajetórias marcadas por algum excesso, por alguma danação que nos torna tão humanos e improváveis.
.

Algumas pessoas presentes à exibição de "Cisne Negro", há um par de dias, pareciam desconhecer essa predileção de Aronofsky pela via crucis do corpo.
.
Nina Sayers é uma bailarina que se divide entre a rotina árdua da profissão e uma relação castradora com a mãe. A companhia de dança a qual faz parte, planeja encenar uma versão de "O Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky. Nina é escolhida, com restrições, para o papel principal. Seu comportamento reprimido e a obsessão pela perfeição a qualificam para viver Odete, o virginal e convencional Cisne Branco, ao ponto que esbarra na sensualidade e despudor exigidos na composição de Odile, o Cisne Negro.
.
Interpretações literais são quase sempre limitantes. Talvez tenham sido elas a causar reações desconfortáveis na sala de exibição e a criar inúmeras opiniões sobre o filme.
.
"Cisne Negro" não é sobre o mundo do balé clássico, sobre dicotomias óbvias ou demonstrações do nosso descontrole ante situações extremas.
.
Via crucis do corpo, recordam-se? O sacrifício da vez se manifesta na desintegração psicológica da personagem. O antagonismo dos cisnes é um aforismo à destruição dos "sistemas" que mantém qualquer um de nós em equilíbrio.
.
A realidade asfixiante de um ambiente profissional competitivo e da relação com a mãe, não são causa, e sim, efeito. Eles apenas agitam, principiam o processo confuso que é a perda do discernimento. O filme se mostra impecável ao retratar o quão é excruciante essa deterioração dos sentidos. A exata percepção de quem não separa mais o real, do ficcional.

Para tanto, Aronofsky faz uso de farta referência psicanalítica, sobretudo no que concerne a imagem constante de sua anti-heroína refletida em espelhos. A duplicidade do sujeito é referida por Freud e explicitada por Lacan, que observou que a constituição do ser humano está marcada pela imagem especular, a partir da qual ele se estrutura e se aliena, pois nos reconhecemos inicialmente em uma imagem que não corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos.

.
O próprio conceito de inconsciente carrega consigo a marca dessa divisão estrutural e da constante alienação do sujeito a esse algo que ele desconhece. "Quem sou?". A questão vai além da aparência, do conceito narcísico; por detrás da imagem produzida pelo espelho, alinha-se a busca incessante da verdadeira identidade do ser.
.
A personagem (vivida excepcionalmente pela atriz Natalie Portman), passa todo o filme numa busca delirante por essa identidade já fragmentada e débil, odisséia que alcança o seu clímax no momento derradeiro em que ela atinge a "perfeição".
.
"Cisne Negro" possui a grande virtude de transportar-nos para além da experiência visual. Como visitar o caos da desintegração psicológica sem experimentar o claustro, o desconforto, a alucinação ou a histeria?
.

Cinema pode ser sensorial, metafísico e transcendente.
.
.
.
* * *
.
"O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – então percebeu o seu mistério.
.

....descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro – e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante – nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água."
.
Clarice Lispector.
Trecho do conto "Os Espelhos".
.
.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Agenda: Grete Stern e o Subconsciente Feminino

Grete Stern, Ellen Auerbach, 1929
.
.
.
Imagine uma técnica de fotografia enraizada na psicanálise de Freud e na psicologia analítica de Jung, aliada à conceitos do surrealismo, expressionismo e dadaísmo.
. 

Sob essas bases se estruturam alguns dos trabalhos da fotografa alemã Grete Stern. Suas fotomontagens foram-me apresentadas há anos atrás numa sala de aula. Achei-as singulares, senão pela técnica numa época onde não existiam programas avançados de tratamento de imagem, pela representação onírica do imaginário feminino.
. 

Parte de seu significativo trabalho será exposto a partir do dia 15, no Instituto Moreira Salles. Serão exibidas 46 imagens remanescentes da série completa de 140, publicadas pela revista argentina Idílio, de 1948 à 1951. O projeto é fruto da coluna semanal "El psicoanálisis le ayudará", onde leitoras enviavam à revista seus sonhos e estes eram analisados por psicanalistas, para então serem representados pelas fotomontagens de Stern.
.
Segue algumas fotos expostas da mostra. Lembrando que a série é reproduzida integralmente no catálogo da exposição. 
.
.
.
Sem título, Os sonhos de projeção, 1948
 .
.
.

Garrafa no mar, Os sonhos sobre inibições, 1950 
.
.
.
Amor sem ilusão, Os sonhos sobre transposições, 1950 
.
.
.
Sem título, Os sonhos sobre artigos elétricos para o lar, 1950
 .
.
.
Sem título, Os sonhos sobre aprisionamento, 1949 
.
.
.

Sem título, Os sonhos com lavanderia, 1950 
.
.
.
Menino-flor, Os sonhos com crianças, 1948 
.
.
.
Sem título, Os sonhos sobre o triunfo e dominação, 1949
 .
.
.

Sem título, Os sonhos sobre emudecimento, 1950 
.
.

.
Sem titulo, Os sonhos sobre cansaço, 1949
.
.
.
Os Sonhos de Grete Stern: fotomontagens
Instituto Moreira Sales
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
De 15 de Dezembro à 17 de Janeiro de 2010
Ter à Sex, das 13h às 20h; Sáb, Dom e Feriados, das 11h às 20h
Entrada franca.
.


* * *
.
.
"(…) na realidade não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, não há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de matizes, de situações, de heranças e possibilidades. Cada indivíduo isolado vive sujeito a considerar esse caos como uma unidade e fala de seu eu como se fora um ente simples, bem formado, claramente definido; e a todos os homens, mesmo aos mais eminentes, esse rude engano parece uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer. O equívoco reside numa falsa analogia. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma."
.

.
Hermann Hesse, in: O Lobo da Estepe.
.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Ser ou não ser...

 Golconda, René Magritte, 1953
.
.
.
"Isso é dificilmente possível. Penso que haverá uma reação contra esse acordo de dissociação. O homem não dura para sempre. Sua anulação. Haverá uma reação e eu a vejo se instalando. Sabe, quando penso em meus pacientes, eles todos procuram sua existência, e afirmar sua existência contra a completa atomização para o nada ou para a falta de significado."


Palavras de Carl Jung em entrevista remota, quando indagado sobre a necessidade das pessoas se comportarem de forma comum, impulsionadas pelo mundo que se torna mais eficiente tecnicamente.

Esperava-se que fosse possível, o mais alto desenvolvimento humano submergir na sua própria individualidade em um tipo de consciência coletiva.


Décadas passaram e o processo preconizado por ele não poderia ser mais contraditório. Experimentamos um estado de pseudo verdades universais, mas a que passo de coerência?

Existe um quê de automatização dessa consciência dissolvida em conceitos difusos, intolerâncias, mornidão, em um quase processo de involução.

Ao ponto que encontrar o significado da sua existência continua sendo a maior indagação e necessidade, o ser humano caminha abstraído pela facilidade do hermetismo.

Afinal, pensar pode te deixar à beira de um abismo. Arriscar consiste em dores ocasionais. Mudar tem a ver com altruísmo e desapego. Humanização requer desmistificação.
.
.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails