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domingo, 20 de janeiro de 2019

"...a alma dele é preparada, é bastante profissional, somente o corpo é sempre amador..."

Underwater Diver, Louis Boutan, 1899
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O homem não tem tempo
para tudo na vida.
Ele não tem uma época
para cada um de seus desejos.
O Eclesiastes não está certo.

O homem precisa odiar

e amar ao mesmo tempo,
com os mesmos olhos chorar
e com os mesmos olhos rir,
com a mesma mão atirar pedras
e com a mesma mão recolhê-las,
fazer amor na guerra e guerra no amor.

Odiar e perdoar, lembrar e esquecer,
organizar e confundir, comer e digerir
o que a história
faz ao longo de muitos e muios anos.

O homem na vida não tem tempo. 
Quando ele perde ele procura,
quando ele acha ele esquece,
quando ele esquece ele ama
e quando ele ama começa a esquecer.

a alma dele é preparada 
é bastante profissional,
somente o corpo é sempre
amador. Tenta e erra,
não aprende, confunde-se 
bêbado, cego nos prazeres e nas dores.

A morte dos figos é no outono,
encarquilhados, cheios de si e doces,
as folhas secam sobre a terra,
os galhos nus já apontam
o lugar onde há tempo para tudo.
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O Homem não tem tempo, 
Yehuda Amichai.
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Do livro Terra e Paz: Antologia Poética, 
Ed. Bazar do Tempo, 2018.
Tradução: Moacir Amâncio.
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domingo, 28 de janeiro de 2018

"...Como uma criatura humana, estou cansado, muito cansado..."

Twirling Wires, Roger Ballen, 2001
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Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade
não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas
ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro
estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer.
Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo.
Como uma criatura humana, estou cansado, muito cansado.

Nasci em 1924. Quando penso em criaturas humanas,
vejo apenas as que nasceram no ano em que nasci,
cujas mães trabalharam lado a lado com a minha
onde quer que estivessem, em hospitais ou casas escuras.

Hoje, no meu aniversário, gostaria de recitar
uma prece solene para vocês
cujas vidas já se curvaram sob o peso
das esperanças e das frustrações,
cujos feitos se apequenam, e cujos deuses se multiplicam –
vocês são todos irmãos da minha fé, companheiros
de meu desespero.

talvez vocês encontrem a paz duradoura,
os vivos em suas vidas, os mortos
em estarem mortos.

E quem quer que lembre melhor de sua infância
é o vencedor,
se é que há vencedores.

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Yehuda Amichai.
Trad. Pedro Gonzaga.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"o corpo é a causa do amor..."

Relation in Time, Marina Abramović and Ulay, 1977
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Primeiro o corpo é a causa do amor
depois a fortaleza que o protege
por fim seu cárcere.
E quando o corpo morre, o amor jorra
caudalosamente 
como de um caça-níqueis clandestino quebrado
jorram de súbito
com estrondo todas as moedas de gerações
e gerações entregues à própria sorte.
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Yehuda Amichai.
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