Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Como isolar a alma se ela é corpo..."

The Reunion of the Soul and the Body, William Blake, 1808
.
.
.
(...)
Quis possuir a alma
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.

Quis possuir a alma
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.

Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.

Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.

Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento.

Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?

Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?

Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.

Se o corpo não é seu,
alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.

Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
(...)

.
.
Carlos Nejar.
.
.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

(( Dasein ))

Lacrimosa, composição de Zbigniew Preisner. 
Tema e imagens do filme "A Árvore da Vida", de Terence Malick.



Eia a eternidade.
Tudo se bifurca
nestas amplas margens
de águas insaciáveis
onde trilham remos.

É menear de ombros?
É alvor de coisas
nunca regressadas?
Rumores de lebre
por entre ruínas:
eis a eternidade.

Nada ali se trunca,
invisível bússola,
aluvião de sendas,
corda absoluta.
O que nela esmaga
é um jorrar de nuncas.
Eia a eternidade.

Busco a outra face
de alguém que não toco
e jamais percebo:
eis a eternidade.

Um puro acabar-se
de rotas palavras.
Início de arte?
Excesso de morte?
Mudo evaporar-se
de silêncios altos.

Eia a eternidade.


Carlos Nejar.


LinkWithin

Related Posts with Thumbnails