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segunda-feira, 15 de junho de 2015

"O tempo está vivendo-me..."

Baleen, Andrew Wyeth, 1982
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Escrituras de luz investem na sombra, mais prodigiosas que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambiciosos e tento entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira de ferro, prestes a atacar.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.
Meu nome é alguém e qualquer um.
Passo devagar, como quem vem de tão longe que não espera chegar.
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Jorge Luis Borges.
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sábado, 27 de outubro de 2012

"Ninguém perde (repetes em vão) senão quem não tem e que não teve nunca..."

 Acrobat with bouquet, Marc Chagall, 1963

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Já não é mágico o mundo. Te deixaram.    
Já não partilharás a clara lua                      
nem os lentos jardins. Já não há uma        
lua que não seja espelho do passado,       
cristal de solidão, sol de agonias.              
Adeus às mútuas mãos e as têmporas       
que aproximavam no amor. Hoje só tens    
a fiel memória e os desertos dias.             
Ninguém perde (repetes em vão)              
senão quem não tem e que não teve        
nunca, mas não basta ser valente              
para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, te desgarra           
e te pode matar uma guitarra.                    
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II
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Já não serei feliz. Talvez não importe.       
Há tantas outras coisas no mundo;            
Um instante qualquer é mais profundo       
e diverso que o mar. A vida é curta              
e ainda que as horas sejam tão longas, uma
escura maravilha nos ronda,                        
a morte, esse outro mar, essa outra flecha  
que nos livra do sol e da lua                          
e do amor. A sorte que me deste                  
e me tiras-te deve ser apagada;                   
o que era tudo tem que ser nada                  
Só me resta o gozo de estar triste               
esse inútil costume que me inclina              
ao sul, a certa porta, a certa esquina.
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Jorge Luis Borges.
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domingo, 29 de abril de 2012

"Olhar o rio feito de tempo e água, e recordar que o tempo é outro rio..."

 Ulysses Deriding Polyphemus, William Turner, 1829
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Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.
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Perceber que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que se chama sonho.
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Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo

dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
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Ver na morte o sonho, entrever no ocaso

Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.
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Às vezes durante as tardes um rosto

Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.
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Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.
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Também é como o rio interminável,

Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
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Jorge Luis Borges.
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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Variações sobre um mesmo tema: a impermanência

The Old Courtesan, Auguste Rodin, 1887, bronze in 1910



A força da gravidade derrubando as folhas das árvores já secas, enrugadas, esmaecidas. É outono e tudo é meio cinza, meio derradeiro... as cores primaveris e a força solar dos verões são estações passadas. Entretanto, em nenhum de seus ciclos, o perecer de uma folha é mais resiliente, apaziguante. Nessa altura, onde o inverno se aproxima, firma-se uma treguá com o tempo. Uma aceitação mútua de suas naturezas indissociáveis, porém dispares: a beleza da vida está para a efemeridade de viver.

Queremos do tempo, o próprio tempo; o sentido, as respostas, a inteireza, a eternidade, e ele só nos pede transcendência.



An Old Woman of Arles, Vincent Van Gogh, 1888



Living in Three Centuries, © foto de Mark Story, d.d



Old Woman With Ball Yarn, Marc Chagall, 1906



Portrait of an Old Woman, Pieter Bruegel, "the Elder", 1563



Old Woman, Christian Seybold,1749-1750



Study of a Man Aged 93, Albrecht Dürer,1521



Old Woman Dozing, Nicolaes Maes, 1656



Portrait of a Old Woman, Guido Reni, 1612



Head of an Old Woman, Orazio Borgianni,1610



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...
Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.
Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações sutis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?
Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh vida! oh labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.
Cá ’stão os bons d’outrora, entes que já gozaram
horas de ouro, e também... como elas se escoaram.
Não me hão-de ouvir agora os mesmos, bem o sei,
para quem noutro tempo os versos meus cantei.
Sumiu-se, aniquilou-se aquela amiga turba,
que nem com som mortiço os ecos já perturba.
Vibra meu canto agora a ignota multidão,
cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;
e os a quem meu cantar outrora foi jucundo,
erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo.
Ai, plácida mansão, de espíritos morada!
revive na saudade, há tanto descorada!
Começa em vagos sons meu estro a palpitar,
qual de uma harpa eólia o triste delirar...
Já sinto estremeções; o pranto segue ao pranto,
e o duro coração se abranda por encanto.
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.

Goethe, in: Fausto (prólogo).



Portrait of an Old Woman, Ilya Repin, 1870



Sir John Herschel, © foto de Julia Margaret Cameron, 1867



Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity), Van Gogh, 1890



Portrait of a Woman Suffering from Obsessive Envy, Theodore Gericault, 1822



Vieille Femme Avec a Chapelet, Paul Cézanne, 1896



An Elderly Peasant Woman, Léon-Augustin L'hermitte, 1878



Old Woman Praying, Matthias Stom, 1640



Kazuo Ohno, © foto de Yoshihiko Ueda, d.d.



Judith Beheading Holofernes (detail), Caravaggio, 1598



Self Portrait Reflection, Lucian Freud, 2002



A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in: Elogio da Sombra.
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quarta-feira, 3 de março de 2010

"o que fica nas palavras daquilo que se viveu?"

José Mindlin, 1914-2010
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"Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver."
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Essa frase é do bibliófilo José Mindlin que faleceu no último dia 28.
.Mindlin que se dizia um "colecionador patológico", começou a formar a maior e mais relevante biblioteca privada do país aos 13 anos de idade.
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Acumulou mais de 40 mil volumes, parte deles, doados à Universidade de São Paulo em 2006, ano em que foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
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Admiro e entendo tamanha devoção.
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Adquirir o hábito da leitura por nenhum outro motivo que não seja o prazer de ler. Foi o que me ocorreu quando fiquei entediada com as figuras dos gibis e decidi que precisava entender o que se passava nos "balõezinhos brancos".
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Ter aprendido a ler aos três anos talvez seja a maior conquista da minha vida. Daquele momento em diante, nunca mais me senti completamente só. Existiam as estórias alheias e através delas poderia estar em qualquer lugar, ser qualquer pessoa, tendo a ilusória impressão de que continuava sendo a mesma.
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Ler é sonhar de olhos abertos e nunca se esquecer dos sonhos que teve.
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Voyage pittoresque et historique au Brésil, Debret, 1834-39
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A gravura compõe o livro "As Viagens Pitorescas de Debret" e faz parte do acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guida e José Mindlin. O órgão da Universidade de São Paulo foi criado para abrigar a coleção doada pelo bibliófilo e sua esposa, a restauradora Guida Mindlin. Além da internet, os livros estarão disponíveis no prédio que está sendo construído no campus da USP.

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"Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão do corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão e o telefone é a extensão de sua voz. Em seguida, temos o arado e a espada; extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação."
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Jorge Luis Borges.
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