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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ressignificação do tempo...

Chronos, Franz Ignaz Günther, 1765-70
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O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.
Não sei.
Outros ecos
Se aninham no jardim. Seguiremos?
Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os
Na curva do caminho. Pela primeira porta,
Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos
A trapaça do tordo? Em nosso mundo primeiro,
Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,
Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E o pássaro cantou, em resposta
À inaudita música oculta na folhagem.
E um radiante olhar impressentido trespassou o espaço,
porque as rosas
Tinham a aparência de flores contempladas.
Lá estavam eles, como nossos hóspedes, acolhidos e acolhedores.
Assim, caminhamos, lado a lado, em solene postura,
Ao longo da alameda deserta, rumo à cerca de buxos,
Para mergulhar os olhos no tanque agora seco.
Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,
E o tanque inundado pela água da luz solar,
E os lótus se erguiam, docemente, docemente,
A superfície flamejou no coração da luz,
E eles atrás de nós, refletidos no tanque.
Passou então uma nuvem, e o tanque esvaziou.
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,
Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
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T. S. Eliot, Four Quartets 1: Burnt Norton.
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Todo o tempo é irredimível. O que poderia ter sido é uma abstração."

The Persistence of Memory (Detail), Salvador Dalí, 1931
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As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Pode apenas morrer. As palavras, após a fala, alcançam
O silêncio. Apenas pelo modelo, pela forma,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio sempre estiveram lá
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
Estalam e muitas vezes se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem quedar-se quietas.
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T.S. Elliot, in: Burnt Norton (trecho).
Primeiro poema de "Four Quartets".

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Variações sobre um mesmo tema: São Jorge e o Dragão


Jorge de Capadócia, Caetano Veloso
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É bem verdade que São Sebastião é o padroeiro legítimo da cidade do Rio de Janeiro, mas talvez não seja tão festejado e reverenciado quanto São Jorge. Reza a história, que o mártir nasceu durante o século terceiro entre 275 e 285 dC. em Capadócia, região da Anatólia, hoje parte da Turquia.
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Aos 17 anos de idade, alistou-se na cavalaria do exército romano em Nicomédia, durante o reinado do imperador Diocleciano. Este tinha interesse em instaurar o paganismo romano. Para tanto, emitiu um decreto que mandava destruir igrejas e cerceava direitos de quem admitisse ser cristão.
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São Jorge se opôs ao decreto imperial, mantendo-se fiel ao cristianismo e rebelando-se contra os excessos do Imperador. Diocleciano tentou convencê-lo, primeiro com recompensas, que foram recusadas, depois torturando-o de várias formas. Reconhecendo a inutilidade de seus esforços, mandou degolá-lo em 23 de abril de 303 d.C.
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São Jorge foi canonizado em 494 d.C., pelo Papa Gelásio I. É padroeiro da Inglaterra e de várias cidades européias. No Brasil, parte da devoção ao Santo Guerreiro extravasa a liturgia católica e se ramifica dentro da mitologia Yorubá, sob a representação do orixá Ogum.
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A alegoria do dragão dentro das representações pictóricas de São Jorge:
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St. George Praying After Slaying the Dragon, Heinrich Lefler, Data incerta
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St. George On Horseback, Albrecht Dürer, 1505-08
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St.George Killing The Dragon, Jacopo Bellini, Séc. XV

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St. George Killing the Dragon, Eugene Delacroix, Data incerta

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St. George and the Dragon (detail), Vittore Carpaccio, 1516

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St. George Slaying the Dragon, Hans Von Aachen, Data incerta

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St. George and the Dragon, Gustave Moreau, Data incerta

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St. George and the Dragon, Antony Van Dyck, Data incerta
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St. George and the Dragon, Tintoretto, 1555-58
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St. George and the Dragon, Raffaello Sanzio, 1505-06
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St. George on Horseback, Mattia Preti, 1658

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St. George Slays the Dragon, Lucas Cranach (the elder), Data incerta
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St. George Fighting the Dragon, Peter Paul Rubens, 1606-10.
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"...Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá, enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica..."
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T.S. Eliot, in: Gerontion's.
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