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terça-feira, 5 de julho de 2011

À deriva...

Le Radeau de la Méduse, Théodore Géricault, 1819



"Nós estamos no mundo em que chamamos "Mundo audiovisual". Nós estamos efetivamente repetindo a situação das pessoas aprisionadas ou atadas na Caverna de Platão. Olhando em frente, vendo sombras, e acreditando que essas sombras são realidade. Foi preciso passar todos esses séculos para que a Caverna de Platão aparecesse finalmente no momento da história da humanidade, que é hoje. E vai ser, e vai ser cada vez mais...

Vivemos todos numa espécie de Luna Park audio-visual. Onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós, creio eu que isso vai acontecer, vamos cada vez mais nos sentir perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios. E em segundo lugar, perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular por aí sem saber muito bem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência."


José Saramago, fragmento do depoimento no documentário, "Janela da Alma", de João Jardim e Walter Carvalho, 2002.

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Variações sobre um mesmo tema: pena capital

Caim e Abel, Tiziano Vecellio, 1542-1544
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E Caim matou Abel, e...

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O Massacre dos Inocentes, Peter Paul Rubens, 1636-1638
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Reprodução da passagem bíblica narrada no Evangelho de Matheus, em que o Rei Herodes, na intenção de ceifar a vida de Jesus Cristo recém-nascido, ordena o assassinato de todos os bebês do sexo masculino nascidos em Belém.
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A Execução de Lady Jane Grey, Paul Delaroche, 1833
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Prima em segundo grau do Rei Eduardo VI, Jane Grey não fazia parte da linha sucessória da monarquia inglesa e só foi proclamada Rainha, graças a uma estratégia que visava manter no poder alguém que fosse manipulável e que sobretudo, seguisse a doutrina protestante. Jane ocupou o posto por exatos nove dias, sendo destronada após um levante e executada como traidora. Tinha 16 anos de idade.
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O quadro de Delaroche chama a atenção pelas dimensões (mede 2.46 x 2.97), pela riqueza de detalhes e pela incrível palheta de cores.
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A Morte de Sócrates, Jacques Louis David, 1787
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Representação da morte do filósofo grego Sócrates, acusado de ateísmo e de corromper os jovens de Atenas. Foi condenado a morrer bebendo cicuta (planta tóxica). No quadro de Jacques David, Sócrates aponta para o céu numa espécie de afirmação de uma de suas maiores crenças, a imortalidade da alma.
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O Processo, Franz Kafka, 1925
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Imagine acordar numa manhã e ter sua liberdade cerceada sem motivo aparente. No romance de Franz Kafka, Josef K., é acusado por algo que nem mesmo sabe o que é. Quanto mais tenta entender o processo em que está envolvido, mais se depara com situações inverossímeis e absurdas. O livro, assim como a indefinição acerca da má condição de Josef, deixa margem à interpretações. Controle e alienação. Totalitarismo. Fábula metafísica existencialista. Sob um ponto de vista simplista, dizer-se-ia que Kafka fala basicamente sobre formas distintas de aniquilação.
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A Cruxificação de São Pedro, Caravaggio 1601
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A pintura retrata o martírio de São Pedro ao ser preso pelos romanos. O apóstolo pediu para que sua cruz fosse invertida, de modo a não imitar Jesus Cristo, sendo assim crucificado de cabeça para baixo.
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O Martírio de Joana D’arc, dir. Carl Theodor Dreyer, 1928
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Joana D’arc escutava vozes, fruto de esquizofrenia ou santidade, que a incitavam a lutar contra a ocupação de seu país pelos ingleses. Acusada de heresia, foi martirizada e queimada viva pela Santa, Santíssima Inquisição...
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O diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer, imortalizou sua história em filme de 1928. O Martírio de Joana D’arc conta ao meu ver, com uma das mais espetaculares atuações femininas da história do cinema. Sem emitir um som sequer, Maria Falconetti atinge a epifania no ofício de atuar. Em seu semblante resignado, vê-se a própria Joana D'arc.
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A versão integral do filme pode ser assistida no You Tube.
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"O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo..."
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José Saramago, in: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

"esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo..."

José Saramago
16/11/1922 - 18/06/2010
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"...esse é um dos efeitos do tempo, apagar."
José Saramago, in: A Jangada de Pedra.
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"Ensaio sobre a lucidez", segunda parte da entrevista concedida ao jornalista Edney Silvestre em 2007 *
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* a primeira parte da entrevista, aqui
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quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Parábola dos Cegos...

The Parable Of The Blind Leading The Blind, Pieter Bruegel (o velho), 1568
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Virtuosamente espremidos entre o mar e as montanhas estamos à deriva.
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Condição autoinfringida por um instinto que beira a misantropia e anda falando mais alto que o instinto de sobrevivência.
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Se o homem é mesmo um produto do meio em que vive, o que esperar de um mimetismo social fundamentado no consumo desenfreado, individualização e uso indiscriminado dos recursos naturais?
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"Chegará mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueria era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás de seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis."
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José Saramago, in: Ensaio sobre a Cegueira.

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