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sábado, 2 de março de 2013

A sagração da primavera...

Le Sacre Du Printemps, Pina Bausch, © Maarten Vanden Abeele
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"Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas (...) quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne (...) tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão. Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto que em mim se prepara (...) há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. Que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria." 
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Clarice Lispector, in: A Descoberta do Mundo.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Há 92 anos...

'Silêncio Lispectoriano', Claudia Andujar, 1961
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–  Você tem paz, Clarice?
–  Nem pai, nem mãe.
–  Eu disse "paz". 
–  Que estranho, pensei que tivesse dito "pais". Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada.
Paz? Quem é que tem?
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Benjamin Moser, in: Clarice,
 Ed. Cosac Naify, 2009.
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"O mundo se me olha. Tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto, as coisas sabem as coisas..."

Play of Lights, Louis Fleckentein, 1912
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Personagem de seus personagens, autora e leitora de seu próprio livro, que nele e através dele se recapitula, Clarice Lispector, ortônima no meio de seus heterônimos, finalmente se inscreve no fecho da obra, escrevendo o antecipado epitáfio, por onde começa e acaba o texto de Um Sopro de Vida:


Já li este livro até o fim e acrescento alguma notícia neste começo. Quer dizer que o fim, que não deve ser lido antes, se emenda num círculo ao começo, cobra que engole o próprio rabo. E, ao ter lido o livro, cortei muito mais que a metade, só deixei o que me provoca e inspira para a vida: estrela acesa ao entardecer. (...) No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim uma aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malgrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar.
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Benedito Nunes, in: O Drama da Linguagem, uma leitura de Clarice Lispector.
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sábado, 23 de junho de 2012

"ah ‘persona’, como não te usar e ser!"

Marcel Marceau, The Mask Maker, 1959
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"Então, sem entender o que fazia – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era.

Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma másca­ra de pintura no rosto – ah ‘persona’, como não te usar e ser! – sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-­se e foi..."
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Clarice Lispector, in: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
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terça-feira, 17 de abril de 2012

"A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

Winged Victory of Samothrace, 190 a.C
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"E se sou líquida como é líquido o informe, antes sou gotas de mercúrio do termômetro quebrado líquido metal que se faz círculo cheio de si e igual a si mesmo no centro e na superfície, prata que tomba e não derrama, liquidez sem umidade."
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Clarice Lispector apud Olga Borelli, in: Esboço para um Possível Retrato.
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domingo, 30 de outubro de 2011

"Enquanto se espera que o coração entenda..."

Girl with Roses, Lucian Freud, 1947-1948
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"O que é angústia?
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Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria – o que também é uma forma de angústia.
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Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
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Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda..."
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Clarice Lispector, in: A Descoberta do Mundo.
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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Correspondências: Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst

Clarice Lispector, Giorgio de Chirico, 1945



Hildinha,


A carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico.

Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela.

Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor.

Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — "Fica comigo". Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela.

Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu,


Caio.



* Caio e Hilda se conheceram em meados de 1968, quando o escritor, então perseguido pela ditatura militar, refugiou-se na Chácara do Sol, residência de Hilda, em Campinas, São Paulo.




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre desintegrar-se...

Anna Pavlova, "The Dying Swan", de Camille Saint Saëns, 1925
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Parte do público frequentador de cinema certamente anseia por uma atmosfera que os mantenham em suas zonas de conforto. Afinal, "cinema é para divertir".
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O cineasta Darren Aronofsky não seria tão assertivo. Nenhum dos cinco filmes que dirigiu até hoje flertam com soluções de fácil digestão. "Pi", "Réquiem para um Sonho", "A Fonte da Vida", "O Lutador" e o recente "Cisne Negro", discorrem sobre um mesmo tema; dramas humanos em toda a sua visceralidade e exageros. O que se vê são trajetórias marcadas por algum excesso, por alguma danação que nos torna tão humanos e improváveis.
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Algumas pessoas presentes à exibição de "Cisne Negro", há um par de dias, pareciam desconhecer essa predileção de Aronofsky pela via crucis do corpo.
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Nina Sayers é uma bailarina que se divide entre a rotina árdua da profissão e uma relação castradora com a mãe. A companhia de dança a qual faz parte, planeja encenar uma versão de "O Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky. Nina é escolhida, com restrições, para o papel principal. Seu comportamento reprimido e a obsessão pela perfeição a qualificam para viver Odete, o virginal e convencional Cisne Branco, ao ponto que esbarra na sensualidade e despudor exigidos na composição de Odile, o Cisne Negro.
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Interpretações literais são quase sempre limitantes. Talvez tenham sido elas a causar reações desconfortáveis na sala de exibição e a criar inúmeras opiniões sobre o filme.
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"Cisne Negro" não é sobre o mundo do balé clássico, sobre dicotomias óbvias ou demonstrações do nosso descontrole ante situações extremas.
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Via crucis do corpo, recordam-se? O sacrifício da vez se manifesta na desintegração psicológica da personagem. O antagonismo dos cisnes é um aforismo à destruição dos "sistemas" que mantém qualquer um de nós em equilíbrio.
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A realidade asfixiante de um ambiente profissional competitivo e da relação com a mãe, não são causa, e sim, efeito. Eles apenas agitam, principiam o processo confuso que é a perda do discernimento. O filme se mostra impecável ao retratar o quão é excruciante essa deterioração dos sentidos. A exata percepção de quem não separa mais o real, do ficcional.

Para tanto, Aronofsky faz uso de farta referência psicanalítica, sobretudo no que concerne a imagem constante de sua anti-heroína refletida em espelhos. A duplicidade do sujeito é referida por Freud e explicitada por Lacan, que observou que a constituição do ser humano está marcada pela imagem especular, a partir da qual ele se estrutura e se aliena, pois nos reconhecemos inicialmente em uma imagem que não corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos.

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O próprio conceito de inconsciente carrega consigo a marca dessa divisão estrutural e da constante alienação do sujeito a esse algo que ele desconhece. "Quem sou?". A questão vai além da aparência, do conceito narcísico; por detrás da imagem produzida pelo espelho, alinha-se a busca incessante da verdadeira identidade do ser.
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A personagem (vivida excepcionalmente pela atriz Natalie Portman), passa todo o filme numa busca delirante por essa identidade já fragmentada e débil, odisséia que alcança o seu clímax no momento derradeiro em que ela atinge a "perfeição".
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"Cisne Negro" possui a grande virtude de transportar-nos para além da experiência visual. Como visitar o caos da desintegração psicológica sem experimentar o claustro, o desconforto, a alucinação ou a histeria?
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Cinema pode ser sensorial, metafísico e transcendente.
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"O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – então percebeu o seu mistério.
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....descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro – e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante – nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água."
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Clarice Lispector.
Trecho do conto "Os Espelhos".
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Introspectiva[mente]

Melancholy, Edgar Degas, 1874
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Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
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Clarice Lispector, in: Correspondências.
Carta enviada a Fernando Sabino em 05 de outubro de 1953.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Correspondências: Clarice Lispector e Olga Borelli

Um pedido precavido de amizade, Clarice em foto de 1954, desconheço o autor

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Olga, datilografo esta carta porque minha letra anda péssima.

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Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

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Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes (não repare na acentuação, quem acentua para mim é o tipógrafo) tenho esperança. A passagem da vida para morte me assusta: é igual como passar do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.
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Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.
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Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.

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Sua, Clarice.

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* Clarice e Olga Borelli se conheceram em meados de 1970. Após terem estado juntas em algumas ocasiões, Clarice escreveu-lhe essa carta com um "pedido precavido de amizade". Olga estava perto quando Clarice morreu...

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

As angústias de ser...

Difesa Della Luce, © Roberto Kusterle, 2002

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Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma - eu cuspia a mim mesma, sem chegar jamais ao ponto de sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda [...]


Só parei na minha fúria quando compreendi com surpresa que estava desfazendo tudo o que laboriosamente havia feito quando compreendi que estava me renegando. E que, ai de mim, eu não estava à altura senão de minha própria vida.

Parei espantada, e meus olhos se encheram de lágrimas que só ardiam e não corriam. Acho que eu não me julgava sequer digna de que lágrimas corressem, faltava-me a primeira piedade por mim, a que permite chorar, e nas pupilas eu retinha em ardor as lágrimas que me salgavam e que eu não merecia que escorressem.

Mas, mesmo não escorrendo, as lágrimas de tal modo me serviam de companheiras e de tal modo me banhavam de comiseração, que fui abaixando uma cabeça consolada. E, como quem volta de uma viagem, voltei a me sentar quieta na cama.

Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do...divino? Do que é real? O divino para mim é o real [...]


Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era [...]


Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.


Clarice Lispector, in: A Paixão Segundo G.H.



eu humanizo
tu humanizas
ele humaniza
nós humanizamos
vós humanizais
eles humanizam

uma epifania

no presente do indicativo.

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Persona...

The Image Disappears, Salvador Dalí, 1938
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"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano..."
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Clarice, in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

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domingo, 18 de abril de 2010

Correspondências: Clarice Lispector e Fernando Sabino

Fernando (1923-2004) e Clarice (1920-1977)

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Washington, 25 de Setembro de 1954.
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Fernando,
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Estou com a impressão meio inventada de que você ficou zangado quando eu disse pelo telefone que não queria que fosse ao aeroporto. Você ficou de telefonar à 1:30, e não telefonou. Fiquei amolada com a minha falta de cortesia, respondendo à sua gentileza com uma sinceridade ou franqueza que ninguém usa. Você gentilmente mostrou intenção declarada ou vaga de ir ao aeroporto, e eu, que tanto faço questão de não usar a alma na vida diária, pois é até de mau gosto, disse que não. Eu já lhe expliquei o motivo da minha rudeza - o que não a justifica - e explicarei de novo. Para mim, sair do Brasil é uma coisa séria e, por mais 'fina' que eu queira ser, na hora de ir embora choro mesmo. E não gosto que me vejam assim, embora se trate de lágrima bem-comportada, de lágrima de artista de segundo plano, sem permissão do diretor para arrumar os cabelos... Não é por vaidade de rosto que não gosto que me vejam de olhos vermelhos, é por uma vaidade que, por ser menos frívola, é muito mais pecado: é por orgulho ou altivez ou seja lá o que for - enfim, vaidade mais grave. Depois, também, eu me encabulo de estar sempre chegando e indo embora, o que obriga os amigos a um movimento em torno de mim, um movimento que às vezes nem cabe direito na vida deles. Então procuro dispensar a gentileza dos amigos, e facilitar a vida diária de cada um que já é bastante cheia e complicada sem uma ida ao aeroporto. Maury diz que eu costumo ter reações pessoais a coisas chamadas 'de praxe'. Parece que é mesmo verdade. Parece que eu seria capaz de pedir sinceramente a alguém que não apanhasse minha luva caída no chão para não amolar esse alguém, sem entender que incômodo é não apanhá-la, que incômodo é não fazer o que é 'de praxe'. (O exemplo da luva é só para exagerar, até que deixo apanharem minhas luvas, senão perderia todas...) Quanta explicação! E provavelmente você nem ficou zangado com minha descortesia, provavelmente você não telefonou depois porque estava ocupado. É o que espero que tenha acontecido. Esperando também que você não ria das tolas e inúteis complicações de sua amiga.
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* Dias depois, um Fernando amuado pelo tédio responde as inquietudes de Clarice.
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Rio, 19 de Outubro de 1954.
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Clarice,
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Suas 'complicações' não são tolas, mas inúteis. É verdade que você não precisa absolutamente se preocupar, não fui ao aeroporto porque você não queria e então acabou-se, e não telefonei porque na hora deve ter acontecido alguma coisa de que já não me lembro, e depois você já não estava. Mas valeu o desencontro porque forçou uma carta tão boa que parecia uma carta de Mário de Andrade e isso é elogio. Respondo agora me forçando um pouco (são 2 horas da manhã, me prometi não passar de hoje) pois quero ver se venço essa minha inércia mental com relação a cartas. Tanto mais que sinto necessidade real de escrever a você e vou deixando passar, talvez porque inconscientemente julgue que nada de importante tenho a lhe dizer, você sempre mereceria mais do que atualmente sou capaz de dizer numa carta. E sei como são importantes as notícias para quem está no estrangeiro. Infelizmente não tenho nenhuma a dar, senão que tudo vai indo na mesma e se as coisas mudam é porque nada precisamos fazer para que mudem. Nada tenho feito e no entanto várias coisas mudaram. Não me mudei; continuando morando no mesmo lugar, para onde você tem a partir deste momento a obrigação moral de escrever. Preciso do seu estímulo - o de alguém que, não vendo as coisas de perto, tem mais perspectiva. E prometo responder, farto de notícias. Creia-me, esta carta já é uma vitória para quem não sabe mais o que dizer. Só é sincero aquilo que não se diz - e nem isso é meu, li em alguma parte. Como você vê, isso para um escritor é estar no mato sem cachorro. Abrace por mim ao Maury e acredite sempre na amizade do seu,
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Fernando.
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LISPECTOR, Clarice, SABINO, Fernando. Cartas Perto do Coração. Dois jovens escritores unidos ante o mistério da criação. São Paulo. Ed. Record, 2001.
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* Fernando foi apresentado à Clarice em 1946, por Rubem Braga. Desde então, mantiveram uma longa e fiel amizade que durou até 1977, ano em que a escritora faleceu.
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quinta-feira, 25 de março de 2010

"Pra que pensar?"

Melancholy, Edvard Munch, 1891
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Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és. E sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteçe. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço. Estou sendo antimelódica. Comprazo-me com a harmonia difícil dos ásperos contrários. Para onde vou? E a resposta é: vou."
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Clarice Lispector, in: Água Viva.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Agenda: Eugène Boudin, Carlos Scliar, Clarice em dois tempos...

Le Havre, Eugène Boudin, 1889
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Obras dos pintores Eugène Boudin e Frans Post, podem ser vistas a partir de hoje no Museu Nacional de Belas Artes. Todas as telas fazem parte do acervo do MNBA, que comemora 73 anos este mês.
.Frans Post fez parte da comitiva de Mauricio de Nassau, quanto este aportou em terras Pernambucanas com a expedição holandesa. Parte de seu trabalho retrata a arquitetura, a natureza, os engenhos de açúcar e os costumes da Recife daqueles tempos.
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Já o francês Eugène Boudin é nome proeminente do movimento impressionista, sendo considerado o seu precursor. Ao meu ver, depois das "Noites Estreladas" do Van Gogh, não existe representação do céu mais bonita que as de Boudin. Ora abertos, ora sisudos, salpicados de nuvens, reproduzindo o arrebol das tardes, quase sempre se fundindo com o mar, os barcos singrando o horizonte.
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Exposição Eugène Boudin e Frans Post 
Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco, 199, Centro
De 13 de janeiro à 07 de março de 2010
Ter à sex, das 10h às 18h
Sáb, dom e feriados, das 12h às 17h
Ingresso: R$ 5,00 (entrada franca aos domingos)
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Retrato Clarice Lispector, por Carlos Scliar, 1972
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Outra exposição com abertura hoje faz uma retrospectiva dos mais de 60 anos de carreira do pintor, serigrafista, escultor e gravurista gaúcho, Carlos Scliar. Multifacetado, Scliar é considerado um dos mestres da arte moderna no Brasil. Não conheço tanto o seu trabalho, salvo alguns retratos, como este da Clarice Lispector. Existe tempo hábil para até o dia 21 de fevereiro, rever ou como no meu caso, se familiarizar com mais de 80 obras do artista reconhecido mundialmente.
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Exposição Carlos Scliar: Perfil e Trajetórias
Centro Cultural dos Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro
De 13 de janeiro à 21 de fevereiro de 2010
Ter à dom, das 12h às 19h
Entrada Franca
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Simplesmente eu, Clarice Lispector, com Beth Goulart, 2009
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Falando em Clarice... Beth Goulart retorna aos palcos cariocas para uma curta temporada no Teatro Sesi. Quem não conseguiu assistí-la no CCBB tem uma nova oportunidade.
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Em tempo. Dificilmente abandono um livro no meio da leitura (salvo desastrosas exceções). Não é o caso, nem de longe, mas "Indignação" do Philip Roth estagnou no último capítulo. Tudo culpa do meu presente de fim de ano preferido. A biografia do Benjamin Moser é arrebatadora! Não. Assim é Clarice, arrebata de estranhamento. Compartilho impressões ao fim da leitura.
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Peça Simplesmente eu, Clarice Lispector
Teatro Sesi
Avenida Graça Aranha, nº 1, Centro
De 12 à 27 de janeiro de 2010
Terças e quartas, às 19:30h
Ingresso: R$ 40,00
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Trecho do livro, onde ela explica de um modo todo seu, o significado fracionado de seu nome:
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Clarice, lis, lírio. A flor-de-lis.
Lispector, pector, peito.
Um lírio no peito.

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"Sou um objeto querido por Deus. E isso me faz nascerem flores no peito. Ele me criou igual ao que escrevi agora: "sou um objeto querido por Deus" e ele gostou de me ter criado como eu gostei de ter criado a frase. E quanto mais espírito tiver o objeto humano mais Deus se satisfaz.
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Lírios brancos encostados à nudez do peito. Lírios que eu ofereço e ao que está doendo em você. Pois nós somos seres e carentes. Mesmo porque estas coisas - se não forem dadas - fenecem..."
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Agenda: Os sonhos de uma geração e de uma mulher chamada Clarice.

Retratos do universo Clariceano, com Beth Goulart, ©
 foto de Ricardo Chaves
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(...)
“A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão – e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir.”
(...)
Clarice Lispector, in: Laços de Família.

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Esse mundo belo, intrínseco, caótico e quase inacessível, é revisitado no monólogo “Simplesmente Eu. Clarice Lispector”. Ainda não assisti ao espetáculo, coisa que não tardará a acontecer, assim que o vir, provavelmente compartilharei impressões.
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Algumas pessoas falam sobre si e os outros, com beleza incomum. Parecem comungar com a pluralidade do mundo. Penso que sintetizam tão bem o tempo, as transformações, os sentimentos, seus fantasmas ou mesmo os sonhos, porque respeitam a sensibilidade que possuem. As ideias assim se abrangem, por isso são belas, por isso falam diretamente como flechas que nos atingem em cheio. Aquele tipo de golpe que desarma, que paralisa. Que metaforicamente, mata de amor ou de dor.
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Peça Simplesmente Eu. Clarice Lispector
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro
De quarta à domingo, às 19h. Até 4 de outubro
Ingresso: R$ 10,00
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Utopia, sf. projeto irrealizável; quimera; lugar ou posição ideal, ainda não atingida
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Para falar da incessante vocação do homem em sonhar, estréia dia 31 de agosto, segunda-feira, às 20h30, na TV Brasil, a série “Era das Utopias.”
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A conferir!
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"A questão é: quanta realidade se deve reter mesmo num mundo que se tornou inumano, se não quisermos que a humanidade se reduza a uma palavra vazia ou a um fantasma? Ou, para colocá-la de outra forma, em que medida ainda temos alguma obrigação para com o mundo, mesmo quando fomos expulsos ou nos retiramos dele?"
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Hannah Arendt, in: Homens em Tempos Sombrios.
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terça-feira, 21 de julho de 2009

O tempo devora tudo, inclusive os segundos que perdemos traçando linhas retas.

Study of Hands, Leonardo da Vinci, 1474



"Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto não resistiu à tentação de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a prudência. ‘E se de repente eu pudesse?’, indagou-se ele. E então não conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por não conseguir escrever ‘a outra coisa’. Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A proibição era muito mais funda…, surpreendeu-se Martim.

Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara. E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intacta e viver dela – ou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isso: o alcançável. Como quem não conseguisse beber a água do rio senão enchendo o côncavo das próprias mãos – mas já não seria a silenciosa água do rio, não seria o seu movimento frígido, nem a delicada avidez com que a água tortura pedras... Seria o côncavo das próprias mãos. Preferia então o silêncio intacto. Pois o que se bebe é pouco; e do que se desiste, se vive."

Clarice Lispector, in: A Maçã no Escuro.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Choro Copioso...

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Chorar me dói a cabeça
Incha-me os olhos
Relativiza a minha emoção e o meu pesar
 

Exorciza aquilo que não cabe em mim
Desopila o coração cansado
Molha minhas páginas em branco.
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Conforta-me, sobretudo
a salinidade, a transparência
e a produção sempre obsequiosa.
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Uma lágrima não pede nada em troca
Como não há escambo,
nada implica uma troca de gentilezas
Firma-se assim um trato,
Tomo-a para dançar com a mais resoluta verdade
e ela segue agradecida o seu caminho em vértice.




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"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. TODA A MINHA ÂNSIA TEM SIDO ESTA PROXIMIDADE INULTRAPASSÁVEL E EXCESSIVAMENTE PRÓXIMA. Sou mais aquilo que em mim não é.

EU SÓ USO O RACIOCÍNIO COMO ANESTÉSICO. MAS PARA A VIDA SOU DIRETAMENTE UMA PERENE PROMESSA DE ENTENDIMENTO DO MEU MUNDO SUBMERSO. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais — volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. MAIS QUE TUDO, ME BUSCO NO MEU GRANDE VAZIO. Procuro me manter isolada contra a agonia de vi­ver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão ex­traordinária essa verdade que os outros cairiam de es­panto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem.

A vida com letra maiúscula nada pode me dar, porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. PORQUE NOTO EM MIM, NÃO UM BOCADO DE FATOS, E SIM PROCURO QUASE TRAGICAMENTE SER. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos, mas LUTO COM EXTREMA ANSIEDADE POR UMA NOVIDADE DE ESPÍRITO. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito.

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. NÃO TEMOS ACEITO O QUE NÃO SE ENTENDE PORQUE NÃO QUEREMOS PASSAR POR TOLOS. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. NÃO TEMOS NENHUMA ALEGRIA QUE NÃO TENHA SIDO CATALOGADA. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. NÃO NOS TEMOS ENTREGUE A NÓS MESMOS, POIS ISSO SERIA O COMEÇO DE UMA VIDA LONGA E NÓS A TEMEMOS. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.

Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. TEMOS MANTIDO EM SEGREDO A NOSSA MORTE PARA TORNAR A VIDA POSSÍVEL. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. TEMOS DISFARÇADO COM O PEQUENO MEDO, O GRANDE MEDO MAIOR E POR ISSO NUNCA FALAMOS NO QUE REALMENTE IMPORTA. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. TEMOS CHAMADO DE FRAQUEZA A NOSSA CANDURA. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."



Clarice Lispector,
in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

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