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sábado, 2 de março de 2013
A sagração da primavera...
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Há 92 anos...
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– Você tem paz, Clarice?
– Nem pai, nem mãe.
– Eu disse "paz".
– Que estranho, pensei que tivesse dito "pais". Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada.
Paz? Quem é que tem?
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
"O mundo se me olha. Tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto, as coisas sabem as coisas..."
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Já li este livro até o fim e acrescento alguma notícia neste começo. Quer dizer que o fim, que não deve ser lido antes, se emenda num círculo ao começo, cobra que engole o próprio rabo. E, ao ter lido o livro, cortei muito mais que a metade, só deixei o que me provoca e inspira para a vida: estrela acesa ao entardecer. (...) No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim uma aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malgrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar.
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sábado, 23 de junho de 2012
"ah ‘persona’, como não te usar e ser!"
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Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma máscara de pintura no rosto – ah ‘persona’, como não te usar e ser! – sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-se e foi..."
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terça-feira, 17 de abril de 2012
"A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
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domingo, 30 de outubro de 2011
"Enquanto se espera que o coração entenda..."
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"O que é angústia?
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Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria – o que também é uma forma de angústia.
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Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
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Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda..."
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
Correspondências: Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst
Hildinha,
A carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico.
Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela.
Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor.
Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — "Fica comigo". Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela.
Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.
Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.
É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.
Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu,
Caio.
* Caio e Hilda se conheceram em meados de 1968, quando o escritor, então perseguido pela ditatura militar, refugiou-se na Chácara do Sol, residência de Hilda, em Campinas, São Paulo.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Sobre desintegrar-se...
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O cineasta Darren Aronofsky não seria tão assertivo. Nenhum dos cinco filmes que dirigiu até hoje flertam com soluções de fácil digestão. "Pi", "Réquiem para um Sonho", "A Fonte da Vida", "O Lutador" e o recente "Cisne Negro", discorrem sobre um mesmo tema; dramas humanos em toda a sua visceralidade e exageros. O que se vê são trajetórias marcadas por algum excesso, por alguma danação que nos torna tão humanos e improváveis.
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Algumas pessoas presentes à exibição de "Cisne Negro", há um par de dias, pareciam desconhecer essa predileção de Aronofsky pela via crucis do corpo.
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Nina Sayers é uma bailarina que se divide entre a rotina árdua da profissão e uma relação castradora com a mãe. A companhia de dança a qual faz parte, planeja encenar uma versão de "O Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky. Nina é escolhida, com restrições, para o papel principal. Seu comportamento reprimido e a obsessão pela perfeição a qualificam para viver Odete, o virginal e convencional Cisne Branco, ao ponto que esbarra na sensualidade e despudor exigidos na composição de Odile, o Cisne Negro.
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Interpretações literais são quase sempre limitantes. Talvez tenham sido elas a causar reações desconfortáveis na sala de exibição e a criar inúmeras opiniões sobre o filme.
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"Cisne Negro" não é sobre o mundo do balé clássico, sobre dicotomias óbvias ou demonstrações do nosso descontrole ante situações extremas.
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Via crucis do corpo, recordam-se? O sacrifício da vez se manifesta na desintegração psicológica da personagem. O antagonismo dos cisnes é um aforismo à destruição dos "sistemas" que mantém qualquer um de nós em equilíbrio.
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A realidade asfixiante de um ambiente profissional competitivo e da relação com a mãe, não são causa, e sim, efeito. Eles apenas agitam, principiam o processo confuso que é a perda do discernimento. O filme se mostra impecável ao retratar o quão é excruciante essa deterioração dos sentidos. A exata percepção de quem não separa mais o real, do ficcional.
Para tanto, Aronofsky faz uso de farta referência psicanalítica, sobretudo no que concerne a imagem constante de sua anti-heroína refletida em espelhos. A duplicidade do sujeito é referida por Freud e explicitada por Lacan, que observou que a constituição do ser humano está marcada pela imagem especular, a partir da qual ele se estrutura e se aliena, pois nos reconhecemos inicialmente em uma imagem que não corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos.
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O próprio conceito de inconsciente carrega consigo a marca dessa divisão estrutural e da constante alienação do sujeito a esse algo que ele desconhece. "Quem sou?". A questão vai além da aparência, do conceito narcísico; por detrás da imagem produzida pelo espelho, alinha-se a busca incessante da verdadeira identidade do ser.
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A personagem (vivida excepcionalmente pela atriz Natalie Portman), passa todo o filme numa busca delirante por essa identidade já fragmentada e débil, odisséia que alcança o seu clímax no momento derradeiro em que ela atinge a "perfeição".
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"Cisne Negro" possui a grande virtude de transportar-nos para além da experiência visual. Como visitar o caos da desintegração psicológica sem experimentar o claustro, o desconforto, a alucinação ou a histeria?
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Cinema pode ser sensorial, metafísico e transcendente.
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....descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro – e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante – nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água."
Trecho do conto "Os Espelhos".
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Introspectiva[mente]
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Carta enviada a Fernando Sabino em 05 de outubro de 1953.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Correspondências: Clarice Lispector e Olga Borelli
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Olga, datilografo esta carta porque minha letra anda péssima.
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Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?
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Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.
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Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.
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Sua, Clarice.
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* Clarice e Olga Borelli se conheceram em meados de 1970. Após terem estado juntas em algumas ocasiões, Clarice escreveu-lhe essa carta com um "pedido precavido de amizade". Olga estava perto quando Clarice morreu...
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sexta-feira, 30 de julho de 2010
As angústias de ser...
Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma - eu cuspia a mim mesma, sem chegar jamais ao ponto de sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda [...]
Só parei na minha fúria quando compreendi com surpresa que estava desfazendo tudo o que laboriosamente havia feito quando compreendi que estava me renegando. E que, ai de mim, eu não estava à altura senão de minha própria vida.
Parei espantada, e meus olhos se encheram de lágrimas que só ardiam e não corriam. Acho que eu não me julgava sequer digna de que lágrimas corressem, faltava-me a primeira piedade por mim, a que permite chorar, e nas pupilas eu retinha em ardor as lágrimas que me salgavam e que eu não merecia que escorressem.
Mas, mesmo não escorrendo, as lágrimas de tal modo me serviam de companheiras e de tal modo me banhavam de comiseração, que fui abaixando uma cabeça consolada. E, como quem volta de uma viagem, voltei a me sentar quieta na cama.
Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do...divino? Do que é real? O divino para mim é o real [...]
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era [...]
Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.
Clarice Lispector, in: A Paixão Segundo G.H.
eu humanizo
tu humanizas
ele humaniza
nós humanizamos
vós humanizais
eles humanizam
uma epifania
no presente do indicativo.
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
Persona...
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Clarice, in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
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domingo, 18 de abril de 2010
Correspondências: Clarice Lispector e Fernando Sabino
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Washington, 25 de Setembro de 1954.
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Fernando,
Estou com a impressão meio inventada de que você ficou zangado quando eu disse pelo telefone que não queria que fosse ao aeroporto. Você ficou de telefonar à 1:30, e não telefonou. Fiquei amolada com a minha falta de cortesia, respondendo à sua gentileza com uma sinceridade ou franqueza que ninguém usa. Você gentilmente mostrou intenção declarada ou vaga de ir ao aeroporto, e eu, que tanto faço questão de não usar a alma na vida diária, pois é até de mau gosto, disse que não. Eu já lhe expliquei o motivo da minha rudeza - o que não a justifica - e explicarei de novo. Para mim, sair do Brasil é uma coisa séria e, por mais 'fina' que eu queira ser, na hora de ir embora choro mesmo. E não gosto que me vejam assim, embora se trate de lágrima bem-comportada, de lágrima de artista de segundo plano, sem permissão do diretor para arrumar os cabelos... Não é por vaidade de rosto que não gosto que me vejam de olhos vermelhos, é por uma vaidade que, por ser menos frívola, é muito mais pecado: é por orgulho ou altivez ou seja lá o que for - enfim, vaidade mais grave. Depois, também, eu me encabulo de estar sempre chegando e indo embora, o que obriga os amigos a um movimento em torno de mim, um movimento que às vezes nem cabe direito na vida deles. Então procuro dispensar a gentileza dos amigos, e facilitar a vida diária de cada um que já é bastante cheia e complicada sem uma ida ao aeroporto. Maury diz que eu costumo ter reações pessoais a coisas chamadas 'de praxe'. Parece que é mesmo verdade. Parece que eu seria capaz de pedir sinceramente a alguém que não apanhasse minha luva caída no chão para não amolar esse alguém, sem entender que incômodo é não apanhá-la, que incômodo é não fazer o que é 'de praxe'. (O exemplo da luva é só para exagerar, até que deixo apanharem minhas luvas, senão perderia todas...) Quanta explicação! E provavelmente você nem ficou zangado com minha descortesia, provavelmente você não telefonou depois porque estava ocupado. É o que espero que tenha acontecido. Esperando também que você não ria das tolas e inúteis complicações de sua amiga.
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quinta-feira, 25 de março de 2010
"Pra que pensar?"
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Agenda: Eugène Boudin, Carlos Scliar, Clarice em dois tempos...
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.Frans Post fez parte da comitiva de Mauricio de Nassau, quanto este aportou em terras Pernambucanas com a expedição holandesa. Parte de seu trabalho retrata a arquitetura, a natureza, os engenhos de açúcar e os costumes da Recife daqueles tempos.
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Já o francês Eugène Boudin é nome proeminente do movimento impressionista, sendo considerado o seu precursor. Ao meu ver, depois das "Noites Estreladas" do Van Gogh, não existe representação do céu mais bonita que as de Boudin. Ora abertos, ora sisudos, salpicados de nuvens, reproduzindo o arrebol das tardes, quase sempre se fundindo com o mar, os barcos singrando o horizonte.
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Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco, 199, Centro
De 13 de janeiro à 07 de março de 2010
Ter à sex, das 10h às 18h
Sáb, dom e feriados, das 12h às 17h
Ingresso: R$ 5,00 (entrada franca aos domingos).
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Exposição Carlos Scliar: Perfil e Trajetórias
Centro Cultural dos Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro
De 13 de janeiro à 21 de fevereiro de 2010
Ter à dom, das 12h às 19h
Entrada Franca.
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Falando em Clarice... Beth Goulart retorna aos palcos cariocas para uma curta temporada no Teatro Sesi. Quem não conseguiu assistí-la no CCBB tem uma nova oportunidade.
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Em tempo. Dificilmente abandono um livro no meio da leitura (salvo desastrosas exceções). Não é o caso, nem de longe, mas "Indignação" do Philip Roth estagnou no último capítulo. Tudo culpa do meu presente de fim de ano preferido. A biografia do Benjamin Moser é arrebatadora! Não. Assim é Clarice, arrebata de estranhamento. Compartilho impressões ao fim da leitura.
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Lírios brancos encostados à nudez do peito. Lírios que eu ofereço e ao que está doendo em você. Pois nós somos seres e carentes. Mesmo porque estas coisas - se não forem dadas - fenecem..."
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Agenda: Os sonhos de uma geração e de uma mulher chamada Clarice.
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Rua Primeiro de Março, 66, Centro
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terça-feira, 21 de julho de 2009
O tempo devora tudo, inclusive os segundos que perdemos traçando linhas retas.
Clarice Lispector, in: A Maçã no Escuro.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O Choro Copioso...
.Incha-me os olhos
Relativiza a minha emoção e o meu pesar
Exorciza aquilo que não cabe em mim
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Conforta-me, sobretudo
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Uma lágrima não pede nada em troca
Como não há escambo,
Firma-se assim um trato,
Tomo-a para dançar com a mais resoluta verdade
e ela segue agradecida o seu caminho em vértice.
EU SÓ USO O RACIOCÍNIO COMO ANESTÉSICO. MAS PARA A VIDA SOU DIRETAMENTE UMA PERENE PROMESSA DE ENTENDIMENTO DO MEU MUNDO SUBMERSO. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais — volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. MAIS QUE TUDO, ME BUSCO NO MEU GRANDE VAZIO. Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem.
A vida com letra maiúscula nada pode me dar, porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. PORQUE NOTO EM MIM, NÃO UM BOCADO DE FATOS, E SIM PROCURO QUASE TRAGICAMENTE SER. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos, mas LUTO COM EXTREMA ANSIEDADE POR UMA NOVIDADE DE ESPÍRITO. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito.
Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. NÃO TEMOS ACEITO O QUE NÃO SE ENTENDE PORQUE NÃO QUEREMOS PASSAR POR TOLOS. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. NÃO TEMOS NENHUMA ALEGRIA QUE NÃO TENHA SIDO CATALOGADA. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. NÃO NOS TEMOS ENTREGUE A NÓS MESMOS, POIS ISSO SERIA O COMEÇO DE UMA VIDA LONGA E NÓS A TEMEMOS. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Clarice Lispector, in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
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