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terça-feira, 24 de março de 2020

"As paisagens continuam a existir..."

Light and Colour (Goethe’s Theory) - The Morning after the Deluge - Moses Writing the Book of Genesis, William Turner, 1843.
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Queria acreditar em algo além,
Além da morte que a desfez.
Queria poder dizer a força
Com que outrora desejamos,
Nós, já submersos,
Poder mais uma vez juntos
Caminhar livremente sob o sol.
.⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Primo Levi.
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sábado, 17 de agosto de 2019

"Só a febre e a poesia provocam visões. Só o amor e a memória..."

On the Horizon the Angel of Certainty, and in the Dark Sky, an Interrogating Look, Odilon Redon, 1882.
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No caminho dos cães minha alma encontrou
meu coração. Destroçado, mas vivo,
sujo, malvestido e cheio de amor.
No caminho dos cães, lá onde ninguém quer ir.
Um caminho que só percorrem os poetas
quando não lhes resta nada a fazer.
Mas eu ainda tinha tantas coisas por fazer!
e no entanto ali estava: me fazendo matar
pelas formigas vermelhas e também
pelas formigas negras, percorrendo as aldeias
vazias: o espanto que se elevava
até tocar as estrelas.
Um chileno educado no México pode suportar tudo,
pensava, mas não era verdade.
Às noites meu coração chorava. O rio do ser, diziam
uns lábios febris que logo descobri eram os meus,
o rio do ser, o rio do ser, o êxtase
que se curva na ribeira dessas aldeias abandonadas.
Sumulistas e teólogos, adivinhos
e assaltantes de estrada emergiram
como realidade aquáticas no meio de uma realidade
metálica.
Só a febre e a poesia provocam visões.
Só o amor e a memória. 
Não estes caminhos nem estas planuras.
Não estes labirintos.
Até que por fim minha alma encontrou meu coração.
Estava doente, sim, mas estava vivo.
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Roberto Bolaño.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Simulacros...

Not to be Reproduced, René Magritte, 1937
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Tem aqueles que executam a vida de modo eficaz.
Põem ordem em si mesmos e ao seu redor.
Têm resposta correta e jeito para tudo.

Advinham logo quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
colocam no triturador os fatos desnecessários.
e as pessoas desconhecidas
em fichários de antemão destinados a elas.

Pensam só o quanto vale a pena.
nem um instante mais,
pois detrás desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência.
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
— por sorte isso passa.
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Wislawa Szymborska.
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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"O que nos mata é a solidão povoada"

Melancolia I, Albrecht Dürer, 1514
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Nós que não somos naturais, porque
somos quem nega a natureza, não
morreremos nunca de animas a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que 
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera
ser mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma. Nunca mais
havemos de morrer em paz e espanto
de se acabar o mundo e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada.
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Jorge de Sena.
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

"O que será puro, no mundo, quando as palavras se abastardarem?... Principalmente as palavras de carne, lacerados pedaços de angústias..."

Marchers (Les Marcheurs), Gao Xingjian, 2013
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"Pomos uma palavra no ponto onde nossa ignorância começa, para além do qual não conseguimos enxergar, como por exemplo a palavra Eu, a palavra estou, a palavra sofrendo: — elas são talvez o horizonte de nosso conhecimento, mas não verdades..."
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F. Nietzsche.
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quarta-feira, 27 de julho de 2016

"A tristeza das coisas é tanto maior quanto mais subtil for a sua imagem no olhar..."

In Search, Gao Xingjian, 2014
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A alegria das coisas não é a posse
mas a semelhança delas com os nossos dedos.
Nem as coisas têm forma própria
mas a que lhes dá a mão, usando-as.

A tristeza das coisas é tanto maior
quanto mais subtil for a sua imagem no olhar.
Nem o arqueólogo ama em absoluto a matéria.
O galeão levantado do lodo ou do olvido
é um objeto sem presença, ou sem destino,
por vezes capaz de trazer-nos as lágrimas.

Mas não usámos nós as coisas
até ao excesso, ou a nossa alegria
fez-se do proveito parco, do mínimo?
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Fiama Hasse Pais Brandão.
(Portugal, 1938-2007)
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quarta-feira, 27 de abril de 2016

"... É isto a vida: algo que se ouviu num timbre momentâneo e sobreposto ao vácuo entre as palavras, para além do som ou do sentido..."

The Triumph of Music, Marc Chagall, 1967 
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A música é só música, eu sei. Não há
outros termos em que falar dela a não ser que
ela mesma seja menos que si mesma. Mas
o caso é que falar de música em tais termos
é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem
mostrá-lo ou sem sequer havê-lo visto alguma vez.
Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música
for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,
nenhum silêncio recolhido nos persiste para além
de alguns minutos. E não dura na memória como
silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala
a própria música que adora. Porque a música
não é silêncio mas silêncio que
anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio,
e sim a inteligência que no abstracto busca
ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;
se tudo se organiza como a variada imagem
de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos
que os grupos, e os grandes números, e as proporções
conhecem necessários; se tudo repercute como
em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem
um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras
esculpidas em volutas brancas e douradas cujos
recantos de sombra são um trompe l’oeil
para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de
bater nas teclas em cascatas de ordem;
e se tudo existiu na música para tal triunfo
e dele descende tudo o que de arquitectura
possa existir em notas sem sentido — COMO
não proclamar que essa grandeza imensa
não se comove com íntimos segredos (mesmo implica
que não haja segredo em nada que se faça
a não ser o espanto de fazer-se aquilo),
é como que uma cúpula de som dentro da qual
possamos ter consciência de que o homem é, por vezes,
maior do que si mesmo. E que nada no mundo,
ainda que volte ao tema inicial, repete
o que foi proposto como tema para
se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,
aquele tema retorna não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos ante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.
Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,
para sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque
o virtual de um pensamento se tornou ali
uma evidência: se tornou concreto.
Um concreto de coisas exteriores — e o espanto é esse —
igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.
Será que alguma vez, senão aqui,
aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto
de real e virtual serem idênticos, e de nós
não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de
nós termos sido música somente?
..

Jorge de Sena.
Poema Bach: Variações Goldberg, do livro Arte de Música.
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Ouça as Variações para cravo compostas por Johann Sebastian Bach, em 1741, interpretadas por Glenn Gould.
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

"E aí adormecia dum sono sem remorsos e sem melancolia..."

Master Bedroom, Andrew Wyeth, 1965
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Para Madonna, que agora chamamos e já não está.

O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,

nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava

ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.

E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.

Então sonhava
o sonho sólido em que existia.
E não compreendia.

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.

Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: " É a vida..."
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Manuel António Pina.
Poema "O Nome do Cão", do livro Todas as Palavras: poesia reunida. Ed. Assírio & Alvim, 2012.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Rios sem discurso...

Francis Bacon, Lucian Freud, 1956-57
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Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e, porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda 
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
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O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
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João Cabral de Melo Neto.
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segunda-feira, 15 de junho de 2015

"O tempo está vivendo-me..."

Baleen, Andrew Wyeth, 1982
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Escrituras de luz investem na sombra, mais prodigiosas que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambiciosos e tento entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira de ferro, prestes a atacar.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.
Meu nome é alguém e qualquer um.
Passo devagar, como quem vem de tão longe que não espera chegar.
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Jorge Luis Borges.
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sábado, 23 de maio de 2015

Correspondências: Mécia e Jorge de Sena.

The Cathedral, Auguste Rodin, 1908
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Lx., 10/03/1949
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Minha muito querida Mécia,
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Escrever-me-ás, como eu agora te escrevo; mas o que dizemos já não tem nem precisa de resposta. Sem ti, sabes como fico, como não sei viver, mesmo para as mínimas coisas, que todas vêm de ti, são por ti ou para ti. Saudades, sinto-as outra vez, e não são já iguais às que sentia dantes: tu me faltas, és parte de mim, que sempre o foi mas não como agora. Muitos beijos, muitos, demorados e longos do teu,
................................................................................................................ Jorge.
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Mécia de Sena/Jorge de Sena, in: Isto Tudo que Nos Rodeia (Cartas de Amor).
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Jorge e Mécia, conheceram-se em 1940 e tiveram nove filhos. Desde o falecimento do escritor, em 04 de junho de 1978, passou a cuidar incansavelmente de seu legado literário e intelectual, tendo publicado, até então, cerca de 40 volumes, entre inéditos e reedições. D. Mécia, está com 95 anos, reside em Santa Bárbara, Califórnia, na mesma casa onde viveu com Jorge de Sena, a partir de 1970, após o período de exílio no Brasil.
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segunda-feira, 20 de abril de 2015

enquanto houver alguém escrevendo...

A Heure de Loisir, Elizabeth Loisir, 1904
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_______ escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear.
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Maria Gabriela Llansol.
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sábado, 7 de março de 2015

"Em todo o belo há tristeza que se esconder..."

Narcissus, Gyula Benczúr, 1881
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"Em todo o belo há tristeza que se esconder
Indefinida, pois, permanece sendo
Dupla e duplamente indecifrável
A si mesma, oculta e obscura a quem está vendo."
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Walter Benjamin.
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domingo, 25 de janeiro de 2015

"Que importa o sentido se tudo vibra?"

a morte nunca existiu, 40 x abril, abysmo, Luis Manuel Gaspar, 2014
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Lembra o tempo
em que você sentia

e sentir
era a forma 
mais sábia de saber

E você nem sabia?
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Alice Ruiz.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"...o escuro perfeito de sua paz..."

The Melancholic Temperament, Virgil Solis, 1530-1562
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Minha alma teve um árduo, longo dia
e está cansada
e procura para si o esquecimento.

Ai! que no mundo não há lugar
para uma alma encontrar o seu esquecimento,
o escuro perfeito de sua paz,
pois o homem matou o silêncio da terra
e violentou cada lugar de esquecimento e paz,
onde os anjos costumavam pousar.
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D. H. Lawrence.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

"Recaminhei casas e paisagens, buscando-me a mim, minha tua cara..."

The Green Bird, Marc Chagall, 1962
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«Quando me dizes "Vem!" já eu parti
e já estou tão próximo de ti
que sou eu quem me chama e quem te chama
e é o meu amor que em ti me ama.

Se me olhas sou eu que me contemplo
longamente através do teu olhar
e moro em ti e sou eu o lugar
e demoro-me em ti e sou o tempo.

Eu sou talvez aquilo que me falta
(a alma se sou corpo, o corpo se sou alma)
em ti, e afogo-me na tua vida
como na minha imagem desmedida:

Sol, Lua, água, ouro,
horizontalidade, concordância,
indiferente ordem da infância,
união conjugal, morte, repouso.»
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Manuel António Pina.
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Naked

Mann und Frau (Umarmung), Egon Schiele, 1917
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É absolutamente legítimo, até mesmo necessário que, conscientemente ou não, alicercemos mecanismos de autodefesa. Mas é ainda melhor quando prescindimo-nos parcial ou totalmente deles com a mais absoluta naturalidade. Algo acerca de confiança e, sobretudo, um sentimento pacífico de que suas vulnerabilidades não se voltarão contra você. É uma dádiva.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O amor é uma companhia...

Sunflowers (detail), Van Gogh, 1887
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O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.
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domingo, 26 de outubro de 2014

"Venham embora, palavras, para onde o sentido não se engrosse com a substância impaciente da voz..."

Dante in exile, John Elliott, 1904 
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Eu também não gosto dela: há coisas bem mais importantes que
[toda esta frioleira.
Lendo-a, porém, com um profundo desprezo por ela, a gente descobre
nela, de qualquer modo, um lugar para o que é genuíno.
Mãos que podem reter, olhos
que podem se ampliar, cabelos que podem se eriçar
se for preciso, essas coisas são importantes, não porque

uma altissonante interpretação lhes possa ser dada mas porque são
utéis. Quando elas começam a derivar a ponto de se tornarem ininteligíveis,
a mesma acusação pode ser feita a nós outros,
que não admiramos o que
não podemos entender: o morcego
pendente de cabeça para baixo ou à procura de algo para

comer, elefantes se empurrando, um cavalo selvagem rolando, um lobo
[incansável sob
uma árvore, o crítico imóvel com arrepios na pele como um cavalo que
[sente uma pulga, o torcedor de baseball,
o técnico em estatística...
E nem vale o argumento
para discriminar entre "documentos profissionais e

livros escolares";  todos esses fenômenos são importantes. É preciso fazer
[uma distinção, 
porém: quando arrastada à fama por meios-poetas, o resultado
[não é poesia,
a menos que os poetas entre nós possam ser
"interprétes rigorosos da
imaginação" - acima 
de insolência e trivialidades e que possam apresentar

para inspeção, jardins imaginários contendo rãs verdadeiras; então
[nós a teremos
encontrado. Neste ínterim, se você exige para uma mão
o rude material da poesia em 
toda a sua rudeza e 
para o que está na outra mão
legitimidade, então você se interessa por poesia.
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Marianne Moore.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

"Nutri a esperança de inventar um verbo poético que seria um dia acessível a todos os sentidos..."

Manuscript self portrait of Arthur Rimbaud, Sergio Albiac, s.d.
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"... arthur, arthur, estamos em aden, abissínia. fodendo &
fumando. nos beijamos. mas é mais que isso. blues.
charco azulado. mancha à tona da lagoa. percepções
ampliadas, alma vita. baia cristalina. explosão de bolas
de vidro coloridas. rasgadura de tecidos de tenda árabe.
se abrindo, aberta como uma caverna, aberta ao máximo.
rendição total."
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Patti Smith, trecho do poema "Sonho com Rimbaud".
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