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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O amor é uma companhia...

Sunflowers (detail), Van Gogh, 1887
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O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.
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sexta-feira, 24 de maio de 2013

"...uma tenuíssima aparência ao engano de ser..."

The Painter on His Way to Work, Van Gogh, 1888
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Para um tempo de olhar a cor é breve 
e já no repensar foge ao momento. 
Quis ser na flor, no adeus, no rio lento, 
mas se não há memória, não se atreve. 
E mesmo no destino quase leve 
das coisas que não sofrem entendimento 
no indiferir do mundo desatento, 
flor, adeus ou rio, – a cor é breve. 
Lançando uma tenuíssima aparência 
ao engano de ser, entretecida, 
a cor, refluindo, é vã sobrevivência. 
Mal se anuncia em tons, e apenas crível 
na remontante fuga da subida 
demora azul, refeita de invisível.
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Maria Ângela Alvim.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Transposição.

 The Red Vineyard (tilt-shift effect by Serena Malyon), Van Gogh, 1888
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Na manhã que desperta
o jardim não mais geometria
é gradação de luz e aguda
descontinuidade de planos.
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Tudo se recria e o instante
varia de ângulo e face
segundo a mesma vidaluz
que instaura jardins na amplitude
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que desperta as flores em várias
coresinstantes e as revive
jogando-as lucidamente
em transposição contínua.
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Orides Fontela.
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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Variações sobre um mesmo tema: a impermanência

The Old Courtesan, Auguste Rodin, 1887, bronze in 1910



A força da gravidade derrubando as folhas das árvores já secas, enrugadas, esmaecidas. É outono e tudo é meio cinza, meio derradeiro... as cores primaveris e a força solar dos verões são estações passadas. Entretanto, em nenhum de seus ciclos, o perecer de uma folha é mais resiliente, apaziguante. Nessa altura, onde o inverno se aproxima, firma-se uma treguá com o tempo. Uma aceitação mútua de suas naturezas indissociáveis, porém dispares: a beleza da vida está para a efemeridade de viver.

Queremos do tempo, o próprio tempo; o sentido, as respostas, a inteireza, a eternidade, e ele só nos pede transcendência.



An Old Woman of Arles, Vincent Van Gogh, 1888



Living in Three Centuries, © foto de Mark Story, d.d



Old Woman With Ball Yarn, Marc Chagall, 1906



Portrait of an Old Woman, Pieter Bruegel, "the Elder", 1563



Old Woman, Christian Seybold,1749-1750



Study of a Man Aged 93, Albrecht Dürer,1521



Old Woman Dozing, Nicolaes Maes, 1656



Portrait of a Old Woman, Guido Reni, 1612



Head of an Old Woman, Orazio Borgianni,1610



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...
Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.
Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações sutis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?
Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh vida! oh labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.
Cá ’stão os bons d’outrora, entes que já gozaram
horas de ouro, e também... como elas se escoaram.
Não me hão-de ouvir agora os mesmos, bem o sei,
para quem noutro tempo os versos meus cantei.
Sumiu-se, aniquilou-se aquela amiga turba,
que nem com som mortiço os ecos já perturba.
Vibra meu canto agora a ignota multidão,
cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;
e os a quem meu cantar outrora foi jucundo,
erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo.
Ai, plácida mansão, de espíritos morada!
revive na saudade, há tanto descorada!
Começa em vagos sons meu estro a palpitar,
qual de uma harpa eólia o triste delirar...
Já sinto estremeções; o pranto segue ao pranto,
e o duro coração se abranda por encanto.
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.

Goethe, in: Fausto (prólogo).



Portrait of an Old Woman, Ilya Repin, 1870



Sir John Herschel, © foto de Julia Margaret Cameron, 1867



Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity), Van Gogh, 1890



Portrait of a Woman Suffering from Obsessive Envy, Theodore Gericault, 1822



Vieille Femme Avec a Chapelet, Paul Cézanne, 1896



An Elderly Peasant Woman, Léon-Augustin L'hermitte, 1878



Old Woman Praying, Matthias Stom, 1640



Kazuo Ohno, © foto de Yoshihiko Ueda, d.d.



Judith Beheading Holofernes (detail), Caravaggio, 1598



Self Portrait Reflection, Lucian Freud, 2002



A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in: Elogio da Sombra.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Correspondências: Vincent e Théo van Gogh

The Potato Eaters, Van Gogh, 1885
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E enquanto trabalho num quadro em que não se veem claridades de uma lâmpada à maneira de Dou¹ ou de van Schendel², talvez não seja inútil observar que uma das coisas mais belas dos pintores de nosso século foi pintar a obscuridade, que apesar de tudo é cor.
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Tenho esperança de que a pintura destes comedores de batata dará certo. Fora isto estou trabalhando num pôr de sol vermelho.
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Para pintar a vida do camponês, é preciso ser mestre em tantos temas. Que bom é isto sobre os personagens de Millet³: seu camponês parece ter sido pintado com a terra que semeia!
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[...] No que diz respeito aos comedores de batata, é um quadro que ficaria bem cercado de ouro, tenho certeza. Ficaria igualmente bem numa parede coberta por um papel que tivesse o tom profundo do trigo maduro.
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Caso ele não seja destacado do resto desta maneira, ele simplesmente nem deve ser visto.
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[...] As sombras foram pintadas com azul e uma cor dourada produz efeito sobre isto. Ontem eu o levei a Eindhoven na casa de um amigo que também pinta. Daqui a três ou quatro dias eu o terminarei lá, com um pouco de clara de ovo, e trabalharei ainda em certos detalhes... Como este amigo também trabalha a partir de modelos, ele também vê muito bem o que existe numa cabeça ou numa mão de camponês e, falando em mãos, ele me disse ter chegado a uma noção totalmente diferente de como fazê-las.
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Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e que meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente.
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Quis que ele fizesse pensar num modo de vida totalmente diferente do nosso, de gente civilizada. Assim, portanto, não desejo nem um pouco que todo mundo o ache nem sequer belo ou bom.
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[...] Mas quem preferir ver camponeses edulcorados que passe ao largo. Por mim, estou convencido que afinal obtêm-se melhores resultados pintando-os em sua rudeza que conferindo-lhes uma beleza convencional.
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Com sua saia e sua camisola azuis, cobertas de poeira e remendadas, e que sob o efeito do tempo, do vento e do sol tenham tomado os mais delicados matizes, uma camponesa é, na minha opinião, mais bonita que uma dama; que ela se vista como uma dama, e tudo que há de verdadeiro nela desaparece.
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[...] Se uma pintura de camponeses cheira a toucinho, a comida, a batatas, perfeito!
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VAN GOGH, Vincent. Cartas a Théo, Ed. L&PM, 2010.
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¹ Guerrit Dou, pintor barroco holandês do século XVII, discípulo de Rembrandt.
² Petrus van Schendal, pintor romântico belga do século XIX.
³ Jean-François Millet, pintor realista francês do século XIX .

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"A noite me pinga uma estrela no olho e passa."

La nuit étoilée sur le Rhône, Van Gogh, 1888
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Noite caindo ... Céu de fogo e flores.
Voz de Crepúsculo exalando cores,
O céu vai cheio de Deus e de harmonia.
Silêncio ... Eis-me rezando aos fins do dia.
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Névoa de luz criando imagens na água,
Nome das águas esculpindo os céus,
Tarde aos relevos húmidos de frágua,
Boca da noite, eis-me rezando a Deus.
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Eis-me entoando, a voz de cinza e ouro,
— Oh, cores na água vindo às mãos em branco! —
Minha ópera de Sol ao último arranco.
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E, oh! hora mística em que o olhar abraso,
— Sol expirando aos Pórticos do Ocaso! —
Dobra em meu peito um oceano em coro.
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Afonso Duarte, in: Tragédia do Sol-Posto.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Passantes...

A Pair of Shoes, Van Gogh, 1886
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Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
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tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
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e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado.

Alice Ruiz.


terça-feira, 9 de março de 2010

"Palavra d'agua pra qualquer moldura..."

The Langlois Bridge at Arles With Women Washing, Van Gogh, 1888
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Mergulhar a palavra suja em água sanitária,
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza,
por exemplo a palavra vida.
Existem outras e a palavra amor é uma delas
que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,
o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que ainda permanecem sujas
depois de submetidas a esses cuidados
mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.
Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja
como a palavra perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas,
soltam um líquido corrosivo
—que atende pelo nome de amargura—
capaz de esvaziar o vigor da língua.
Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade.
Agora se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo aqui é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra
e deve ser sempre clareada sozinha.
Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável,
esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva
produz uma oleosidade que conserva a cor
e a intensidade dos sons.
Muito valioso na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos
que passeie pelas expressões dos seus sentidos.
Á noite, permita que se deite,
não a seu lado, mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme
a palavra plantada em sua carne
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar a convivência
até não mais perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.
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Viviane Mosé.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Variações sobre um mesmo tema: a loucura.


Estamira, direção de Marcos Prado, 2005
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O cineasta Marcos Prado encontrou Estamira pela primeira vez em 2000 quando fotografava o aterro sanitário de Gramacho. A senhora de discurso irascível e filosófico, trabalhava no lixão havia duas décadas. Sua estória pareceu atrativa ao cineasta, que por alguns anos acompanhou a rotina insalubre, a doença, traumas e vicissitudes de sua vida. O documentário evoca a lucidez diante a exclusão e a esquizofrenia.
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Dom Quixote e Sancho Pança, Candido Portinari, 1956
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Miguel de Cervantes tencionava ironizar as novelas de cavalaria e o estilo de vida da fidalguia quando escreveu Dom Quixote de La Mancha. Tendo 126 capítulos, o livro é considerado um dos maiores romances de todos os tempos. Trata-se da estória de Alonso Quijano, um fidalgo decadente obcecado pela leitura de livros de cavaleiros errantes. Ao trocar a realidade pela ficção, Alonso, agora Dom Quixote, se refugia na insanidade e passa a viajar pela Espanha protegendo desafortunados, certo de que é também um nobre cavaleiro. Deixar-se dominar pela fantasia, foi a forma que o "Cavaleiro da Triste Figura" encontrou para dar sentido à sua existência.
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"O mundo da poesia não se limita às obras literárias que Dom Quixote leva na cabeça, mas se dilata até abarcar toda a capacidade humana, comum nos loucos e sensatos, de imaginar, sonhar, mentir, esperar e querer, todos os modos de ilusão e ideal que o homem leva em sua alma e que são o impulso e a razão de sua vontade de fazer e de viver."
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Miguel de Cervantes.

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Self-Portrait With Bandaged Ear, Vincent Van Gogh, 1889
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Vincent Van Gogh tem uma trajetória inquietante. Abandonou os estudos aos 15 anos de idade para trabalhar com o tio numa loja que negociava obras de arte. Com 24 anos, decidiu que sua vocação era a evangelização. Trabalhou como missionário em minas de carvão na Bélgica onde distribuiu seus bens aos pobres. Em 1880, estimulado pelo irmão Théo, dedica-se a vida artística. Deste período até meados de 1890, pinta compulsivamente, sem no entanto obter reconhecimento (vendeu apenas uma tela nos dez anos dedicados à pintura). Enquanto foi sustentado emocional e financeiramente pelo irmão, as crises de instabilidade mental se intensificaram à medida que crescia sua incapacidade de manter-se por seus próprios meios. Também notabilizavam-se os relacionamentos fracassados e a personalidade anti-social. Em 1888 após uma briga com o pintor Paul Gauguim, corta um pedaço da própria orelha. Após o episódio, passa alguns meses numa clínica psiquiátrica. Ao sair, em maio de 1890, vai morar nas proximidades da casa do irmão. Um mês antes de sua morte - quando pintava uma tela por dia - realizou "Campo de Trigo com Corvos", obra prima que exprimia, de forma contundente, toda a tristeza e a solidão de seus últimos momentos. No dia 27 de julho, deu um tiro contra o próprio peito. Dois dias depois, morreu nos braços de Théo.
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Sonhos, Akira Kurosawa, 1990
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"Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo…
E os homens ficam frequentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível. Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros. Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?"
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Van Gogh, in: Cartas a Théo.
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Compondo silêncios...

Avenue of Poplars in Autumn, Vincent van Gogh, 1884.
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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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Manoel de Barros..

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