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sábado, 23 de maio de 2015

Correspondências: Mécia e Jorge de Sena.

The Cathedral, Auguste Rodin, 1908
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Lx., 10/03/1949
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Minha muito querida Mécia,
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Escrever-me-ás, como eu agora te escrevo; mas o que dizemos já não tem nem precisa de resposta. Sem ti, sabes como fico, como não sei viver, mesmo para as mínimas coisas, que todas vêm de ti, são por ti ou para ti. Saudades, sinto-as outra vez, e não são já iguais às que sentia dantes: tu me faltas, és parte de mim, que sempre o foi mas não como agora. Muitos beijos, muitos, demorados e longos do teu,
................................................................................................................ Jorge.
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Mécia de Sena/Jorge de Sena, in: Isto Tudo que Nos Rodeia (Cartas de Amor).
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Jorge e Mécia, conheceram-se em 1940 e tiveram nove filhos. Desde o falecimento do escritor, em 04 de junho de 1978, passou a cuidar incansavelmente de seu legado literário e intelectual, tendo publicado, até então, cerca de 40 volumes, entre inéditos e reedições. D. Mécia, está com 95 anos, reside em Santa Bárbara, Califórnia, na mesma casa onde viveu com Jorge de Sena, a partir de 1970, após o período de exílio no Brasil.
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terça-feira, 14 de abril de 2015

Correspondências: Rilke e Lou Salomé (2)

Rainer Maria Rilke, © foto de George Bernard Shaw, 1906
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Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado. Quero me recolher, me retirar das ocupações efêmeras. Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem... As pessoas que eu procuro não podem me ajudar: elas não compreendem. O mesmo se passa com os livros: demasiado humanos, ainda... As coisas, só elas, me falam. As coisas de Rodin, as das catedrais, as da antiguidade. Todas as coisas que são perfeitas. Elas me apontaram os meus modelos: um mundo de movimento e de vida, na pura simplicidade de seu desígnio, que é o de deixar nascer as coisas.
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Rainer Maria Rilke.
Trecho de carta escrita em 08 de agosto de 1903, 
endereçada à Lou Andreas-Salomé.
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Correspondências: Florbela e Apeles Espanca

Irmãos Espanca, 1904
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Mano Peles¹,
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Lá vai a última e irrevogável cravadela: envio-te a conta da toilette que me oferecestes. Fui a um alfaiate pelintra para conseguir um preço razoável, e foi o que felizmente aconteceu.
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Como eu não podia dispor deste dinheiro, pedi emprestado ao meu cunhado Manuel, que é bom rapaz e que imediatamente a isso se prontificou; peço-te pois para, por toda esta semana, fazeres o favor de lhe entregar essa importância que ele me emprestou para o pagamento do vestido. Vai, ou manda por um moço ou pelo correio à Rua da Betesga 7 e 9; se ele não estiver, podes deixar a qualquer dos sócios da loja, que depois lhe entregam tudo. Não te esqueças, não? E mais uma vez obrigada; desejo que não seja a última vez que navegues até o Brasil para não ser a última toilette oferecida à mana pelintra².
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Quando apareces? Olha que eu moro na Rua Josefa d’Óbidos, 24-4º (à Graça), Lisboa.
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O vestido está fixe³, digno da mana dum mano fixíssimo. 
Beijos ao Peles urso e os mercis todos da Bela.
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P.S. – Se o mano Peles estiver tão pelintra como a mana pelintra, não pague nada, que eu quando puder saldarei a minha dívida e, mesmo assim, tudo está fixe.
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Beijos e abraços da Bela.
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¹ Peles era o apelido de Apeles Demóstenes da Rocha Espanca. O irmão mais novo da poetisa faleceu em 1927, quando o hidroavião que pilotava caiu no Rio Tejo.
² Pelintra, o mesmo que sem fundos.
³ Fixe, espécie de gíria para algo muito bom.
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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Correspondências: Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst

Clarice Lispector, Giorgio de Chirico, 1945



Hildinha,


A carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico.

Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela.

Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor.

Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — "Fica comigo". Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela.

Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu,


Caio.



* Caio e Hilda se conheceram em meados de 1968, quando o escritor, então perseguido pela ditatura militar, refugiou-se na Chácara do Sol, residência de Hilda, em Campinas, São Paulo.




sexta-feira, 29 de abril de 2011

Correspondências: Vincent e Théo van Gogh

The Potato Eaters, Van Gogh, 1885
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E enquanto trabalho num quadro em que não se veem claridades de uma lâmpada à maneira de Dou¹ ou de van Schendel², talvez não seja inútil observar que uma das coisas mais belas dos pintores de nosso século foi pintar a obscuridade, que apesar de tudo é cor.
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Tenho esperança de que a pintura destes comedores de batata dará certo. Fora isto estou trabalhando num pôr de sol vermelho.
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Para pintar a vida do camponês, é preciso ser mestre em tantos temas. Que bom é isto sobre os personagens de Millet³: seu camponês parece ter sido pintado com a terra que semeia!
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[...] No que diz respeito aos comedores de batata, é um quadro que ficaria bem cercado de ouro, tenho certeza. Ficaria igualmente bem numa parede coberta por um papel que tivesse o tom profundo do trigo maduro.
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Caso ele não seja destacado do resto desta maneira, ele simplesmente nem deve ser visto.
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[...] As sombras foram pintadas com azul e uma cor dourada produz efeito sobre isto. Ontem eu o levei a Eindhoven na casa de um amigo que também pinta. Daqui a três ou quatro dias eu o terminarei lá, com um pouco de clara de ovo, e trabalharei ainda em certos detalhes... Como este amigo também trabalha a partir de modelos, ele também vê muito bem o que existe numa cabeça ou numa mão de camponês e, falando em mãos, ele me disse ter chegado a uma noção totalmente diferente de como fazê-las.
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Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e que meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente.
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Quis que ele fizesse pensar num modo de vida totalmente diferente do nosso, de gente civilizada. Assim, portanto, não desejo nem um pouco que todo mundo o ache nem sequer belo ou bom.
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[...] Mas quem preferir ver camponeses edulcorados que passe ao largo. Por mim, estou convencido que afinal obtêm-se melhores resultados pintando-os em sua rudeza que conferindo-lhes uma beleza convencional.
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Com sua saia e sua camisola azuis, cobertas de poeira e remendadas, e que sob o efeito do tempo, do vento e do sol tenham tomado os mais delicados matizes, uma camponesa é, na minha opinião, mais bonita que uma dama; que ela se vista como uma dama, e tudo que há de verdadeiro nela desaparece.
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[...] Se uma pintura de camponeses cheira a toucinho, a comida, a batatas, perfeito!
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VAN GOGH, Vincent. Cartas a Théo, Ed. L&PM, 2010.
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¹ Guerrit Dou, pintor barroco holandês do século XVII, discípulo de Rembrandt.
² Petrus van Schendal, pintor romântico belga do século XIX.
³ Jean-François Millet, pintor realista francês do século XIX .

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Introspectiva[mente]

Melancholy, Edgar Degas, 1874
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Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
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Clarice Lispector, in: Correspondências.
Carta enviada a Fernando Sabino em 05 de outubro de 1953.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Correspondências: Clarice Lispector e Olga Borelli

Um pedido precavido de amizade, Clarice em foto de 1954, desconheço o autor

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Olga, datilografo esta carta porque minha letra anda péssima.

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Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

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Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes (não repare na acentuação, quem acentua para mim é o tipógrafo) tenho esperança. A passagem da vida para morte me assusta: é igual como passar do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.
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Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.
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Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.

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Sua, Clarice.

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* Clarice e Olga Borelli se conheceram em meados de 1970. Após terem estado juntas em algumas ocasiões, Clarice escreveu-lhe essa carta com um "pedido precavido de amizade". Olga estava perto quando Clarice morreu...

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domingo, 12 de setembro de 2010

Do que se pode dizer sem palavras.

Magnolia Blossom, Imogen Cunningham, 1925
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A carreira das flores apenas difere da nossa por ser inaudível. Quanto mais vou no meu caminho, mais respeito tenho por essas criaturas mudas com sentimentos de insegurança, e impulsos que talvez ultrapassem os meus...
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Emily Dickinson.
Trecho de carta escrita em abril de 1873, endereçada à
Louise e Frances Norcross, primas de Emily.
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domingo, 6 de junho de 2010

Correspondências: Rilke e Lou Salomé

Rainer Maria Rilke, desenho de Leonid Pasternak, 1900
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As flores do campo que trouxe há uma semana de uma manhã maravilhosa há muito estão deitadas entre as grandes folhas de um terno mata-borrão; mas nesta hora em que as contemplo, sorriem-me como uma recordação cheia de graça esforçando-se por parecer alegres como outrora.
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Foi uma dessas horas singulares. Horas que são como o coração de uma ilha cingida por densas florescências: para além destas muralhas primaveris, as ondas respiram quase imperceptivelmente, e não se avista um único barco que venha do passado distante, nem um só que queira continuar para o futuro.
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O fato de se lhe dever seguir um regresso ao quotidiano não pode esbater estas horas insulares. — Elas permanecem à margem de todas as outras horas, como que vividas ao mais alto nível do ser.
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Este tipo de existência insular e mais elevada é a meus olhos o futuro de muito poucos.
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Uma felicidade toca, floresce ao longe,
Alastra em volta da minha solidão
E procura tecer para os meus sonhos
Um enfeite de ouro. E ainda que
A minha pobre vida esteja gelada de madrugada
Inquieta e neve dolorosa,
A hora santa virá para ela,
Um dia, da sagrada Primavera...
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Desejaria estar já em Dorfen. A cidade é tão ruidosa, estranha. E, nos períodos de maturação interior, nada de estranho deve aflorar as nossas margens. Um dia, daqui a muitos anos, compreenderás completamente tudo o que és para mim. O que é a fonte da montanha para quem está sequioso. E se quem está sequioso é um homem íntegro e agradecido, não vai procurar frescura e força à sua claridade para voltar a partir para o novo sol; sob sua proteção e suficientemente perto para ouvir o seu canto, constrói uma cabana e permanece neste vale pacífico até que os olhos estejam cansados do sol e o seu coração transborde de riqueza e de compreensão. Eu construí cabanas e — permaneço.
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Minha límpida fonte! Como te estou agradecido. Não quero mais ver flores, céu, sol — a não ser em ti. Tudo é absolutamente mais belo, mais fabuloso, quando o olhas: a flor nas tuas margens, que — sei isso do tempo em que tinha de ver as coisas sem ti — treme de frio no musgo, solitária e terna, reflete-se clara na tua bondade, vibrante, e quase aflora com a sua pequena cabeça o céu que irradia da tua profundeza. E o raio de sol que chega empoeirado e único aos teus limites transfigura-se e multiplica-se em chuva de centelhas nas ondas luminosas da tua alma.
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Minha límpida fonte. É através de ti que quero ver o mundo, porque, ao mesmo tempo, verei, já não o mundo, mas apenas a ti, a ti, a ti! Tu és o meu dia de festa. Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos. Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las? — Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda — ou uma coroa... Nunca te vi de outro modo.
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Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiara. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.
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René.
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Rainer Maria, Rilke e Andreas-Salomé, Lou: Correspondência Amorosa, Trad. Manuel Alberto, Relógio D'Água Editores, 1994, Lisboa.
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* Rilke conheceu a escritora e psicanalista russa em 1897. Mantiveram um relacionamento amoroso até 1900. Com o fim da relação, continuaram confidentes e correspondentes até 1926, ano em que Rilke faleceu.
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domingo, 18 de abril de 2010

Correspondências: Clarice Lispector e Fernando Sabino

Fernando (1923-2004) e Clarice (1920-1977)

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Washington, 25 de Setembro de 1954.
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Fernando,
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Estou com a impressão meio inventada de que você ficou zangado quando eu disse pelo telefone que não queria que fosse ao aeroporto. Você ficou de telefonar à 1:30, e não telefonou. Fiquei amolada com a minha falta de cortesia, respondendo à sua gentileza com uma sinceridade ou franqueza que ninguém usa. Você gentilmente mostrou intenção declarada ou vaga de ir ao aeroporto, e eu, que tanto faço questão de não usar a alma na vida diária, pois é até de mau gosto, disse que não. Eu já lhe expliquei o motivo da minha rudeza - o que não a justifica - e explicarei de novo. Para mim, sair do Brasil é uma coisa séria e, por mais 'fina' que eu queira ser, na hora de ir embora choro mesmo. E não gosto que me vejam assim, embora se trate de lágrima bem-comportada, de lágrima de artista de segundo plano, sem permissão do diretor para arrumar os cabelos... Não é por vaidade de rosto que não gosto que me vejam de olhos vermelhos, é por uma vaidade que, por ser menos frívola, é muito mais pecado: é por orgulho ou altivez ou seja lá o que for - enfim, vaidade mais grave. Depois, também, eu me encabulo de estar sempre chegando e indo embora, o que obriga os amigos a um movimento em torno de mim, um movimento que às vezes nem cabe direito na vida deles. Então procuro dispensar a gentileza dos amigos, e facilitar a vida diária de cada um que já é bastante cheia e complicada sem uma ida ao aeroporto. Maury diz que eu costumo ter reações pessoais a coisas chamadas 'de praxe'. Parece que é mesmo verdade. Parece que eu seria capaz de pedir sinceramente a alguém que não apanhasse minha luva caída no chão para não amolar esse alguém, sem entender que incômodo é não apanhá-la, que incômodo é não fazer o que é 'de praxe'. (O exemplo da luva é só para exagerar, até que deixo apanharem minhas luvas, senão perderia todas...) Quanta explicação! E provavelmente você nem ficou zangado com minha descortesia, provavelmente você não telefonou depois porque estava ocupado. É o que espero que tenha acontecido. Esperando também que você não ria das tolas e inúteis complicações de sua amiga.
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* Dias depois, um Fernando amuado pelo tédio responde as inquietudes de Clarice.
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Rio, 19 de Outubro de 1954.
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Clarice,
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Suas 'complicações' não são tolas, mas inúteis. É verdade que você não precisa absolutamente se preocupar, não fui ao aeroporto porque você não queria e então acabou-se, e não telefonei porque na hora deve ter acontecido alguma coisa de que já não me lembro, e depois você já não estava. Mas valeu o desencontro porque forçou uma carta tão boa que parecia uma carta de Mário de Andrade e isso é elogio. Respondo agora me forçando um pouco (são 2 horas da manhã, me prometi não passar de hoje) pois quero ver se venço essa minha inércia mental com relação a cartas. Tanto mais que sinto necessidade real de escrever a você e vou deixando passar, talvez porque inconscientemente julgue que nada de importante tenho a lhe dizer, você sempre mereceria mais do que atualmente sou capaz de dizer numa carta. E sei como são importantes as notícias para quem está no estrangeiro. Infelizmente não tenho nenhuma a dar, senão que tudo vai indo na mesma e se as coisas mudam é porque nada precisamos fazer para que mudem. Nada tenho feito e no entanto várias coisas mudaram. Não me mudei; continuando morando no mesmo lugar, para onde você tem a partir deste momento a obrigação moral de escrever. Preciso do seu estímulo - o de alguém que, não vendo as coisas de perto, tem mais perspectiva. E prometo responder, farto de notícias. Creia-me, esta carta já é uma vitória para quem não sabe mais o que dizer. Só é sincero aquilo que não se diz - e nem isso é meu, li em alguma parte. Como você vê, isso para um escritor é estar no mato sem cachorro. Abrace por mim ao Maury e acredite sempre na amizade do seu,
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Fernando.
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LISPECTOR, Clarice, SABINO, Fernando. Cartas Perto do Coração. Dois jovens escritores unidos ante o mistério da criação. São Paulo. Ed. Record, 2001.
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* Fernando foi apresentado à Clarice em 1946, por Rubem Braga. Desde então, mantiveram uma longa e fiel amizade que durou até 1977, ano em que a escritora faleceu.
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domingo, 28 de março de 2010

Correspondências: Frida Kahlo e Diego Rivera

Frida Kahlo, © Foto de Nickolas Muray, 1939
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(...) Uma certa carta que descobri por acaso e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”... me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta... Porque sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que eu sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti, me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo o modo, você me ama um pouquinho... não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta...
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Ama-me um pouquinho.
Eu te adoro,
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Frida.

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KAHLO, Frida. Escrituras de Frida Kahlo por Raquel Tibol. Universidade Nacional Autônoma do México, 1999.
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* Desde que se conheceram em 1928, Frida e Diego mantiveram um casamento tumultuado, marcado por separações, relações extra-conjugais, inspiração mútua e... amor. Entre idas e vindas só se separam de fato quando Frida faleceu em 13 de julho de 1954.

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Correspondências: Fernando Pessoa e Mario de Sá Carneiro

Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, (1888-1935)
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Lisboa, 14 de março de 1916.
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Meu querido Sá-Carneiro,
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Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
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Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
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Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a Vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
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No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
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Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
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Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
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Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
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Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio, amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no Livro do Desassossego. Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
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As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
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Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
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De que cor será sentir?
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Milhares de abraços do seu, sempre muito seu,
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Fernando Pessoa.
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P.S. - Escrevi esta carta de um jato. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lhe mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características...
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Você acha-me razão, não é verdade?
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PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Recolha e transcricão dos textos: Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha; prefácio e organizacão: Jacinto Prado Coelho, Ática, Lisboa 1982.
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* Fernando Pessoa e o escritor Mario de Sá-Carneiro trocaram correspondências entre outubro de 1912 (quando se conheceram) e abril de 1916 (ano da morte de Mario). Durante esse período foram poucas às vezes em que se encontraram pessoalmente, as cartas foram seu maior canal de comunicação, além de base sobre a qual se consolidou a amizade.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Correspondências: Florbela Espanca e Guido Battelli

Florbela de Alma da Conceição Espanca, 1824 - 1930
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Matosinhos, 03 de agosto de 1930.
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Meu querido amigo,
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Finalmente instalada e um pouco refeita da fadiga da viagem, venho agradecer-lhe a sua última carta recebida em Évora.
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Já tinha saudades de conversar consigo. É assim um católico tão convencido? Eu não sou católica, como não sou protestante nem budista, maometana ou teosofista. Não sou nada. E nem sequer poderá servir-me o preceito divino: "Aquele que me procura, já me encontrou" porque eu não procuro... O meu racionalismo à Hegel, apoiado numa espécie de filosofia à Nietzche, chegou-me por muito tempo. Hoje... a minha sede de infinito é maior do que eu, do que o mundo, do que tudo, e o meu espiritualismo ultrapassa o céu. Nada me chega, nada me convence, nada me enche. Sou um pobre que nenhum tesouro acha digno das suas mãos vazias. A morte, talvez... esse infinito, esse total e profundo repouso; não me queira tirar a certeza de que ela é tudo isto: seria uma maldade, quase um crime. Pense bem: eu, que não sei o que é dormir uma noite inteira, dormir muitas, dormir todas e todos os dias e todos os anos, pelos séculos dos séculos! Só esta ideia me faz sorrir. Deve ser tão bom!
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Não sei o que há em mim que me envenena todas as horas da vida. Posso dizer como Duvernois: "Ma vie c'est une promenade de prisonnier dans un chemin de ronde. Je tourne et ne vois que des murs..." Às vezes, parece que tenho qualquer missão a cumprir, qualquer coisa a fazer; mas não sei o que é, não compreendo, e esta inquietação mina-me, roi-me; esta interrogação, esta contínua busca, cada vez mais ansiosa, dentro de mim mesma, desvaira-me. Estou hoje num dos meus dias maus, não lhe devia escrever; mas, erguer todos estes fantasmas em frente da sua alma compreensiva e boa, da sua alma amiga, é um alívio e um refrigério. Perdoe o egoísmo à sua pobre Soror Saudade; hoje mais Soror Saudade do que nunca. Às vezes sinto em mim uma elevação de alma, o vôo translúcido duma emoção em que pressinto um pouco do segredo da suprema e eterna beleza; esqueço a minha miserável condição humana, e sinto-me nobre e grande como um morto. É um instante... Tudo depois é tão vago, de tal maneira solto e impreciso, de tal forma inerte e passivo, que tenho a impressão nítida de ter vindo de longe cumprir a pena do crime de ter nascido. E de todas as minhas tristezas não tenho tirado nada. Boa? Não sei... creio que não. Perdoo facilmente as ofensas, mas por indiferença e desdém: nada que me vem dos outros me toca profundamente. O amor! Ah, sim, o amor! Linda coisa para versos! A minha dolorosa experiência ensinou-me que sou só, que por mais que a gente se debruce sobre o mistério duma alma nunca o desvenda, que as palavras nada exprimem do que se quer dizer e que um grande amor, de que a gente faz o sangue e os nervos e as próprias palpitações da nossa própria vida, não passa duma pobre coisa banal e incompleta, imperfeita e absurda, que nos deixa iguais, miseravelmente iguais ao que éramos dantes, ao que continuaremos a ser. Então... para quê?...
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Tenho imensa pena de lhe não poder dizer, com verdade, que sou feliz. Lembre-se de que eu sou um canceroso: podem as várias morfinas aliviar-me, curar-me nunca. Estou doente, tenho os nervos destrambelhados. Apetecia-me agora estar longe, longe, nesse claustro de Santa Cruz da sua linda Florença. Soror Saudade sentir-se-ia ali no seu lugar; a triste monja sem fé encheria o olhar da luz suave e amortecida, toda em sedas pálidas, que a tardinha lhe trouxesse, como um divino milagre, ao seu coração chagado. Soror Saudade quereria não pensar, sobretudo não pensar, quereria pousar as mãos, devagarinho, no rebordo duma taça de mármore onde dormisse um pouco de água limpa e contemplar, entre os muros do claustro, o céu, lá no alto; em campo azul, um heráldico pombo branco, enquanto lírios muito roxos, a seus pés, inclinassem a cabeça a meditar... O meu grande amigo dirá antes que Soror Saudade precisa, indiscutivelmente, duma cela em Rilhafoles...
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Gosto imenso do seu grande Ruben Darío. Mas também são dele estes dois belos versos:
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"Pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo. Ni mayor pesadumbre que la vida consciente".
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Os meus progressos em italiano! "Si on peut dire..." Mereço não 16 mas 0, ou ainda mesmo alguns décimos abaixo de 0. É muito difícil, muito, muito difícil. Eu é que tenho que lhe dar os parabéns pelo seu ótimo português: Bravo! Muito, muito bem! Achei graça à dificuldade do burel e do mel. Que trabalhos por minha causa, e que bondade a sua em se interessar assim por um bichinho tão pouco interessante como eu sou!
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Aguardo carinhosamente a promessa da sua visita. Que não fique apenas em promessa... Depressa, sim?
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Fez muito bem em ter dormido como um anjo, pois a causa da insónia seria uma ilusão como muitas... A minha boca é isso tudo só em verso... na realidade é pálida, fria e inexpressiva como a boca duma velhinha morta.
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Tinha assim um tão grande desejo que o Cristo bizantino o remoçasse? Que ideia! Para quê? Eu quereria antes que ele me envelhecesse vinte anos num só dia. Vinte anos! Tanto tempo! Que farei eu ainda de vinte anos, meu Deus?! Tanto, tanto tempo!...
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Envio-lhe os meus dois últimos sonetos. Tenho ultimamente trabalhado bastante. Charneca em Flor está pronto, visto e revisto, e não me parece mal. Que dirá o Mestre?...
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E adeus, um adeus que eu espero seja um "até breve" muito feliz.
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Bela.
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ESPANCA, Florbela. Afinado Desconcerto (contos, cartas, diários). Coleção Vera Cruz. Organização: Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002.
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* Florbela Espanca e Guido Battelli, professor de História de Literatura Italiana da Universidade de Coimbra, começaram a se corresponder em 18 de junho de 1930. Além de confidente e entusiasta, foi responsável pela tradução de seus trabalhos para o italiano e pela publicação póstuma de algumas obras, dentre elas, Charneca em Flor. No interstício entre essa carta e seu falecimento, Florbela tentou o suicídio por duas vezes. Não resistiu à terceira tentativa, arrefecendo em 08 de dezembro de 1930, dia em que completaria 36 anos.
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