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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"Para que nada seja definitivo - nem esta ânsia de palavras nem o dito e o contradito..."

Study Sketch for Morning Sun, Edward Hopper, 1952
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Vós, palavras, de pé, sigam-me!
e se já fomos longe,
longe demais, ainda se vai
mais longe, vai-se para
nenhum fim.
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Não fica mais claro.
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A palavra
irá apenas
arrastar com ela outras palavras,
a frase frases.
Assim o mundo queria
definitivamente
impor-se,
estar já dito.
Não o digam.
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Palavras, sigam-me!
Para que nada seja definitivo
- nem esta ânsia de palavras
nem o dito e o contradito.
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Não deixem por um instante ainda
nenhum dos sentimentos falar,
que o músculo coração
se exercite de outra forma.
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Não deixem, vos digo, não deixem!
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Ingeborg Bachmann.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Procura-se...

 East Side Interior, Edward Hopper, 1922
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O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.

Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.

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Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.

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Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeiras, nas gretas do muro, nos espaços vazios.

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Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.

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Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.

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Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.

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Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.

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Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.
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Carlos Drummond de Andrade.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Resiliências...

Summer Interior, Edward Hopper, 1909
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Com o tempo as pessoas se recuperam de qualquer coisa. Dizem que eu sempre estou bem-disposta, e têm razão. Graças a Deus, estou.
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... Contudo, sem ser mórbida e mexendo nas lembranças, devo confessar que vejo nisto alguma coisa de triste na vida. Não me refiro à tristeza que todos nós conhecemos, como a doença, a pobreza e a morte. Não, é algo diferente. É lá no fundo, bem no fundo, faz parte da gente, como a respiração. Por mais que trabalhe, por mais que me canse, basta parar para sentir que essa coisa está lá, esperando. Muitas vezes eu me pergunto se todo mundo sente do mesmo jeito. Nunca se pode saber. Mas não é extraordinário que dentro de seu canto alegre, doce, tudo o que eu ouvia era: tristeza? Ah, o que é isto?
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Katherine Mansfield.
Trecho de “O Canário”, do livro Felicidade e Outros Contos.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui..."

 Room in Brooklyn, Edward Hopper, 1932
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"Estarei só. Não por separada, não por evadida. Pela natureza de ser só. No entanto a multidão tem sua música, seu ritmo, seu calor, e deve ser uma felicidade, às vezes, ser na multidão o que o peixe é no oceano. Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes! .
..Se me chamares, responderei, mas serei solidão. Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares. Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei: como o eco. Mas é tu que vens e voltas: a tua solidão e a minha solidão."

Cecília Meireles.

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