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domingo, 31 de maio de 2015

"As coisas das quais facilmente nos lembramos quando são reais, também as lembraremos sem dificuldade quando fictícias..."

Série 'Luna Vedoma', Mario Giacomelli, 1986-96
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"Sim, se, graças ao esquecimento, não pôde estabelecer nenhum laço, tecer malha alguma entre si e o momento presente, se ficou em seu lugar, em seu tempo, se conservou sua distancia, seu isolamento no côncavo de um vale ou no cimo de uma montanha, a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar outrora respirado, o ar mais puro que os poetas tentaram em vão fazer reinar no Paraíso, e que não determinaria essa sensação profunda de renovação se já não houvesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são os que perdemos."
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Marcel Proust, in: O Tempo Redescoberto.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

 Portrait of the Marquise de Pompadour, François Boucher, 1756
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"Depois dessa crença central que, durante a minha leitura executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pela ação em que tomava parte, porque aquelas tardes eram  mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler; é verdade que as personagens por eles afetadas não eram "reais", como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem experimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar. Se é atingido por uma infelicidade, só numa pequena parte da noção total que dele temos é que podemos comover-nos com isso; muito mais ainda, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si é que ele mesmo poderá comover-se. O achado do romancista foi ter a idéia de substituir essas partes impenetráveis á alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as ações, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tornamos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantém sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar? E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, toda a emoção é decuplicada, estado em que o seu livro nos vai perturbar à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos a dormir, e cuja lembrança irá durar mais tempo, então, eis que ele desencadeia em nós durante uma hora todas as felicidades e todas as infelicidades possíveis, algumas das quais levaríamos anos de vida a conhecer, e as mais intensas das quais nunca nos seriam reveladas, porque a lentidão com que se produzem nos retira a percepção delas (assim, na vida, o nosso coração muda, e essa é a pior dor; mas só na leitura, em imaginação, a conhecemos: na realidade ele muda, como certos fenômenos da natureza se produzem, com suficiente lentidão para que, se pudermos detectar sucessivamente cada um dos seus estados diferentes, em contra-partida nos seja poupada a própria sensação de mudança."
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Marcel Proust, in: Em Busca do Tempo Perdido,
 No Caminho de Swann.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Ressignificar...


Les Quatre Cents Coups, direção de François Truffaut, 1959
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"Eu deslizava rapidamente sobre tudo isso, mais imperiosamente solicitado, como estava, a procurar a causa dessa felicidade, do caráter de certeza com que ela se impunha, pesquisa outrora adiada. Essa causa, contudo, eu a adivinhara ao comparar essas várias impressões que me proporcionavam bem-estar e que, entre elas, tinham em comum a faculdade de serem sentidas, ao mesmo tempo, no momento atual e num momento passado – o ruído da colher no prato, a desigualdade das lajes, o gosto da madeleine -, até fazerem o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois me encontrava; na verdade, a criatura que então saboreava em mim essa impressão, saboreava-a naquilo que ela possuía em comum entre um dia antigo e o atual, no que possuía de extratemporal, era uma criatura que só aparecia quando, por uma dessas identidades entre o presente e o passado, podia achar-se no único ambiente em que conseguiria viver, desfrutar da essência das coisas, isto é, fora do tempo..."
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Marcel Proust, in: O Tempo Recuperado.
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

"As pessoas querem aprender a nadar e ter um pé no chão ao mesmo tempo..."


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Certo dia, o escritor francês Marcel Proust respondeu a um questionário, que foi oferecido aos convidados de uma festa da alta-roda parisiense. Dizem que gostou tanto das perguntas, que o modelo foi batizado com o seu nome; segundo outra versão, a partir daquele momento, Proust começou a interessar-se pelo assunto e fez mudanças significativas nas questões. De convicto mesmo, só o fato de já terem sido respondidas por grandes artistas e escritores.

Quando minha amiga mandou o email com o questionário, disse em síntese: “Olha, até Drummond e o Manuel Bandeira já responderam!” tentando soar persuasiva.

Depois da sabatina, fiquei a pensar na antítese criativa, que só gênios como Proust são capazes de oferecer.
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O questionário pode ser um passatempo divertido. Mas se prefere algo "denso", há ainda a alternativa intelectualmente instigante de "No Caminho de Swann", "As Sombras das Raparigas em Flor", "O Caminho de Germantes", "Sodoma e Gomora", "A Prisioneira", "A Fugitiva" e "O Tempo Reencontrado", os sete volumes de romances que formam o épico "Em Busca do Tempo Perdido".
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Leitura Proustiana para todos os gostos e estados de espírito.
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1. Qual é a sua maior qualidade?
Lealdade.
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2. E seu maior defeito?
Incapacidade de síntese e assertividade, coisa de quem economiza a palavra dita.
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3. A característica mais importante em um homem?
Masculinidade.
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4. E em uma mulher?
Feminilidade.
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5. O que você mais aprecia nos seus amigos?
A diferença.
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6. Sua atividade favorita é…
Ler, cozinhar, nadar, fotografar...
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7. Qual a sua ideia de felicidade?
Auto-conhecimento. Amigos. Uma estante de livros em madeira, com o pé direito tão alto que exija uma escada. Passar pelos anos de mãos dadas com alguém. Casa com flores, ruídos, cozinha viva. Viagens sem destino.
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8. E o que seria a maior das tragédias?
Alguns acontecimentos fizeram-me rever o trágico. Por isso considero dramas pessoais uma contingência da vida. Menos trágicos que algumas cegueiras e alienações.
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9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
Seria interessante saber o que se passava na cabeça do Leonardo da Vinci.
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10. E onde gostaria de viver?
Amsterdã ou Paris.
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11. Qual sua cor favorita?
Azul.
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12. Uma flor?
Orquídea.
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13. Um pássaro?
Beija-flor.
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14. Seus autores preferidos?
Clarice Lispector, James Joyce, Julio Cortázar, Simone de Beauvoir, Guimarães Rosa, Albert Camus, Susan Sontag, Marcel Proust...
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15. Os poetas que mais gosta?
Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Rainer Maria Rilke, Drummond, Manuel António Pina, Manoel de Barros, Shakespeare, Florbela Espanca, Mario Quintana, Alejandra Pizarnik, João Cabral de Melo Neto...
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16. Quem são seus heróis de ficção?
Snoopy.
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17. E as heroínas?
Mafalda.
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18. Seu compositor favorito é…
Tom Jobim, Sebastian Bach e Beethoven.
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19. E os pintores que você mais gosta?
Caravaggio, Van Gogh, Marc Chagall, Leonardo da Vinci, Frida Kahlo, Michelangelo, Peter Paul Rubens, Renoir, Francisco de Goya, Rembrandt, Gustav Klimt, Toulouse-Lautrec, Edvard Munch...
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20. Quem são suas heroínas na vida real?
Clarice Lispector, pela inquietação.
Frida Kahlo, pela força.
Madre Tereza, pela humanidade.

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21. E quem são seus heróis?
Leonardo da Vinci, pela genialidade..
22. Qual sua palavra favorita?
Delicadeza.
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23. O que você mais detesta?
Indiferença.
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24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?
Adolf Hitler.
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25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?
Telepatia.
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26. Como você gostaria de morrer?
Não penso a respeito, talvez dormindo.
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27. Qual seu atual estado de espírito?
Serve "o seu eterno estado de espírito"?
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28. Que defeito é mais fácil perdoar?
Defeitos não são da alçada dos perdões, e sim, da aceitação, quando possível.
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29. Qual é o lema da sua vida?
Não criei um ainda. Mas é recorrente a busca pelo entendimento dos meus “processos”. 
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"E, logo que o nosso chamado retiniu, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se inclinam, um ruído leve – um ruído abstrato – o da distância surpresa – e a voz do ser querido se dirige a nós.
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É ele, é a sua voz que nos fala, que ali está. Mas como essa voz se acha longe! Quantas vezes não pude escutar senão com angústia, como se ante essa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu melhor sentisse o que há de decepcionante na aparência da mais doce aproximação, e a que distância podemos estar das pessoas amadas, no momento em que parece que bastaria estendermos a mão para retê-las...”

Marcel Proust, in: Em Busca do Tempo Perdido, vol. III.

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