sábado, 13 de setembro de 2008

Intrinsecamente.

Manuscrito de A Hora da Estrela, 1977, acervo IMS
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"E uma desilusão. Mas desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."
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A Paixão Segundo G.H.




A Hora da Estrela, exposição Clarice Lispector
Centro Cultural Banco do Brasil
19 de agosto à 28 de Setembro de 2008
Terça à Domingo das 10 às 21hs.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

I Am Because We Are.

Documentário "I Am Because We Are", direção de Madonna, 2008
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Algumas realidades por mais brutas, coexistem pacificamente com o tempo, independente do quanto possam mortificar o espírito.
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Não obstante o pesar e indignação que causam, ainda falta o sentido maior e viável, de que mudar o estado das coisas consiste basicamente em deixar de olhar para o próprio umbigo...
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Assistam o documentário.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Idas e vindas.

Spring at Barbizon, Jean-François Millet, 1868-1873
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"Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza..."
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Clarice Lispector, in: Água Viva.

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

"Esquisse d'une théorie des émotions..."

The Martyrdom of St Matthew, Caravaggio, 1599-1600
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Em suas missivas, Dostoiévski divide o homem em ordinário e extraordinário. Alguns de meus pensamentos a respeito estão sendo fomentados pelo noticiário atual.

Ok, por formação minhas conceitualizações vão além... entretanto, me incomoda a linha tênue entre o racional e a bestialidade.

O pensamento racionalista nos impele a pôr em prática o que nos foi ensinado, subvencionado ou mesmo categorizado. Disso advêm nosso senso crítico e moral. Quando ocorre um desvio dessas didáticas ou mesmo a inadequação dessas leituras (questão de ordem patológica), resvalamos no ordinário, nas atitudes que geram ojeriza e incredulidade.

Não é simplista portanto, pensar que é ela – a moralidade (embasada sob os auspícios da religião, quer seja pela educação a que nos dispensaram) – o frágil limite a qual estamos expostos.

"Se Deus não existisse, tudo seria permitido"... sem limites de valores ou ordem que legitimem a nossa conduta sobre o que é certo e errado, ética, respeito ao direito alheio mesmo sendo ele o de coexistir; o homem estaria à deriva porque não encontraria em si, nem fora dele, a que agarrar-se. 
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sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!"

Sleeping Head, Lucian Freud, 1980
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"Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir
Sem a parte que acordará em mim."
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Carlos Gildemar Pontes.
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quinta-feira, 27 de março de 2008

Abstraction...

 Pie Fight Study 2, Adrian Ghenie, 2008
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Vagamente observou que isso contrariava sua tese individualista:

Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o "mau de muitos" é consolo, mas não é solução.
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Clarice Lispector, in: A Bela e a Fera.
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quarta-feira, 12 de março de 2008

Ser ou não ser...

 Golconda, René Magritte, 1953
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"Isso é dificilmente possível. Penso que haverá uma reação contra esse acordo de dissociação. O homem não dura para sempre. Sua anulação. Haverá uma reação e eu a vejo se instalando. Sabe, quando penso em meus pacientes, eles todos procuram sua existência, e afirmar sua existência contra a completa atomização para o nada ou para a falta de significado."


Palavras de Carl Jung em entrevista remota, quando indagado sobre a necessidade das pessoas se comportarem de forma comum, impulsionadas pelo mundo que se torna mais eficiente tecnicamente.

Esperava-se que fosse possível, o mais alto desenvolvimento humano submergir na sua própria individualidade em um tipo de consciência coletiva.


Décadas passaram e o processo preconizado por ele não poderia ser mais contraditório. Experimentamos um estado de pseudo verdades universais, mas a que passo de coerência?

Existe um quê de automatização dessa consciência dissolvida em conceitos difusos, intolerâncias, mornidão, em um quase processo de involução.

Ao ponto que encontrar o significado da sua existência continua sendo a maior indagação e necessidade, o ser humano caminha abstraído pela facilidade do hermetismo.

Afinal, pensar pode te deixar à beira de um abismo. Arriscar consiste em dores ocasionais. Mudar tem a ver com altruísmo e desapego. Humanização requer desmistificação.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

"Dependerá de nós chegarmos dificultosamente a ser o que realmente somos."

 Haia Pinkhasovna Lispector, Claudia Andujar, 1961
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É insólito ficar sem escrever mesmo que os afazeres cerceiem o tempo. Mesmo que a inspiração vagueie ou que a preguiça me tome.

Diz-se: "Tenho que falar, pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer."

Assumindo que me é incomoda a divisão, inervante a ideia do todo que me sorri e as nuvens densas que pairam; aceno vigorosamente com as mãos como forma de demovê-las, já que parecem tão esparsas... Momentaneamente se atinge uma luminosidade coerente, para no momento seguinte, não. Talvez seja mesmo impossível abrandar a alma, converter os sentidos, convergir reflexão em clareza.

O ato de refletir tem por premissa a adequação de ideias. Pois o que dizer, se tal ação expandi caminhos desconhecidos. Como seguir a trajetória sem medo, sem bússola que te auxilie o retorno?!

É como buscar respostas e ao mesmo tempo não querer tê-las. A simplicidade é tão etérea que de simples não tem nada.

Voltando a escrever, sem que exista uma obrigatoriedade de entendimento... bem-vindo!!
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