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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"O que nos mata é a solidão povoada"

Melancolia I, Albrecht Dürer, 1514
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Nós que não somos naturais, porque
somos quem nega a natureza, não
morreremos nunca de animas a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que 
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera
ser mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma. Nunca mais
havemos de morrer em paz e espanto
de se acabar o mundo e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada.
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Jorge de Sena.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Agenda: Queremos Miles, Di Cavalcanti, Mestres da Gravura...

St. John, Hendrick Goltzius, 1589



"Mestres da Gravura na Coleção da Biblioteca Nacional" é o programão a ser apreciado no Centro Cultural dos Correios até o dia 18 de setembro.

A exposição reúne 171 obras, de 82 gravadores estrangeiros, e compreende o período entre os séculos XV ao XVIII. Todas as gravuras são originais e compõem o acervo de 30 mil gravuras da Biblioteca Nacional, uma das dez maiores coleções do mundo, segundo a UNESCO.

O conjunto é dividido por ondem cronológica respeitando o nascimento dos artistas e a nacionalidade das coleções. Alemanhã, Holanda, Itália, França, Inglaterra, Espanha, Países Baixos e Portugal, são os países representados na mostra. As técnicas predominantes são a xilogravura, que é a gravação em prancha de madeira, e o talho-doce, gravado em prancha de metal.

Entre os trabalhos expostos, apreciar-se-ão obras de Albretch Dürer, Rembrandt, Hendrick Goltzius, Francisco de Goya, Lucas Cranach, Andrea Mantegna, Guido Reni, Israel van Meckenen, William Hogarth, José de Ribera, Nicolas Ennes Visscher, Annibale Carracci, François Perrier, Giambattista Piranesi, Manuel Salvador Carmona, Jacques Callot, Joaquim Manuel da Rocha... entre outros. Imperdível!!




Study of an Apostle's Hands (Praying Hands), Albrecht Dürer, 1508



Self-Portrait with a Cap Openmouthed, Rembrandt, 1630



Self-Portrait of Piranesi, Giambattista Piranesi, 1756



Nemesis (The Great Fortune), Albrecht Dürer, 1501-1503



Paulus Du Pont, Anthony van Dyck, 1641



The Captivity is as Barbarous as the Crime, Francisco de Goya, 1810



Head of Christ on the Sudarium, Claude Mellan, 1649



Head of Christ on the Sudarium (detail), Claude Mellan, 1649



A Midnight Modern Conversation, William Hogarth, 1733



The Drunken Silenus, Jusepe de Ribera, 1628



Judgement of Paris, Marco Antonio Raimondi, 1515



Exposição "Mestres da Gravura na Coleção da Biblioteca Nacional"
Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro
Ter à Dom, das 12h às 19h
De 28 de julho à 18 de setembro
Entrada gratuita




Mulheres Facetadas, Di Cavalcanti,1968



Também no Centro Cultural dos Correios, que de tempos em tempos acerta a mão na seleção de trabalhos, a exposição "Di Cavalcanti – do Desenhista ao Pintor". O artista carioca comumente festejado por suas pinturas, também trabalhou como desenhista de jóias. O visitante tem acesso a 108 desenhos e 11 peças exclusivas, com seus croquis originais. Estão expostas ainda seis pinturas a óleo: Retrato de Ivete, de 1969; Mulata com Casario, de 1963; Mulheres Facetadas, de 1968; Pássaros, de 1960; Mulher do Chapéu Amarelo, de 1964 e Carnaval, de 1970


Exposição "Di Cavalcanti – do Desenhista ao Pintor"
Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro
Ter à Dom, das 12h às 19h
De 27 de julho à 18 de setembro
Entrada gratuita




Segregated Water Fountains, © foto de Elliott Erwitt, 1950



Últimos dias para conferir alguns dos maiores fotógrafos da história. A exposição "Extremos – Fotografia na Coleção da Maison Européene de La Photographie", reúne 115 imagens registradas nos últimos 65 anos. Trabalhos de Sebastião Salgado, Irving Penn, Ansel Adams, Claudia Andujar, Elliott Erwitt, Henri Cartier-Bresson, Manuel Álvarez Bravo, Raymond Depardon, Jean-Philippe Charbonnier, para citar alguns. Em comum a todas, o olhar que capta a beleza, a perplexidade, a dor, a transcendência; de momentos extremos que eternizaram as transformações da sociedade nesse período.


Exposição "Extremos: Fotografias na Coleção da Maison Européene de La Photographie"
Instituto Moreira Salles
Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea
Ter à Sex, das 13h às 20h
Sáb, Dom e Feriados, das 11h às 20h
De 12 de junho à 28 de agosto
Entrada gratuita





Blue in Green, faixa do álbum "Kind of Blue", Miles Davis, 1959



Miles Davis, para muitos a maior lenda do jazz, ganha retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil. "Queremos Miles – Miles Davis", traz uma coletânea de fotos, documentos, entrevistas, objetos pessoais, partituras, instrumentos do próprio Miles e de músicos que conviveram com ele, como um saxofone de John Coltrane; além de pinturas e desenhos em sua homenagem, como o acrílico sobre tela, "With Strings", pintado por Jean-Michel Basquiat, em 1983.



Exposição "Queremos Miles – Miles Davis, lenda do jazz"
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66
Ter à Dom, das 9h às 21h
De 02 de agosto à 28 de setembro
Entrada franca


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Variações sobre um mesmo tema: a impermanência

The Old Courtesan, Auguste Rodin, 1887, bronze in 1910



A força da gravidade derrubando as folhas das árvores já secas, enrugadas, esmaecidas. É outono e tudo é meio cinza, meio derradeiro... as cores primaveris e a força solar dos verões são estações passadas. Entretanto, em nenhum de seus ciclos, o perecer de uma folha é mais resiliente, apaziguante. Nessa altura, onde o inverno se aproxima, firma-se uma treguá com o tempo. Uma aceitação mútua de suas naturezas indissociáveis, porém dispares: a beleza da vida está para a efemeridade de viver.

Queremos do tempo, o próprio tempo; o sentido, as respostas, a inteireza, a eternidade, e ele só nos pede transcendência.



An Old Woman of Arles, Vincent Van Gogh, 1888



Living in Three Centuries, © foto de Mark Story, d.d



Old Woman With Ball Yarn, Marc Chagall, 1906



Portrait of an Old Woman, Pieter Bruegel, "the Elder", 1563



Old Woman, Christian Seybold,1749-1750



Study of a Man Aged 93, Albrecht Dürer,1521



Old Woman Dozing, Nicolaes Maes, 1656



Portrait of a Old Woman, Guido Reni, 1612



Head of an Old Woman, Orazio Borgianni,1610



Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...
Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.
Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações sutis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?
Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh vida! oh labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.
Cá ’stão os bons d’outrora, entes que já gozaram
horas de ouro, e também... como elas se escoaram.
Não me hão-de ouvir agora os mesmos, bem o sei,
para quem noutro tempo os versos meus cantei.
Sumiu-se, aniquilou-se aquela amiga turba,
que nem com som mortiço os ecos já perturba.
Vibra meu canto agora a ignota multidão,
cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;
e os a quem meu cantar outrora foi jucundo,
erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo.
Ai, plácida mansão, de espíritos morada!
revive na saudade, há tanto descorada!
Começa em vagos sons meu estro a palpitar,
qual de uma harpa eólia o triste delirar...
Já sinto estremeções; o pranto segue ao pranto,
e o duro coração se abranda por encanto.
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.

Goethe, in: Fausto (prólogo).



Portrait of an Old Woman, Ilya Repin, 1870



Sir John Herschel, © foto de Julia Margaret Cameron, 1867



Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity), Van Gogh, 1890



Portrait of a Woman Suffering from Obsessive Envy, Theodore Gericault, 1822



Vieille Femme Avec a Chapelet, Paul Cézanne, 1896



An Elderly Peasant Woman, Léon-Augustin L'hermitte, 1878



Old Woman Praying, Matthias Stom, 1640



Kazuo Ohno, © foto de Yoshihiko Ueda, d.d.



Judith Beheading Holofernes (detail), Caravaggio, 1598



Self Portrait Reflection, Lucian Freud, 2002



A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, in: Elogio da Sombra.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Variações sobre um mesmo tema: São Jorge e o Dragão


Jorge de Capadócia, Caetano Veloso
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É bem verdade que São Sebastião é o padroeiro legítimo da cidade do Rio de Janeiro, mas talvez não seja tão festejado e reverenciado quanto São Jorge. Reza a história, que o mártir nasceu durante o século terceiro entre 275 e 285 dC. em Capadócia, região da Anatólia, hoje parte da Turquia.
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Aos 17 anos de idade, alistou-se na cavalaria do exército romano em Nicomédia, durante o reinado do imperador Diocleciano. Este tinha interesse em instaurar o paganismo romano. Para tanto, emitiu um decreto que mandava destruir igrejas e cerceava direitos de quem admitisse ser cristão.
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São Jorge se opôs ao decreto imperial, mantendo-se fiel ao cristianismo e rebelando-se contra os excessos do Imperador. Diocleciano tentou convencê-lo, primeiro com recompensas, que foram recusadas, depois torturando-o de várias formas. Reconhecendo a inutilidade de seus esforços, mandou degolá-lo em 23 de abril de 303 d.C.
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São Jorge foi canonizado em 494 d.C., pelo Papa Gelásio I. É padroeiro da Inglaterra e de várias cidades européias. No Brasil, parte da devoção ao Santo Guerreiro extravasa a liturgia católica e se ramifica dentro da mitologia Yorubá, sob a representação do orixá Ogum.
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A alegoria do dragão dentro das representações pictóricas de São Jorge:
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St. George Praying After Slaying the Dragon, Heinrich Lefler, Data incerta
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St. George On Horseback, Albrecht Dürer, 1505-08
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St.George Killing The Dragon, Jacopo Bellini, Séc. XV

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St. George Killing the Dragon, Eugene Delacroix, Data incerta

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St. George and the Dragon (detail), Vittore Carpaccio, 1516

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St. George Slaying the Dragon, Hans Von Aachen, Data incerta

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St. George and the Dragon, Gustave Moreau, Data incerta

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St. George and the Dragon, Antony Van Dyck, Data incerta
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St. George and the Dragon, Tintoretto, 1555-58
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St. George and the Dragon, Raffaello Sanzio, 1505-06
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St. George on Horseback, Mattia Preti, 1658

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St. George Slays the Dragon, Lucas Cranach (the elder), Data incerta
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St. George Fighting the Dragon, Peter Paul Rubens, 1606-10.
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"...Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá, enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica..."
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T.S. Eliot, in: Gerontion's.
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