quarta-feira, 27 de junho de 2012

| Borderline |

Untitled (Blue Divided by Blue), Mark Rothko, 1966
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Nós o chamamos de grão de areia.
Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.
Dispensa um nome
geral, particular,
passageiro, permanente,
errado ou apropriado.
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De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.
Não se sente olhado nem tocado.
E ter caído no parapeito da janela
é uma aventura nossa, não dele.
Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa
sem a certeza de já ter caído,
ou de estar ainda caindo.
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Da janela há uma bela vista para o lago,
mas a vista não vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.
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Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água.
Nem singular nem plural a onda
Que murmureja surda ao seu próprio murmúrio
ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.
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E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,
no qual o sol se põe na verdade não se pondo
e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem insciente.
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O vento a varre sem outra razão
que a de ventar.
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Passa um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Mas são três segundos somente nossos.
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O tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes.
mas isso é apenas um símile nosso.
Uma personagem inventada, a sua pressa imposta
e a notícia inumana.
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Wislawa Szymborska.
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sábado, 23 de junho de 2012

"ah ‘persona’, como não te usar e ser!"


Marcel Marceau, The Mask Maker, 1959
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"Então, sem entender o que fazia – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era.

Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma másca­ra de pintura no rosto – ah ‘persona’, como não te usar e ser! – sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu co­ração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-­se e foi..."
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Clarice Lispector, in: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Para cultivar pássaros e falar com as flores..."

Sem título, Juul Kraijer, 2006
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Para cultivar pássaros
e falar com as flores
subir à montanha,
capturá-la em seus abismos
com viril delicadeza
mergulhar na amplidão
de suas formas.

Um mergulho perigoso
de onde se sai aos pedaços.

Reunir os cacos
em melancólico mosaico
recompor a paisagem
do que se foi um dia
mesmo sabendo que inteiro
não se é nunca mais.


Dirce de Assis Cavalcanti.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself."

Red Headed Woman in the Garden of M.Foret, Toulouse-Lautrec, 1887
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"Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca."
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Virginia Woolf, in: Mrs. Dalloway.
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