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domingo, 9 de dezembro de 2018

"Ante este ímpeto de sons e de silêncio, ante tais gritos de furiosa paz, ante um furor tamanho de existir eterno..."

Maria, screenshot do filme Maria by Callas: in her own words
dir. Tom Volf, 2018
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Como se modulando neste espaço-tempo
que se desenha espaço em mero som contínuo
de um tempo trespassado,
a fina imarcessível
dor 
é timbre e andamento,
e proporção de altura
a desdobrar-se na serena angústia
de um nada preenchido.
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Intensamente.
Quietação.
Vácuo.
Tudo. 
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Canta o impossível.
Que voz humana
sustentaria
esta pressa alegre
ou a tensão suspensa
do lento sonho?
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Jorge de Sena.
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terça-feira, 15 de maio de 2018

Música para curar a alma: Montserrat Figueras e Maria Cristina Kiehr


Troisième Leçon de Ténèbres à 2 Voix, Francois Couperin, c. 1714
Condutor e solista, Jordi Savall
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"... e para além dessa certeza que outro ritmo dá àquele de que as palavras têm sentido: lá onde ouvir e não-ouvir se igualam..."
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Jorge de Sena, in: Arte de Música.
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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"O que nos mata é a solidão povoada"

Melancolia I, Albrecht Dürer, 1514
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Nós que não somos naturais, porque
somos quem nega a natureza, não
morreremos nunca de animas a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que 
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera
ser mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma. Nunca mais
havemos de morrer em paz e espanto
de se acabar o mundo e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada.
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Jorge de Sena.
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quarta-feira, 27 de abril de 2016

"... É isto a vida: algo que se ouviu num timbre momentâneo e sobreposto ao vácuo entre as palavras, para além do som ou do sentido..."

The Triumph of Music, Marc Chagall, 1967 
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A música é só música, eu sei. Não há
outros termos em que falar dela a não ser que
ela mesma seja menos que si mesma. Mas
o caso é que falar de música em tais termos
é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem
mostrá-lo ou sem sequer havê-lo visto alguma vez.
Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música
for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,
nenhum silêncio recolhido nos persiste para além
de alguns minutos. E não dura na memória como
silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala
a própria música que adora. Porque a música
não é silêncio mas silêncio que
anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio,
e sim a inteligência que no abstracto busca
ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;
se tudo se organiza como a variada imagem
de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos
que os grupos, e os grandes números, e as proporções
conhecem necessários; se tudo repercute como
em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem
um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras
esculpidas em volutas brancas e douradas cujos
recantos de sombra são um trompe l’oeil
para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de
bater nas teclas em cascatas de ordem;
e se tudo existiu na música para tal triunfo
e dele descende tudo o que de arquitectura
possa existir em notas sem sentido — COMO
não proclamar que essa grandeza imensa
não se comove com íntimos segredos (mesmo implica
que não haja segredo em nada que se faça
a não ser o espanto de fazer-se aquilo),
é como que uma cúpula de som dentro da qual
possamos ter consciência de que o homem é, por vezes,
maior do que si mesmo. E que nada no mundo,
ainda que volte ao tema inicial, repete
o que foi proposto como tema para
se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,
aquele tema retorna não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos ante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.
Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,
para sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque
o virtual de um pensamento se tornou ali
uma evidência: se tornou concreto.
Um concreto de coisas exteriores — e o espanto é esse —
igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.
Será que alguma vez, senão aqui,
aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto
de real e virtual serem idênticos, e de nós
não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de
nós termos sido música somente?
..

Jorge de Sena.
Poema Bach: Variações Goldberg, do livro Arte de Música.
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Ouça as Variações para cravo compostas por Johann Sebastian Bach, em 1741, interpretadas por Glenn Gould.
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sábado, 23 de maio de 2015

Correspondências: Mécia e Jorge de Sena.

The Cathedral, Auguste Rodin, 1908
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Lx., 10/03/1949
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Minha muito querida Mécia,
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Escrever-me-ás, como eu agora te escrevo; mas o que dizemos já não tem nem precisa de resposta. Sem ti, sabes como fico, como não sei viver, mesmo para as mínimas coisas, que todas vêm de ti, são por ti ou para ti. Saudades, sinto-as outra vez, e não são já iguais às que sentia dantes: tu me faltas, és parte de mim, que sempre o foi mas não como agora. Muitos beijos, muitos, demorados e longos do teu,
................................................................................................................ Jorge.
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Mécia de Sena/Jorge de Sena, in: Isto Tudo que Nos Rodeia (Cartas de Amor).
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Jorge e Mécia, conheceram-se em 1940 e tiveram nove filhos. Desde o falecimento do escritor, em 04 de junho de 1978, passou a cuidar incansavelmente de seu legado literário e intelectual, tendo publicado, até então, cerca de 40 volumes, entre inéditos e reedições. D. Mécia, está com 95 anos, reside em Santa Bárbara, Califórnia, na mesma casa onde viveu com Jorge de Sena, a partir de 1970, após o período de exílio no Brasil.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O significante e o significado...


Yael Naim, Yashanti
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A letra em hebraico altera a 'compreensão'?
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"A música é, diz-se, o indizível
por ser de inexprimível sentimento
da consciência, ou um estado de alma,
ou uma amargura tão extrema e lúcida
que passa das palavras para ser
apenas o ritmo e os sons e os timbres
só pelos músicos cientes de harmonia
e de composição imaginados. Mas,
se assim fosse, eles só dos homens
saberiam mover-se nos espaços
que a humanidade abandonada encontra
nos desertos de si. Começariam
onde a expressão verbal não se articula
por impossível. Viveriam sempre
na fímbria estreita à beira da maldade
e do absurdo, como que suspensos
na solidão da morte sem palavras.
Não é, portando, a música o limite
ilimitado dos limites da linguagem,
para dizer-se o que não é dizível.
Mas, se não é, que dizem lancinantes,
neste discreto passeio pelo tempo,
os quatro instrumentos semelhantes
no seu modo de criarem som?
Tão terrível. Sufocante. Doce
ou agridoce desconcerto harmônico.
(...) Não há tristeza alguma nesta
vida transformada em puro som,
em homogênea outra realidade?
Não é de angústia este rasgar melódico
da consciência antes de criar-se humana?
(...) Se há mistério na grandeza ignota,
e se há grandeza em se criar mistério,
esta música existe para perguntá-lo.
E porque se interroga e não a nós,
ela se justifica e justifica
o próprio interrogar com que se afirma
não quintessência ela, mas raiz profunda
daquilo que será provável ou possível
como consciência, quando houver palavras
ou quando puramente inúteis forem."
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Jorge de Sena, in: A Arte da Música.
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