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sábado, 17 de agosto de 2019

"Só a febre e a poesia provocam visões. Só o amor e a memória..."

On the Horizon the Angel of Certainty, and in the Dark Sky, an Interrogating Look, Odilon Redon, 1882.
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No caminho dos cães minha alma encontrou
meu coração. Destroçado, mas vivo,
sujo, malvestido e cheio de amor.
No caminho dos cães, lá onde ninguém quer ir.
Um caminho que só percorrem os poetas
quando não lhes resta nada a fazer.
Mas eu ainda tinha tantas coisas por fazer!
e no entanto ali estava: me fazendo matar
pelas formigas vermelhas e também
pelas formigas negras, percorrendo as aldeias
vazias: o espanto que se elevava
até tocar as estrelas.
Um chileno educado no México pode suportar tudo,
pensava, mas não era verdade.
Às noites meu coração chorava. O rio do ser, diziam
uns lábios febris que logo descobri eram os meus,
o rio do ser, o rio do ser, o êxtase
que se curva na ribeira dessas aldeias abandonadas.
Sumulistas e teólogos, adivinhos
e assaltantes de estrada emergiram
como realidade aquáticas no meio de uma realidade
metálica.
Só a febre e a poesia provocam visões.
Só o amor e a memória. 
Não estes caminhos nem estas planuras.
Não estes labirintos.
Até que por fim minha alma encontrou meu coração.
Estava doente, sim, mas estava vivo.
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Roberto Bolaño.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ser uma Flor...

Portrait of Violette Heymann, Odilon Redon, 1910
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Florir — é um Fim — casualmente
Vendo uma Flor no campo
Talvez sequer alguém perceba
A sutil Circunstância
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Que há na Lúcida Tarefa
A tal custo cumprida
Para se abrir qual Borboleta
Ao Sol do meio-dia —
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Encher Botão — evitar Bicho — 
O Orvalho obter bem cedo — 
Expor-se à Luz — fugir ao Vento — 
Precaver-se da Abelha
 . 
E não frustrar a Natureza
Que nesse Dia a aguarda — 
Ser uma Flor é uma profunda
Responsabilidade —

Emily Dickinson.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Palabras degolladas, caídas de mis labios sin nacer..."

 Silence, Odilon Redon, 1900
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Palabras degolladas,
caídas de mis labios
sin nacer;
estranguladas vírgenes
sin sol posible;
pesadas de deseos,
henchidas...

Deformadoras de mi boca
en el impulso de asomar
y el pozo del vacío
al caer...
Desnatadoras de mi miel celeste,
apretadas en vosotras
en coronas floridas.

Desangrada en vosotras
—no nacidas—
redes del más aquí y el más allá,
medialunas,
peces descarnados,
pájaros sin alas,
serpientes desvertebradas...
No perdones,
corazón.


Alfonsina Storni.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

"Piés para qué los quiero..."

Butterflies, Odilon Redon, 1910
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A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva, etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
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Manoel de Barros, in: Compêndio para Uso dos Pássaros.
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