sábado, 20 de junho de 2009

O que está por trás daquilo que você não vê?!

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Ganhei dois presentes esses dias: um "sorriso pleno" e um livro lindo.


O sorriso, por resposta à delicadeza do presente e a felicidade em recebê-lo. Mas se este não fosse um livro de arte, ainda sim, teria sorrido, pela circunstância, pelo significado do momento. É bom saber-se limitado aos olhos alheios e mesmo assim ser chamado de amigo. Há tempos não sorria plenamente. Explico. Sorrisos que você dá e só percebe quando o coração reverbera, irradiando para o corpo todo, como algo que desmancha na boca e deixa um gosto bom.

Não sei ao certo sobre a viabilidade de um post tão grande, e na verdade, não dá para começar qualquer coisa limitando-se. Arte é o conceito mais abrangente e eterno de beleza, foge a entendimentos vários, é pra ser sentida, assim como a amizade. Segue, resenhas breves e difícil escolha do que considero mais perfeito, nesta que é dita a quarta arte.


O Rapto de Proserpina (Bernini)

A definição das quatros estações deriva da lenda de Proserpina (Perséfone). Diz-se que Demeter (Ceres), mãe de Proserpina, desesperada com o rapto da filha por Plutão (Hades, Deus da morte) caiu em desespero tornando o solo infertil. Atendendo a um pedido de Zeus (Júpiter), seu marido, concordou devolver a fertilidade à Terra, exigindo no entando, que Plutão lhe devolvesse a filha. Como Proserpina havia comido seis grãos de romã, não poderia abandonar definitivamente o Tártaro, submundo de Plutão. Passaria então, metade do ano nas profundezas da terra, representação do outono e do inverno, quando sua mãe, triste, descuida da natureza e, a outra metade na superfície, na companhia dos seus, o que corresponde a primavera e o verão; a terra viva e produtiva, fruto da felicidade de sua mãe Demeter, deusa das plantas.

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Isso é mármore, dá para acreditar? Detalhe para a sutileza das mãos fincadas na pele.

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Perseu com a cabeça da Medusa (Antonio Canova)

Em um banquete, o Rei Prolidectes perguntou a seus convidados, que presente cada um estava disposto a oferecer-lhe. Todos prometeram cavalos, mas Perseu, o herói grego, ofereceu-lhe a cabeça da Medusa (monstro que transformava em pedra quem a olhasse). Quando Prolidectes o fez cumprir sua palavra, ele foi forçado a honrar sua oferta. Perseu obteve sucesso graças a ajuda dos Deuses Athena, Hades e Hermes. Athena deu a ele, um escudo tão bem polido, que podia se ver o reflexo ao olhar para ele. Hades, um capacete que tornava invisível quem o usasse, e Hermes lhe deu suas sandálias aladas. Guiado pelo reflexo do escudo, mas sem olhar diretamente para a Medusa, derrotou-a cortando-lhe à cabeça.



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Apolo e Dafne (Bernini)

Apolo era o mais belo dos deuses do Olimpo, senhor da Arte, da Música e da Medicina. Sua arrogância irrita Cupido, que o atinge com duas flechas de amor e outra de chumbo, em Dafne. Cupido passa a assediá-la inutilmente. Desesperado, começa a perseguí-la pela floresta. Dafne sentindo-o cada vez mais próximo, suplica ao pai, o Deus Peneu, que lhe mude as formas. O pai atende o desejo da filha e, no momento em que Apolo começava a tocar seus cabelos, Dafne revesti-se de cascas, os cabelos transformam-se em folhas, os braços ramos e galhos, os pés cravam-se no solo, como raízes. Transtornado com a metamorfose da amada em arbusto – o Loureiro, Apolo chora dizendo que aqueles ramos serão sua coroa verde e vistosa, participando de seus triunfos eternamente. Quem acompanha os Jogos Olímpicos, deve se lembrar que a coroa de Louros de Apolo simboliza a vitória.






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Moisés (Michelangelo)

Segundo a bíblia, Moisés subiu o Monte Sinai e recebeu de Deus os 10 mandamentos. Michelangelo parece entender a divindade do profeta, e esculpe um Moisés imponente.



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David (Michelangelo)

Esculpida em mármore, a estátua de 5,17m retrata-o antes da batalha com Golias. Realismo absurdo na concepção anatômica dessa, que é considerada por muitos, a obra mais importante da humanidade.





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O Êxtase de Santa Teresa (Bernini)

Simboliza as visões que Santa Teresa de Ávila teria tido, com um anjo que lhe cravava uma flecha de ouro no peito. Bernini dá à obra um sentido transcendental ao evocar tamanha mansidão e júbilo em meio aos espasmos de seu drama corporal. O resultado é só contemplação.




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A Vênus de Milo (atribuida à Alexandre Antióquia)

Uma estória curiosa explica a “falta” de braços da Vênus (Afrodite). Quando foi encontrada na Ilha de Milo no Mar Egeu, já estava danificada, quebrada ao meio, mas possuía os braços. O camponês que a achou quis vendê-la à oficiais franceses, mas como tardaram na aquisição da Vênus, o homem aceitou a oferta de outro comprador. Quando a escultura estava sendo embarcada para a Turquia, os franceses chegaram, e convenceram o camponês a manter o acordo de compra. Durante sua transferência para o barco, a escultura foi arrastada através de pedras e danificou-se, perdendo o que restava dos braços. Os marinheiros se recusaram a voltar para recuperá-los.


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La Pietá (Michelangelo)

Escultura cheia de significado litúrgico e apesar de dramática, incrivelmente doce. A representação de Maria segurando o filho morto, resignada e forte como só as mães conseguem ser.



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O Beijo (August Rodin)

Suavidade em meio ao caos, fruto da relação romântica com Camille Claudel.


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Cupido e Psique (Antonio Canova)

Psique em grego significa tanto borboleta, como alma. Ela representa a alma humana purificada pela dor, preparada, assim, para desfrutar a felicidade verdadeira. A união de Cupido e Psique simboliza o encontro do amor e da alma.



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"Com arte, forma, cor, tudo isso em jogo, engrinaldado e rútilo de crenças, o sonho cresce - o pássaro de fogo, que habita as altas regiões imensas."

Cruz e Souza.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O pote de ouro no fim do arco íris.

The Rainbow: Study for 'Bathers at Asnières, Georges Seurat, 1883



"... Toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a adultera,
a menor hesitação a modifica,
a menor deselegância a desfigura,
a menor tolice a embrutece..."


Marguerite Yourcenar
, in: Memórias de Adriano.
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sábado, 13 de junho de 2009

"Voltar é uma ilusão. Estamos sempre indo..."

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Tudo o que existe e

faz sentido agora,
pode não fazer
no minuto seguinte.
Não significa, porém,
que nesse tempo futuro,
o "tudo" não esteja.
Algumas coisas se perdem
momentaneamente, como
palavras que param
na ponta da língua,
perguntas sem respostas,
pessoas ou
dias que começam e
terminam sem deixar vestígio.
Mudam de forma, de sabor
de cheiro, de nome, naquela
pequena fração de segundo
que levamos para achá-los.
É nesse momento,
que ganham destino...
perdem o sentido mesmo existindo ou
alcançam a redenção
daquilo sem o qual é impossível viver.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Agenda: fome, fotografia, shakespeare e afins

Garapa, José Padilha, 2009
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Há quem não goste de ir ao cinema para assistir mazelas, aliás, essa é uma prerrogativa muito usada por pessoas de estômago fraco ou cérebro oco, como queiram. “Não leio o jornal, não vejo o noticiário, não dirijo para o outro lado do Rebouças, não abro o vidro do carro...”

Garapa, é uma mistura de água e açúcar. E o único alimento das três famílias (e tantas outras), mostradas no filme homônimo de José Padilha, quando não tem o que comer.

Se a legitimação de políticas corruptas condenam gerações de pessoas a viver à margem, só a personificação dessas realidades pode proporcionar alguma mudança. Enquanto o drama do outro for impessoal, não for mostrado, compartilhado, vivenciado, não vai passar de uma estatística e números ainda não morrem de fome.




Agora, as opções "bonitas de se ver"... um bom feriado.

Rebobine, por favor
Exposição baseada nas obras do cineasta Michel Gondry

Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Primeiro de Março, 66, Centro
De 09 de junho à 09 de agosto
Ter à sab das 12 às 21h. Dom e feriados das 11 às 20h.
Entrada Franca.



Imagens Humanas
Exposição de fotografias de João Roberto Ripper
Caixa Cultural – Av. República do Chile, 230, Centro
Ter à sex das 10 às 18h. Sáb, dom e feriados das 14 às 18h.
Entrada Franca.



Regurgitofagia
Primeira peça da Trilogia de Michel Melamed

Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro
De 11 à 14 de junho às 19h.
Entrada: R$ 20,00.


A sequência da trilogia prossegue com Antidinheiro: de 18 à 21 e Homemúsica: de 25 à 28 de junho.


Hamlet

Clássico Shakespeariano com Wagner MouraTeatro Odylo Costa Filho (UERJ) – Rua São Francisco Xavier, 524, Maracanã
Dias 18, 19 e 20.
Qui e sex às 19h e sáb às 20h.
Entrada: R$ 30,00 (Ingressos já à venda na bilheteria do teatro, corre lá)


 

domingo, 7 de junho de 2009

A conta-gotas...

Missy Lanesville, Saul Leiter, 1958
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"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca".

Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar".

Esse nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência".

E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.

Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.

Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.

Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim: ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga, mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ..."

Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Agenda: Carioquinha e Rio Folle Journée




Começou ontem mais um Projeto Carioquinha, com a participação de 123 atrações que vão desde passeios de asa delta e barco pela Baia de Guanabara a descontos em restaurantes, museus, trem do corcovado e pão de açúcar. Para participar, basta apresentar comprovante de residência e carteira de identidade. O projeto se estende até o dia 05 de julho.
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Mais informações: Projeto Carioquinha
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Outra boa opção é a terceira edição do Festival Rio Folle Journée. Serão 38 concertos de curta duração (45min à 1h) com preços que variam entre um e dez reais. O tema deste ano é "Mozart à Francesa" e faz parte das comemorações do ano da França no Brasil. As apresentações acontecem de 03 à 07 de junho, em seis espaços: Sala Cecília Meireles, Auditório Guiomar Novaes, Teatro João Caetano, Igreja Nª Sra. do Carmo da Lapa, Escola de Música da UFRJ (Salão Leopoldo Miguez) e Auditório do BNDES.
Mais informações: Festival Rio Folle Journée

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

F.r.a.g.m.e.n.t.o.s.

Galatea of the Spheres, Salvador Dalí, 1952


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"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia."
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João Guimarães Rosa,
in: Grande Sertão, Veredas.

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sábado, 30 de maio de 2009

Sonhos possíveis são melhores que realidades inventadas.


Oren Lavie,
Her Morning Elegance
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"Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando."

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.Emílio Moura, in: Itinerário poético.
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domingo, 24 de maio de 2009

"a cabeça em maresia..."

Awaiting The Fishermen's Return, Josef Israëls, d.i
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"Em praias de indiferença
navega meu coração.
Venho desde a adolescência
na mesma navegação.
Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
despovoada inconsistência,
de penúria e de aflição?
(Triste saudade que pensa
entre resposta e a intenção!)
Números de grande urgência
gritam pela exatidão:
mas a areia branca e imensa
toda é desagregação!
Em praias de indiferença
navega meu coração.
Impossível, permanência.
Impossível, direção.
E assim por toda a existência
navegar, navegarão
os que têm por toda ciência
desencanto e devoção."


Cecília Meireles,
in: Mar Absoluto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Re[compassos]

Sueño No. 46 Extraniamiento, Grete Stern, 1948
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"Tem horas em que penso que a gente carece, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto."
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João Guimarães Rosa, in: Grande Sertão: Veredas.

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terça-feira, 19 de maio de 2009

Com[passos]

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"Não estou falando de um mundo cor-de-rosa ou de pessoas perfeitas, sempre prontas para nos acolher, amar, caminhar ao nosso lado. Não falo disso, mas da tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não vê. A beleza por dentro de um peito encouraçado que a gente não sente. A solidão de quem afasta um amor e se deita em camas tão frias. É do instante quando os olhos se perdem no nada e nenhuma mentira é capaz de enganar a si mesmo. É desse instante solitário, desse instante sem abraço, que eu digo. Todo mundo vai virar as costas ou dizer que merece coisa melhor ou debochar das mentiras que eles contaram... mas a gente pode sempre voltar e acolher com amor, ser os primeiros a começar. Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?"


Rita Apoena
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

"Um saber que não se sabe..."

Haven, Vladimir Kush, 2001
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Alguns leitores do blog indagaram-me sobre, digamos, um tom excessivamente melancólico nos textos.

Não teci grandes considerações, mas fui registrando os comentários e percebi que originam-se de um mesmo processo.

Simplificamos a observação do outro e seus aspectos multiplurais, pela correria diária e fundamentalmente, porque a abordagem do íntimo alheio esbarra na nossa.

Por um motivo ou por outro, nos acostumamos a olhares óbvios. Categorizações extremas.

Se é... bom ou mal / sincero ou mentiroso / responsável ou inconseqüente / bonito ou simplório / com ou sem silicone / feliz ou melancólico / polido ou extravagante / transparente ou dissimulado...

Antagonismos que subestimam a complexidade do que forma seres humanos cheios de dilemas e aspirações.

Esqueça os fusos, comprometa-se em enxergar através do outro aquilo que não compreende, o que te aflige, assombra, humaniza, encanta.

Saiba que eu, você, qualquer um, pode ser qualquer coisa, SOBRETUDO LIMITADOS. Com essa idéia em mente, praticamos o autoconhecimento, julgamos menos e "entendemos", m
esmo quando tudo que se tem, é um enorme silêncio.
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"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo que o tempo cura, que a mágoa passa, que decepção não mata, e que a vida sempre, sempre continua."

Simone de Beauvoir.



quinta-feira, 30 de abril de 2009

"I was on the wrong page, of the wrong book..."

Wrong, faixa do álbum Sounds of the Universe, Depeche Mode, 2009
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O que é relevante quando percebemos que cometemos um erro?
Culpa? Arrependimento? Autocrítica? Aprendizado? Reparação?
Equívocos serão cometidos por quase todo mundo um dia. E pelos motivos certos ou errados, você será julgado por isso... pelo que fez, pelo que não fez, pelo que pensou em fazer. É um processo de crescimento meio amargo, algo como um mal necessário. 


segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Continue a nadar... continue a nadar, nadar..."




Passara parte da vida, achando que havia algo de errado.

E mergulhava em si, cada segundo que dispunha, desejoso por entender.
Afinal, por que meus movimentos são limitados?
Ao invês de continuar buscando o sentido das coisas,
Resolveu amoar-se menos.
Nem sempre precisa haver sentido.
As coisas são como são, mesmo quando não entendemos seu propósito.
Se os movimentos são limitados, tentarei fazer o melhor do meu pouco espaço.



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"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
(...) Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
(...) Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
(...) Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei..."

Oswaldo Montenegro.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Memories, dreams, reflections... and thirst.

Frédéric Chopin, Noturno Op.9 No.2, por Yundi Li
"Onde seu tesouro está, estará também seu coração."


Com a justificativa de promover algumas mudanças nesse espaço (o blog dispõe agora de links selecionados, encurtando a distância entre o que fala por mim e vocês, espero que apreciem). Esmiucei minhas “coisinhas”, não me refiro as palpáveis, mas as que não levantam pó. Aquelas cujas caixas não são necessárias – as lembranças.

Buscando os vestígios dos discos que ouvi, filmes que assisti, imagens gravadas na retina, ocasiões em que o coração disse além do pulsar, vislumbrei um conteúdo cheio de variáveis. Bagagens que você acumula durante uma vida e que te dão certa noção do quanto aproveitou cada espaço ocioso com o que realmente faz sentido.

Mas quando ainda existe muito por vir, é de crucial importância deixar lugar para o inconformismo, há de haver um canto para ele, mesmo que no saco de meias. Ele responde pelas inquietudes. O meu sinaliza que há em mim uma necessidade urgente de promover mudanças, uma ânsia por um gole entusiasmado de vida. Desejo-o tanto e percebo que ainda tenho sede.

Que tipo de pessoa você é? A que ao matar a sede, segura o copo com as duas mãos e goteja líquido pelos cantos da boca, respingos na camisa... ou aquela que com uma mão, beberica goles curtos e deixa dois dedos no final, mesmo ainda insatisfeita?

domingo, 12 de abril de 2009

Das tintas dos meus dias.

  O Abraço, Gustav Klimt, 1909
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"À medida que o tempo passa, a tinta velha em uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cachorro e um grande barco não está mais em mar aberto. Isso se chama Pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de idéia. Talvez se pudesse dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem anterior, é a forma de ver, e ver de novo, mais tarde."

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Liliam Hellman.
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Seria bom começar racionalizando, sem a preocupação de que um roupante de sensibilidade comprometa irremediavelmente o que fora traçado. Erros talvez não pesassem tanto. Equívocos seriam seguidos por sorrisos. Enigmas ganhariam cifras e as caixas de pandora seriam apenas souvenirs. Corria-se até o risco de finalmente concluir a pintura inacabada que se é.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?

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Nenhuma época, nem a Natalina, lembra-me tanto a infância quanto a Páscoa.

Rememoro o quanto eu e meu irmão ficávamos ouriçados nesse período... os ovos eram pequenos, mas aos nossos olhos, o suficiente!

A vida, o seu andamento sem presa era suficiente.

Tenho saudades de tudo.
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Choro Copioso...

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Chorar me dói a cabeça
Incha-me os olhos
Relativiza a minha emoção e o meu pesar
 

Exorciza aquilo que não cabe em mim
Desopila o coração cansado
Molha minhas páginas em branco.
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Conforta-me, sobretudo
a salinidade, a transparência
e a produção sempre obsequiosa.
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Uma lágrima não pede nada em troca
Como não há escambo,
nada implica uma troca de gentilezas
Firma-se assim um trato,
Tomo-a para dançar com a mais resoluta verdade
e ela segue agradecida o seu caminho em vértice.




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"Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. TODA A MINHA ÂNSIA TEM SIDO ESTA PROXIMIDADE INULTRAPASSÁVEL E EXCESSIVAMENTE PRÓXIMA. Sou mais aquilo que em mim não é.

EU SÓ USO O RACIOCÍNIO COMO ANESTÉSICO. MAS PARA A VIDA SOU DIRETAMENTE UMA PERENE PROMESSA DE ENTENDIMENTO DO MEU MUNDO SUBMERSO. Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais — volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. MAIS QUE TUDO, ME BUSCO NO MEU GRANDE VAZIO. Procuro me manter isolada contra a agonia de vi­ver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão ex­traordinária essa verdade que os outros cairiam de es­panto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem.

A vida com letra maiúscula nada pode me dar, porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. PORQUE NOTO EM MIM, NÃO UM BOCADO DE FATOS, E SIM PROCURO QUASE TRAGICAMENTE SER. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos, mas LUTO COM EXTREMA ANSIEDADE POR UMA NOVIDADE DE ESPÍRITO. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito.

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. NÃO TEMOS ACEITO O QUE NÃO SE ENTENDE PORQUE NÃO QUEREMOS PASSAR POR TOLOS. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. NÃO TEMOS NENHUMA ALEGRIA QUE NÃO TENHA SIDO CATALOGADA. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. NÃO NOS TEMOS ENTREGUE A NÓS MESMOS, POIS ISSO SERIA O COMEÇO DE UMA VIDA LONGA E NÓS A TEMEMOS. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.

Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. TEMOS MANTIDO EM SEGREDO A NOSSA MORTE PARA TORNAR A VIDA POSSÍVEL. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. TEMOS DISFARÇADO COM O PEQUENO MEDO, O GRANDE MEDO MAIOR E POR ISSO NUNCA FALAMOS NO QUE REALMENTE IMPORTA. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.

Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. TEMOS CHAMADO DE FRAQUEZA A NOSSA CANDURA. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."



Clarice Lispector,
in: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.

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domingo, 29 de março de 2009

Hoje tem Tom, Chico e Neruda...

Sem Você, composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
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Para dias que parecem ter 30 horas, música e poesia sempre foram-me excelentes companhias. Figuração perfeita para ruminações com sentido prático... de bônus, uma certa similitude de paz e uma certeza: Tenemos que cambiar!!
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"Muere lentamente... quien se transforma en esclavo del hábito, repitiendo todos los días los mismos trayectos, quien no cambia de marca, no arriesga vestir un color nuevo y no le habla a quien no conoce. Muere lentamente... quien hace de la televisión su gurú. Muere lentamente... quien evita una pasión, quien prefiere el negro sobre blanco y los puntos sobre las íes a un remolino de emociones, justamente las que rescatan el brillo de los ojos, sonrisas de los bostezos, corazones a los tropiezos y sentimientos. Muere lentamente... quien no voltea la mesa cuando está infeliz en el trabajo, quien no arriesga lo cierto por lo incierto para ir detrás de un sueño, quien no se permite por lo menos una vez en la vida, huir de los consejos sensatos. Muere lentamente... quien no viaja, quien no lee, quien no oye música, quien no encuentra gracia en sí mismo. Muere lentamente... quien destruye su amor propio, quien no se deja ayudar. Muere lentamente... quien pasa los días quejándose de su mala suerteo de la lluvia incesante. Muere lentamente... quien abandona un proyecto antes de iniciarlo, no pregunta de un asunto que desconoceo no responde cuando le indagan sobre algo que sabe. Evitemos la muerte en suaves cuotas, recordando siempre que estar vivo exige un esfuerzo mucho mayor que el simple hecho de respirar. Solamente la ardiente paciencia hará que conquistemos una espléndida felicidad."

Pablo Neruda 
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui..."

 Room in Brooklyn, Edward Hopper, 1932
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"Estarei só. Não por separada, não por evadida. Pela natureza de ser só. No entanto a multidão tem sua música, seu ritmo, seu calor, e deve ser uma felicidade, às vezes, ser na multidão o que o peixe é no oceano. Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes! .
..Se me chamares, responderei, mas serei solidão. Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares. Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei: como o eco. Mas é tu que vens e voltas: a tua solidão e a minha solidão."

Cecília Meireles.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Invisibilidades...

 Las Duas Fridas, Frida Kahlo, 1939


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"No vácuo de mim eu me despenco. Porque seria preciso também abdicar de mim mesmo para novamente reconstruir-me. Tornar a escolher os gestos, as palavras, em cada momento decidir qual dos meus eus assumir. Já esfacelei meu ser, já escolhi as porções que me são conveninentes esquecendo deliberado as outras. E são elas - serão elas? - que agora se movimentam revoltadas, pedindo passagem em gritos mudos, na ânsia de transcender limites, violentar fronteiras, arrebentando para a manhã de sol. O tremular da chama é um aceno convite para chegar à verdade última e íntima de cada coisa.

Não quero. Não posso restar nu, despojado de mim mesmo. Não posso recomeçar porque tudo soaria falso e inútil. As minhas verdades me bastam, mesmo sendo mentiras. Não é mais tempo de reconstruir. Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita...

Sôfrego, torno a anexar a mim esse monólogo rebelde, essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica em erros, e saber viver implica em não valorizar esses erros, ou suavizá-los, distorcê-los ou mesmo eliminá-los para que o restante da construção não seja abalado. Basta uma pausa, um pensamento mais prolongado para que tudo caia por terra. Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa única existência..."


Caio Fernando Abreu, in: O Inventário do Ir-remediável.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

"Ou toca, ou não toca..."

 Sea Viewed from the Heights of Dieppe, Eugene Delacroix, 1852
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"… não é enquanto está ‘no meio’ de meu mundo que o outro me olha, mas é enquanto ele vem em direção ao mundo e a mim com toda sua transcendência, é enquanto ele não está separado de mim por distância alguma, por objeto algum do mundo, nem real, nem ideal, por nenhum corpo do mundo, mas pela sua única natureza de outrem."
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Jean Paul Sartre, in: O Ser e o Nada.

sábado, 13 de setembro de 2008

Intrinsecamente.

Manuscrito de A Hora da Estrela, 1977, acervo IMS
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"E uma desilusão. Mas desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."
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A Paixão Segundo G.H.




A Hora da Estrela, exposição Clarice Lispector
Centro Cultural Banco do Brasil
19 de agosto à 28 de Setembro de 2008
Terça à Domingo das 10 às 21hs.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

I Am Because We Are.

Documentário "I Am Because We Are", direção de Madonna, 2008
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Algumas realidades por, mais brutas, coexistem pacificamente com o tempo independente do quanto possam mortificar o espírito.
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Não obstante o pesar e indignação que causam, ainda falta o sentido maior e viável de que mudar o estado das coisas consiste basicamente em deixar de olhar para o próprio umbigo...
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Assistam o documentário.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Idas e vindas.

Spring at Barbizon, Jean-François Millet, 1868-1873
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"Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade, mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza..."
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Clarice Lispector, in: Água Viva.

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

"Esquisse d'une théorie des émotions..."

The Martyrdom of St Matthew, Caravaggio, 1599-1600
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Em suas missivas, Dostoiévski divide o homem em ordinário e extraordinário. Alguns de meus pensamentos a respeito estão sendo fomentados pelo noticiário atual.

Ok, por formação minhas conceitualizações vão além... entretanto, me incomoda a linha tênue entre o racional e a bestialidade.

O pensamento racionalista nos impele a pôr em prática o que nos foi ensinado, subvencionado ou mesmo categorizado. Disso advêm nosso senso crítico e moral. Quando ocorre um desvio dessas didáticas ou mesmo a inadequação dessas leituras (questão de ordem patológica), resvalamos no ordinário, nas atitudes que geram ojeriza e incredulidade.

Não é simplista portanto, pensar que é ela – a moralidade (embasada sob os auspícios da religião, quer seja pela educação a que nos dispensaram) – o frágil limite a qual estamos expostos.

"Se Deus não existisse, tudo seria permitido"... sem limites de valores ou ordem que legitimem a nossa conduta sobre o que é certo e errado, ética, respeito ao direito alheio mesmo sendo ele o de coexistir; o homem estaria à deriva porque não encontraria em si, nem fora dele, a que agarrar-se. 
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sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!"

Sleeping Head, Lucian Freud, 1980
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"Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir
Sem a parte que acordará em mim."
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Carlos Gildemar Pontes.
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quinta-feira, 27 de março de 2008

Abstraction...

 Pie Fight Study 2, Adrian Ghenie, 2008
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Vagamente observou que isso contrariava sua tese individualista:

Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o "mau de muitos" é consolo, mas não é solução.
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Clarice Lispector, in: A Bela e a Fera.
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quarta-feira, 12 de março de 2008

Ser ou não ser...

 Golconda, René Magritte, 1953
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"Isso é dificilmente possível. Penso que haverá uma reação contra esse acordo de dissociação. O homem não dura para sempre. Sua anulação. Haverá uma reação e eu a vejo se instalando. Sabe, quando penso em meus pacientes, eles todos procuram sua existência, e afirmar sua existência contra a completa atomização para o nada ou para a falta de significado."


Palavras de Carl Jung em entrevista remota, quando indagado sobre a necessidade das pessoas se comportarem de forma comum, impulsionadas pelo mundo que se torna mais eficiente tecnicamente.

Esperava-se que fosse possível, o mais alto desenvolvimento humano submergir na sua própria individualidade em um tipo de consciência coletiva.


Décadas passaram e o processo preconizado por ele não poderia ser mais contraditório. Experimentamos um estado de pseudo verdades universais, mas a que passo de coerência?

Existe um quê de automatização dessa consciência dissolvida em conceitos difusos, intolerâncias, mornidão, em um quase processo de involução.

Ao ponto que encontrar o significado da sua existência continua sendo a maior indagação e necessidade, o ser humano caminha abstraído pela facilidade do hermetismo.

Afinal, pensar pode te deixar à beira de um abismo. Arriscar consiste em dores ocasionais. Mudar tem a ver com altruísmo e desapego. Humanização requer desmistificação.
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