sexta-feira, 21 de março de 2014

"O ingrediente secreto para o sexo é o amor."

The Ash Yggdrasil, Friedrich Wilhelm Heine, 1886
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Ninfomaníaca é, entre outras coisas, uma grande tiração de sarro (mais uma) do diretor Lars von Trier, com aqueles que previsivelmente classificariam o filme como "o primeiro pornô soft exibido em cinemas multiplex". 

Assim como a polifonia de Bach em justaposição com os amantes diletos de Joe, o filme louva a tríade que marca o "estilo" do cineasta: o pensamento estético e filosófico + o tragicômico + o lúdico. 

Ponto para quem mortificou-se mais com a cena da montanha e menos com a chuva de falos. 

domingo, 9 de março de 2014

"O desfolhar habitual das memórias é agora mais geral e também mais súbito..."

Noon on the Beach of Valencia, Joaquín Sorolla y Bastida, 1904
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"Há manchas de mar por vezes sobrepostas
à rusticidade doce da casa.
Mas um sentido rural que se demora
traz imagens tangíveis tão próximas
daquilo que para mim as coisas eram."
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Fiama Hasse Pais Brandão.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

A arte de esculpir o tempo...

Alain Renais, 03/06/1922 - 01/03/2014
© foto de Georges Pierre, 1961
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"O tempo é o pleno, quer dizer, a forma inalterável preenchida pela mudança. O tempo é a reserva visual dos acontecimentos em sua justeza."
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Gilles Deleuze, in: A Imagem-Tempo.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"É inútil sonhar que desfazendo o fio da tua teia, há de ser livre o andar."

Contrejour, Paris, Sabine Weiss, 1953
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jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de 
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que 
recuam
ausência frequentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta.
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Ana Cristina Cesar.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

Portrait of Charles Baudelaire, Gustave Courbet, 1848
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A realidade bifurcou-se, na coisa real e em sua versão alternativa, duas vezes. Temos o evento e sua imagem. E temos o evento e sua projeção. Mas como para as pessoas os eventos reais muitas vezes não parecem ter mais realidade do que as imagens, nossas reações a eventos do presente recorrem, para confirmá-los, a esboços mentais, acompanhados de cálculos apropriados, do evento em sua forma projetada, final.
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A consciência do futuro é o hábito mental — bem como a corrupção intelectual  por excelência desse século, tal como a consciência histórica, conforme observou Nietzsche, transformou o pensamento do século XIX. A capacidade de avaliar o modo pela qual as coisas evoluirão no futuro é o subproduto inevitável de uma compreensão mais sofisticada (quantificável, testável) dos processos, tanto sociais quanto científicos. A capacidade de projetar eventos futuros com certo grau de precisão ampliou a própria definição de poder, por ser ampla fonte de instruções a respeito da maneira de se lidar com o presente. Mas, na verdade, a capacidade de antever o futuro, antes associada à noção de progresso linear, transformou-se  com a aquisição de um volume de conhecimentos maior do que se poderia imaginar  numa visão da catástrofe.
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Susan Sontag, in: Doença como Metáfora / Aids e suas Metáforas.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"A vida es acto que conoce y cada acto, introducción al otro no saber. La inteligencia y el instinto encienden fuegos en la noche. Pero es del infinito que estamos exiliados..."

Juan Gelman, 03/05/1930 - 14/01/2014
© foto de Daniel Mordzinski, s.d.
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hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher/nem na alma
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje/que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando/e como
mas o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado.
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Juan Gelman, do livro Isso, Ed. UNB, 2004.
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sábado, 11 de janeiro de 2014

[ Ser ] [ Parecer ]

Mime, Marcel Marceau, © foto de Jack Mitchell, 1973
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Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida
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Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.
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Mia Couto, in: Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Porquanto, como conhecer as coisas senão sendo-as?"

Bataille de Fleurs, Marc Chagall, 1967
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Ah, ouvir mazurcas de Chopin num velho bar, domingo de manhã!
Depois sair pelas ruas, entrar pelos jardins e falar com as crianças.
Olhar as flores, ver os bondes passarem cheios de gente,
E, encostado no rosto de casas, sorrir...

Saber que o céu está lá em cima.
Saber que os olhos estão perfeitos e que as mãos estão perfeitas.
Saber que os ouvidos estão perfeitos. Passar pela igreja.
Ver pessoas rindo. Ver os namorados cheios de ilusões.

Sair andando à toa entre plantas e os animais.
Ver as árvores verdes do jardim. Lembrar das horas mais apagadas.
Por toda parte sentir o segredo das coisas vivas.
Entrar por caminhos ignorados, sair por caminhos ignorados.

Ver gente diferente de nós nas janelas das casas, nas calçadas, nas quitandas.
Ver gente conversando na esquina, falando de coisas ruidosas.
Ver gente discutindo comércio, futebol e contando anedotas.
Ver homens esquecidos da vida, enchendo as praças, enchendo as travessas.

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que eles estão longe e ter saudades deles...

Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar das músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente viu.

Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto...

Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.
Pensar nos livros que a gente já leu, nas alegrias dos livros lidos.

Pensar nas horas vagas, nas horas passadas lendo as poesias de Anto.
Lembrar dos poetas e imaginar a vida deles muito triste.
Imaginar a cara deles como de anjos. Pensar em Rimbaud,
Na sua fuga, na sua adolescência, nos seus cabelos cor de ouro.

Não ter ideia de voltar para casa. Lembrar que a gente,
afinal de contas,
Está vivendo muito bem e é uma criatura até feliz. Ficar admirado.
Descobrir que não nos falta nada. Dar um suspiro bom de alívio,
Olhar com ternura a criação e ver-se pago de tudo.

Descobrir que, no final das contas, não se possui nenhuma queixa
E que se está sem nenhuma tristeza para dizer no momento.
Lembrar que não sente fome e que os olhos estão perfeitos.
Para falar a verdade, sentir-se quite com a vida.

(...) Como é bom a gente ter tido infância para poder lembrar-se dela
E trazer uma saudade muito esquisita escondida no coração.
Como é bom a gente ter deixado a pequena terra em que nasceu
E ter fugido para uma cidade maior, para conhecer outras vidas.
Como é bom chegar a este ponto e olhar em torno
E se sentir maior e mais orgulhoso porque já conhece outras vidas...

Como é bom lembrar-se da viagem, dos primeiros dias na cidade,
Da primeira vez que olhou o mar, da impressão de atordoamento.
Como é bom ter vindo de longe, estar agora caminhando
Pensando e respirando no meio de pessoas desconhecidas
Como é bom achar o mundo esquisito por isso, muito esquisito mesmo
E depois sorrir levemente pare ele com os seus mistérios...

Que coisa maravilhosa, exclamar. Que mundo maravilhoso, exclamar.
Como tudo é tão belo e tão cheio de encantos!
Olhar para todos os lados, olhar para as coisas mais pequenas,
E descobrir em todas uma razão de beleza.

Agradecer a Deus, que a gente ainda não sabe amar direito,
A harmonia que a gente sente, vê e ouve.
A beleza que a gente vê saindo das rosas, a dor saindo das feridas.
Agradecer tanta coisa que a gente não pode acreditar que esteja acontecendo.

Lembrar de certas passagens. Fechar os olhos para ver no tempo.
Sentir a claridade do sol, espalmar os dedos, cofiar os bigodes,
Lembrar que tinha saído de casa sem destino, que passara
num bar, que ouvira uma mazurca,
E agora estava ali, muito perdidamente lembrando coisas
bobas de sua pequena vida.
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Manoel de Barros.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Música para curar a alma: Carminho e Chico Buarque

Carolina, faixa do álbum "Chico Buarque de Hollanda Vol. 3", 1968
a regravação da cantora portuguesa é faixa do álbum "Alma", 2012
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Correspondências: Florbela e Apeles Espanca

Irmãos Espanca, 1904
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Mano Peles¹,
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Lá vai a última e irrevogável cravadela: envio-te a conta da toilette que me oferecestes. Fui a um alfaiate pelintra para conseguir um preço razoável, e foi o que felizmente aconteceu.
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Como eu não podia dispor deste dinheiro, pedi emprestado ao meu cunhado Manuel, que é bom rapaz e que imediatamente a isso se prontificou; peço-te pois para, por toda esta semana, fazeres o favor de lhe entregar essa importância que ele me emprestou para o pagamento do vestido. Vai, ou manda por um moço ou pelo correio à Rua da Betesga 7 e 9; se ele não estiver, podes deixar a qualquer dos sócios da loja, que depois lhe entregam tudo. Não te esqueças, não? E mais uma vez obrigada; desejo que não seja a última vez que navegues até o Brasil para não ser a última toilette oferecida à mana pelintra².
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Quando apareces? Olha que eu moro na Rua Josefa d’Óbidos, 24-4º (à Graça), Lisboa.
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O vestido está fixe³, digno da mana dum mano fixíssimo. 
Beijos ao Peles urso e os mercis todos da Bela.
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P.S. – Se o mano Peles estiver tão pelintra como a mana pelintra, não pague nada, que eu quando puder saldarei a minha dívida e, mesmo assim, tudo está fixe.
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Beijos e abraços da Bela.
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¹ Peles era o apelido de Apeles Demóstenes da Rocha Espanca. O irmão mais novo da poetisa faleceu em 1927, quando o hidroavião que pilotava caiu no Rio Tejo.
² Pelintra, o mesmo que sem fundos.
³ Fixe, espécie de gíria para algo muito bom.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Música para curar a alma: Richard Wagner

Tristão e Isolda, WWV 90: Prelúdio e Liebestod, Richard Wagner
Orquestra Sinfônica de Boston, com a condução do maestro Leonard Bernstein
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um bom lugar para ler um livro?

Young Girl Reading, Jean-Baptiste-Camille Corot,1868
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"Foi então que começou nossa grande viagem pelos Estados Unidos. Bem cedo, dentre diversos tipos de acomodações para turistas, passei a preferir o Motel Funcional — abrigos limpos, eficientes e seguros, realmente os lugares ideais para dormir, brigar, fazer as pazes e dedicar-se aos insaciáveis prazeres do amor ilícito."
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  Vladimir Nabokov, trecho do livro Lolita.
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domingo, 8 de dezembro de 2013

"...e minhas caminhadas nunca findarão..."

Study Head of a Woman Looking Up, Anthony van Dyck, 1618-20
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E o que é que vai ficar?
Suspiro, sofro, busco,
e minhas caminhadas
nunca findarão.
A sombra escura
que já persigo desde o começo
leva-me a profundas solidões invernais.
Lá eu fico quieta (…).
Fantasmas azuis saltam para o aposento.
Os que partiram, perdidos diante de mim,
Exigem como homens um antigo direito.
Agora são pagos com flores
que viram muitos verões
e que neste inverno caem irrompendo.
As árvores aninham frio diante de si
e lágrimas, que me atraiu o brilho da lua,
pendem no gelo como espigas secas.
Assim, como ali, sobre o iceberg,
os há muito falecidos escorreram seu sangue,
eu os sigo, para fazer o mesmo.
Ouço os séculos em minha direção
E não quero estar lá apagada inteira.
A sombra, que tão longe quer ir,
tento oprimir com meu rastro
apenas temendo desperdiçar-me
em vão.
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Ingeborg Bachmann.
Tradução: Cláudia Cavalcanti.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"Brada o anseio da liberdade e da estepe, dos corações entre cordões de isolamento..."

Nelson Rolihlahla Mandela (1918-2013)
 escultura de Marco Cianfanelli ¹ 
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Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
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Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
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Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
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Não importa o quão estreito seja o portão
e quão repleta de castigos seja a sentença,
eu sou o dono de meu destino,
e sou o capitão de minha alma.
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William Ernest Henley.
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¹ Escultura inaugurada em 2012, por ocasião do aniversário de 50 anos da prisão do líder africano pelo regime do Apartheid. O local é o mesmo onde Mandela foi capturado, em 05 de agosto de 1962, na província de Kwazulu Natal, Howick. Ele passaria 27 anos na prisão.
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sábado, 30 de novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

"... e sabe em simultâneo a condição para o não-ser..."

Orpheus and Eurydice (detail), Auguste Rodin, 1893
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Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já
para trás de ti, como o inverno que agora parte.
Pois que entre os invernos há um tão sem fim inverno
que só hibernando o teu coração resiste.

Sê sempre morto em Eurídice -, mas cantante, sobe,
mais laudante, sobe atrás, à pura relação.
Aqui, entre evanescentes, sê, no império das gotas que sobram,
sê um copo sonante, que já no som se quebrou.

Sê - e sabe em simultâneo a condição para o não-ser,
o fundamento infinito da tua vibração interior,
para que a leves a cabo por inteiro, desta única vez.

Ao desgastado aprovisionamento da repleta natureza, tanto
quanto ao entorpecido e mudo, aos indizíveis somatórios,
acrescenta-te rejubilando, e aniquila o número.

Rainer Maria Rilke, in: Sonetos a Orfeu.
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sábado, 12 de outubro de 2013

"... criaturas que nascem repositórios de chão e de estrelas..."

City Lights, Charles Chaplin, 1931
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"Acho que foi minha inaptidão para o diálogo que gerou o poeta. Sujeito complicado, se vou falar, uma coisa me bloqueia, me inibe, e eu corto a conversa no meio, como quem é pego defecando e o faz pela metade. Do que eu poderia dizer, resta sempre um déficit de oitenta por cento. E os vinte por cento que consigo falar não corresponde, senão ao que eu não gostaria de ter dito, – o que me deixa um saldo mortal de angústia. Mesmo desde guri, no colégio, descobri essa barreira em mim, que não posso vencer. Sou um bom escutador e um vedor melhor. Mas só trancado e sozinho é que consigo me expressar. Assim mesmo sem linearidade, por trancos, por sugestões, ambíguo – como requer a poesia."
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"A incapacidade de agir também me mutila. Sou pela metade sempre, ou menos da metade. A outra metade tenho que desforrar nas palavras. Ficar montando, em versos, pedacinhos de mim, ressentidos, caídos por aí, para que tudo afinal não se disperse. Um esforço para ficar inteiro é que é essa atividade poética. Minha poesia é hoje e foi sempre uma catação de eus perdidos e ofendidos."
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"Enquanto o mundo parir uns tipos hipobúlicos feito, por exemplo, Fernando Pessoa, resguardados pela timidez e incapazes de uma ação – as palavras não morrerão. Essas criaturas não têm outra forma de ação que em cima das palavras. Obsessiva e sadicamente as trabalha, dobrando-as até seus pés, arrastando-as no caco de vidro, até que elas sejam eles mesmos. Até que elas deem testemunho da presença deles no mundo. Quase sempre criaturas que nascem repositórios de chão e de estrelas, só sabem fabricar poesias com palavras. E ainda outras que moram ruínas viçosas por dentro, se agarram nas palavras para sobreviver."
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Manoel de Barros.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"... Acho que aprendi a dar vazão às coisas e apaziguar tempestades..."

Papa Chrysanthemum at the New Circus, Henri de Tolouse-Lautrec, 1894
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De tudo o que olho e vejo uma parte vira letra
Mesmo que eu não insista. O treino dos olhos e da pele 
Ou os poros que foram se abrindo
Pela ação das enchentes internas e alagamento das vias,
Ou ainda pelas mãos em palmas sinceras
As coisas se significam em letras novas quando
Pelo filtro do meu corpo incendeiam.
Mesmo que eu não.
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Não há nada mais possível, nada mais corado,
Nada tão mais evidente e espalmado
Do que os rios de vida quando tornados signos abertos.
Acho que aprendi a dar vazão às coisas
E apaziguar tempestades.
Aprendi a conter e a derramar. Acho que aprendi a amar.
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Viviane Mosé.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Estou escrevendo umas coisas loucas..."

A Obscena Senhora Silêncio, direção de Leandra Lambert, 2010
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Há tanto a te dizer agora! Meus olhos se gastaram
Procurando a palavra nas figuras, nos textos, nas estórias.
Era preciso viajar e levantada em renúncias redescobrir
.....................................................................................[ a morte
Além de seu sudário e suas tremuras. Quase nada 
...............................................[ aprendi. De nada me lembrei.
Há talvez a memória de tatos, um sentir rarefeito, um
........................................................................ [ ouvido inexato.
Deitado em solidão sobre o teu peito. E adeuses
..................................................[ ingênuos, calados de vitória
E aquele de fereza, de acerto, dissolvido em orgulho, 
............................................................................[ ressuscitado
Vagamente em canto. E na manhã, o meu sonho passara
..........................................................................[ e a minha voz 
Não se erguera em poesia.

Será preciso esquecer o contorno de umas formas que
.....................................................................[ vi: naves, portais
E o grande crisântemo sobre a faixa restrita do canteiro.

Através do gradil, no terraço do tempo te percebo.
E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que
...............................................................................[ amanhece.
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Hilda Hilst.

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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"Para que nada seja definitivo - nem esta ânsia de palavras nem o dito e o contradito..."

Study Sketch for Morning Sun, Edward Hopper, 1952
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Vós, palavras, de pé, sigam-me!
e se já fomos longe,
longe demais, ainda se vai
mais longe, vai-se para
nenhum fim.
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Não fica mais claro.
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A palavra
irá apenas
arrastar com ela outras palavras,
a frase frases.
Assim o mundo queria
definitivamente
impor-se,
estar já dito.
Não o digam.
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Palavras, sigam-me!
Para que nada seja definitivo
- nem esta ânsia de palavras
nem o dito e o contradito.
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Não deixem por um instante ainda
nenhum dos sentimentos falar,
que o músculo coração
se exercite de outra forma.
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Não deixem, vos digo, não deixem!
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Ingeborg Bachmann.
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

"Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás..."

The Wanderer Above The Mists, Caspar David Friedrich, 1818
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O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e, entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual,
de desejo e desespero.

Cecília Meireles.
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domingo, 1 de setembro de 2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

[ Cartografia Poética ]

Penibético, Fernando Vicente, s.d
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Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo de São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.


Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.


Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
Vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo no cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
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Murilo Mendes

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