sábado, 15 de setembro de 2012

(( Amor fati ))


Liebestod, aria final da Ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner
Jessye Norman e Filarmônica de Viena, com a regência de Herbert von Karajan
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Eis o que consegui:
tudo estava partido e então
juntei tudo em ti

toda minha fortuna
quase nada tudo muitas coisas
numa

só:
eu quis correr o risco antes de virar
pó:

juntar tudo em ti:
toda joia todo pen drive todo cisco
tudo o que ganhei tudo o que perdi

meu corpo minha cabeça meu livro meu disco
meu pânico meu tônico
meu endereço
eletrônico

meu número meu nome meu endereço
físico
meu túmulo meu berço

aquela aurora este crepúsculo
o mar o sol a noite a ilha
o meu opúsculo

meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

meu continente meu conteúdo
e além de todo mundo
também tudo o que é imundo tudo

o medo e a esperança
algo que fica
algo que dança

o que sei o que ignoro
o que rio
e o que choro

toda paixão
todo meu ver
todo meu não

tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti
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Antonio Cícero,
poema do livro Porventura, Ed. Record, 2012.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

"Vou-me embora pra Pasárgada..."


"O Poeta do Castelo", Manuel Bandeira em documentário de 1959,
direção de João Pedro de Andrade

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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
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Manuel Bandeira.
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sábado, 1 de setembro de 2012

"Não se pode soldar o abismo com ar."

 Black on Maroon, Mark Rothko, 1959
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Para encher um Vazio
Ponha de volta Aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa — sua boca vai
mais se escancarar —
Não se pode soldar o Abismo
Com ar.
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Emily Dickinson.
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domingo, 26 de agosto de 2012

"Todos os caminhos - nenhum caminho..."

 The Fallen Man (detail), Wilhelm Lehmbruck, 1915-16
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Eu ia triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta...
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais-de-trem...
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João Guimarães Rosa.
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domingo, 19 de agosto de 2012

"e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens..."

Anna Akhmátova, Nathan Altman, 1914
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Eu, como um rio,
fui devastada por estes duros tempos.
Deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir
num curso diferente, passando pela minha outra vida,
e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.
Oh, quantos espetáculos perdi,
quantas vezes o pano ergueu-se
e caiu sem mim. Quantos de meus amigos
nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,
e quantas paisagens de cidades
poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;
mas só conheço uma cidade neste mundo
embora nela fosse capaz de achar meu caminho até dormindo;
e quantos poemas nunca cheguei a escrever,
e seus refrões misteriosos pairam à minha volta
e, talvez, de algum jeito, acabem por
me estrangular...
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Estão claros, para mim, o começo e o fim,
e a vida depois do fim, e mais algumas coisas
de que não tenho de me lembrar por enquanto.
Uma outra mulher ocupou
o lugar especialmente reservado para mim
e usa o meu nome,
deixando para mim só o apelido, com o qual
fiz, provavelmente, tudo que havia para se feito.
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Não me deitarei, ai de mim, em meu próprio túmulo.
Mas, às vezes, o vento brincalhão da primavera,
ou certas combinações de palavras em um livro,
ou o sorriso de alguém suscita em mim,
de repente, essa vida que nunca aconteceu.
Neste ano, houve tais e tais coisas,
naquele ano, aquelas outras: viajar, ver, pensar
e lembrar, e entrar em um novo amor
como dentro de um espelho, com a leve consciência
da traição e de que, ontem, ainda não estava ali
aquela ruga.
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Mas se eu pudesse observar de fora
a pessoa que hoje sou,
Aí sim, aprenderia finalmente o que é a inveja.
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Anna Akhmátova.
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domingo, 12 de agosto de 2012

"o olhar distrai-se do significado que o gesto constrói..."

 Labyrinth, Saul Steinberg, 1960
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Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o fato de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.
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Wisława Szymborska.
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domingo, 5 de agosto de 2012

"Enche a vida sem que seja visto. Faz da vida espuma e mergulha nela..."

 Body & Space, Antony Gormley, 2010
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Avança desarmado como o bosque e sem ser detido como a nuvem, ontem carregou um continente e mudou o mar de lugar.

Traça o avesso do dia. Dos pés produz um dia e da noite empresta um calçado e espera pelo que não virá. Ele é a física das coisas. Conhece-as, chama-as por nomes que não revela. Ele é o real e seu contrário, a vida e a não vida.

Ali onde a pedra vira lado e a sombra cidade, ele vive – e faz errar o desespero, apaga o chão da esperança, dança para o pó até que este boceje e dança para as árvores até que elas durmam.

Ei-lo a anunciar o cruzamento das pontas, a imprimir o signo da magia na fronte da nossa era.
Enche a vida sem que seja visto. Faz da vida espuma e mergulha nela. Transforma o amanhã em caça, corre atrás dela em desespero. Inscritas, suas palavras seguem rumo: à perdição, à perdição.

A confusão é a pátria, mas tem os olhos cheios.
Assusta e conforta.
exala terror transborda ironia
descasca os homens como cebola.
Ele é o vento que não volta atrás, a água que não retorna à fonte. Cria sua espécie a partir dele mesmo. Não tem ascendentes, suas raízes estão em seus passos.
Caminha no abismo e tem o porte do vento.
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Adonis.
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Antony Gormley, autor do desenho que ilustra o post, terá seu trabalho exposto no CCBB, a partir do dia 07 de agosto. "Corpos Presentes" é a primeira exposição individual do artista britânico no país.
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Antony Gormley: Corpos Presentes
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro
Ter à Dom, das 9h às 21h
De 07 de Agosto à 23 de Setembro de 2012
Entrada Gratuita.
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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Agenda: Alberto Giacometti, Salvador Dalí, Raphael e Emygdio...

Annette, Alberto Giacometti, 1962
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"Alberto Giacometti, Coleção da Fondation Alberto et Annette Giacometti, Paris", é a primeira retrospectiva no continente sulamericano do escultor, pintor e desenhista. Estão expostas cerca de 280 obras, entre esculturas, pinturas, desenhos, gravuras e fotografias, realizadas entre 1910 e 1960.
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"Alberto Giacometti: Coleção da Fondation Alberto et Annette Giacometti, Paris"
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Av. Infante Dom Henrique, 85, Flamengo
Ter à Sex, das 12h às 18h; Sáb, Dom e Feriados, das 12h às 19h
De 18 de Julho à 16 de Setembro de 2012
Ingressos R$ 12,00
Entrada gratuita às quartas a partir das 15h.

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Edith Piaf, década de 40
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"Harcourt, Escultor de Luz", em exibição no Centro Cultural do Correios, expõe fotos do lendário estúdio francês Harcourt, que imortalizou, em retratos, as personalidades do início do século XX até hoje.
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"Harcourt - Escultor de Luz"
Centro Cultural Correios

Avenida Visconde de Itaboraí, 20, Centro
Ter à Dom, das 12h às 19h
De 05 de Julho à 12 de Agosto de 2012
Entrada Gratuita.

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Cerberus, Salvador Dalí, 1950's
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Na década de cinquenta, em comemoração aos sete séculos de "A Divina Comédia", de Dante Alighieri, o governo italiano encomendou a Salvador Dalí uma série de 100 aquarelas que ilustrassem a obra. Essas gravuras compõem a exposição "Dalí: A Divina Comédia", dividida, tal qual a epopeia de Dante, em três segmentos: Inferno, Purgatório e Paraíso.
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"Dalí: A Divina Comédia"
Caixa Cultural

Av. Almirante Barroso, 25, Centro
Ter à Dom, das 10h às 21h
De 17 de Julho à 02 de Setembro de 2012
Entrada Gratuita.

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Maternidade, Henrique Bernardelli, 1885
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"Artistas Brasileiros na Itália" ocupa cinco salas do MNBA, com 97 obras de 38 artistas, e oferece uma análise sobre o fascínio que a Itália exercia, nos séculos XIX e XX, sobre os artistas no Brasil.

Estão expostas obras de Victor Meirelles, Agostinho da Mota, João Zeferino da Costa, Rodolfo Bernardelli, José Pancetti, Carlos Oswald, Bruno Giorgi, Maria Bonomi, Iberê Camargo e Darel, entre outros.
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"Artistas Brasileiros na Itália"
Museu Nacional de Belas Artes

Avenida Rio Branco, 199, Cinelândia
Ter à Sex, das 10h às 18h; Sáb, Dom e Feriados, das 12h às 17h.
De 27 de Junho à 26 de Agosto de 2012
Entrada Gratuita.

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Emygdio de Barros, autor da fotografia e data incertos
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Com diagnóstico de esquizofrênia, Raphael Domingues e Emygdio de Barros foram internos do Centro Psiquiátrico Nacional - atual Instituto Municipal Nise da Silveira -, no Rio de Janeiro, onde participaram dos primórdios do ateliê de artes do Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação. Produziram mais de três mil trabalhos, cem deles estão na mostra "Raphael e Emygdio: dois modernos no Engenho de Dentro."
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"Raphael e Emygdio: dois modernos no Engenho de Dentro"Instituto Moreira Salles
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Ter à Dom, das 11h às 20h
De 15 de Julho à 07 de Outubro de 2012
Entrada Gratuita.

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Desabamento do Céu: sério sonhos Yanomami, Claudia Andujar, 1976
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Fotografias experimentais que datam desde 1940, podem ser vistas no Paço Imperial, até 05 de agosto. As 115 obras retratam dois períodos da fotografia brasileira: o modernista e o contemporâneo. Geraldo de Barros, José Oiticica Filho, Thomaz Farkas, José Yalenti e contemporâneos como Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Vik Muniz e Rodrigo Braga, são alguns dos 56 fotográfos expostos na mostra.
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Coleção Itaú de Fotografia Brasileira
Centro Cultural Paço Imperial

Praça XV de Novembro, 48, Centro
Ter à Dom, das 12h às 18h.
Até 05 de Agosto de 2012
Entrada Gratuita.

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Sete Dias de O Cruzeiro, Jean Manzon, 1943
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"Um Olhar sobre O Cruzeiro: as origens do fotojornalismo no Brasil", viaja pela história da principal revista ilustrada brasileira do século XX, decisiva para a implantação do fotojornalismo no país.
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"Um olhar sobre O Cruzeiro: as origens do fotojornalismo no Brasil"
Instituto Moreira Salles

Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Ter à Dom, das 11h às 20h
De 11 de Julho a 7 de Outubro de 2012
Entrada Gratuita.

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sábado, 14 de julho de 2012

Retrato do artista enquanto sujeito: Gustav Klimt

Gustav Klimt, pintor simbolista austríaco (1862-1918)
© foto de Moritz Nähr, 1912
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Identificamos com facilidade o trabalho de alguns artistas, mas nem sempre os seus rostos. A ideia de mais essa sessão do "Le Silence" é descortinar a criatura.

Klimt, cujo aniversário de 150 anos de nascimento é comemorado hoje, é a personificação do paradoxo do artista. O exponencial da genialidade, aprisionada em anseios e vicissitudes tão humanos. É curioso constatar, pelo menos ao meu ver, que nenhum grande artista é mais gênio, que "sujeito". Aprecia-se a obra muito pelo sentido de identificação, por alguma coisa que nos aproxima, que nos faz pensar, que nos assombra, que nos intriga, que nos extasia... e não puramente pelo sentido estético. Sob esse ponto de vista, a criação nunca será maior que o seu criador.
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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Música para curar a alma: Luciano Pavarotti


Vesti La Giubba, Ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, 1892
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Ouvir a ária mais tocante de "Pagliacci" às gargalhadas... a situação improvável acontece em "Para Roma, com amor". O filme não chega a ser cativante como "Meia-Noite em Paris", mas diverte ao revisitar a comédia e os tipos tão peculiares à filmografia do diretor Woody Allen.


No vídeo, "o Pagliacci", na versão original. Lindo!

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(...) Atuar!
Enquanto estou preso pelo delírio
Não sei mais o que digo
E o que faço
Embora seja preciso (...)
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terça-feira, 3 de julho de 2012

Representação de construções impossíveis...

 Relativity, Maurits Cornelis Escher, 1953
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"Grande aula, a do silêncio.
Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso. De tudo viverás.
Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas,
Projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.
Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais."
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Cecília Meireles,
Trecho do poema "O Estudante Empírico".
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quarta-feira, 27 de junho de 2012

| Borderline |

Untitled (Blue Divided by Blue), Mark Rothko, 1966
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Nós o chamamos de grão de areia.
Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.
Dispensa um nome
geral, particular,
passageiro, permanente,
errado ou apropriado.
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De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.
Não se sente olhado nem tocado.
E ter caído no parapeito da janela
é uma aventura nossa, não dele.
Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa
sem a certeza de já ter caído,
ou de estar ainda caindo.
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Da janela há uma bela vista para o lago,
mas a vista não vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.
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Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água.
Nem singular nem plural a onda
Que murmureja surda ao seu próprio murmúrio
ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.
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E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,
no qual o sol se põe na verdade não se pondo
e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem insciente.
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O vento a varre sem outra razão
que a de ventar.
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Passa um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Mas são três segundos somente nossos.
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O tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes.
mas isso é apenas um símile nosso.
Uma personagem inventada, a sua pressa imposta
e a notícia inumana.
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Wislawa Szymborska.
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sábado, 23 de junho de 2012

"ah ‘persona’, como não te usar e ser!"

Marcel Marceau, The Mask Maker, 1959
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"Então, sem entender o que fazia – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era.

Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma másca­ra de pintura no rosto – ah ‘persona’, como não te usar e ser! – sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-­se e foi..."
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Clarice Lispector, in: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Para cultivar pássaros e falar com as flores..."

Sem título, Juul Kraijer, 2006
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Para cultivar pássaros
e falar com as flores
subir à montanha,
capturá-la em seus abismos
com viril delicadeza
mergulhar na amplidão
de suas formas.

Um mergulho perigoso
de onde se sai aos pedaços.

Reunir os cacos
em melancólico mosaico
recompor a paisagem
do que se foi um dia
mesmo sabendo que inteiro
não se é nunca mais.


Dirce de Assis Cavalcanti.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself."

Red Headed Woman in the Garden of M.Foret, Toulouse-Lautrec, 1887
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"Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca."
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Virginia Woolf, in: Mrs. Dalloway.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Palabras degolladas, caídas de mis labios sin nacer..."

 Silence, Odilon Redon, 1900
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Palabras degolladas,
caídas de mis labios
sin nacer;
estranguladas vírgenes
sin sol posible;
pesadas de deseos,
henchidas...

Deformadoras de mi boca
en el impulso de asomar
y el pozo del vacío
al caer...
Desnatadoras de mi miel celeste,
apretadas en vosotras
en coronas floridas.

Desangrada en vosotras
—no nacidas—
redes del más aquí y el más allá,
medialunas,
peces descarnados,
pájaros sin alas,
serpientes desvertebradas...
No perdones,
corazón.


Alfonsina Storni.
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domingo, 20 de maio de 2012

Desenraizar-se...

 Roots, Frida Kahlo, 1943
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A aparência adere ao ser e somente a dor pode arrancá-los um do outro.
Quem tem o ser não pode ter a aparência. A aparência acorrenta o ser.
O curso do tempo arranca o parecer do ser e o ser do parecer, por violência.
O tempo manifesta que não é a eternidade.

É preciso desenraizar-se. Cortar a árvore e fazer dela uma cruz, e em seguida carregá-la todos os dias.

É preciso não ser eu, e menos ainda ser nós.
A cidade dá sentimento de estar em casa.
Ter o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraizado na ausência de lugar.

Desenraizar-se social e vegetativamente.
Exilar-se de toda a pátria terrestre
Fazer tudo isso a outrem, a partir de fora, é um ersatz de descriação.
É produzir irrealidade.
Mas ao nos desenraizarmos buscamos mais realidade.
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Simone Weil, in: A Gravidade e a Graça.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012

"como podes saber onde me circunscrevo, e de que modo me pode o teu desejo atingir?..."

 Lovers, Jarek Puczel, 2010
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Voz obstinada, por que insiste chamando
por um nome que não corresponde mais a mim?
Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite
e como o silêncio tenta mover-se inutilmente,
quando diriges teus ímãs sonoros,
sondando direções!
Não é do meu propósito, ó voz obstinada,
mas da minha condição.
As aparências dispersaram-se de mim,
como pássaros:
que sol se pode fixar nesta existência,
para te definir a minha aproximação?
Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?
Eu mesma deixei de entender a minha substância;
tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.
Como podes chamar por mim como às coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?
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Cecília Meireles.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Como isolar a alma se ela é corpo..."

The Reunion of the Soul and the Body, William Blake, 1808
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(...)
Quis possuir a alma
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.

Quis possuir a alma
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.

Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.

Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.

Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento.

Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?

Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?

Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.

Se o corpo não é seu,
alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.

Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
(...)

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Carlos Nejar.
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