quinta-feira, 12 de junho de 2014

"... Lá de fora é de dentro para quem olha..."

 Newman, Mark Rothko, 1949
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Esta vibração verde é uma planta envolta em ar
este verde é o ar que perfuma
este perfume é a linguagem da planta

Eu não sou nada
se não sou a planta 
o ar
a fragrância
e nada é nada
se não se vê que nada é nada
aqui
agora

Um menino brinca no gramado
escolhe uma árvore
outra
outra
vai de uma árvore até o meio do jardim
corre até outra árvore
até outra
volta ao centro

Um pássaro canta
e lá de fora
árvores menino e pássaro
não são isso

Lá de fora é 
de dentro
para quem olha como quem
luta
como quem
passa através de nenhum 
obstáculo

A prova mais dura
o salto que consiste em
ficar imóvel à margem da 
plenitude sem margens
que
(a plenitude)
não existe como imagem nem suporte

E então 
o menino chega até a árvore
e se entende que não havia pássaro cantando
que o canto era esse nome
que recebe esse ato
para quem está olhando como quem 
ama
como quem
vive
como quem
sabe que as árvores
a verde vibração
que é a planta
envolta em ar
o salvam de ser aquilo
que todo o resto insiste em dar-lhe
a partir de sapatos
mulheres
espetáculos
dias

O que olha é agora o olhado
mas o menino
escolhe novamente uma árvore
corre e retorna
e outra vez corre e volta

O olhado fica para lá
e o que olhava volta a ser aquele que olha

Até que algum dia quem sabe
Até que não haja retorno
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Julio Cortázar.
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sábado, 24 de maio de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

 Philosopher Reading, Rembrandt, 1631
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"Acho que deveria começar a fazer alguma coisa, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos e não aconteceu praticamente nada. Recapitulemos: escrevi um estudo, ruim, sobre Carpaccio, um drama intitulado Casamento e que quer mostrar algo falso com recursos ambíguos, e versos. Ah, mas versos escritos cedo não são grande coisa! Deveríamos esperar para escrever, e juntar senso e doçura por uma vida inteira, longa, se possível, e então, bem no fim, talvez pudéssemos escrever dez linhas que fossem boas. Pois versos não são, como pensam as pessoas, sentimentos (deles temos o bastante na juventude) — são experiências. Por causa de um único verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como os pássaros voam e saber com que gestos  as pequenas flores se abrem pela manhã. É preciso ser capaz de recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas que vemos se aproximar por longo tempo... doenças de infância  que começam tão estranhamente, com tantas metamorfoses profundas e difíceis, dias em quartos quietos e reservados, e manhãs junto ao mar, sobretudo o mar, os mares, as noites de viagem que passavam ruidosamente e voavam com todas as estrelas — e ainda não é o bastante se precisamos pensar em tudo isso. É preciso ter lembrança de muitas noites de amor, todas diferentes entre si... Mas ainda não basta ter recordações. É preciso ser capaz de esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que retornem. Pois elas ainda não são as recordações mesmas. Apenas quando elas se tornam sangue em nós, olhar e gesto, anônimas e indistinguíveis de nós mesmos, só então poderá acontecer que numa hora muito rara se levante e saia do meio delas a primeira palavra de um verso..."
..
Rainer Maria Rilke, in: Os Cadernos de Malte Laurids Brigge.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014

"e até o silêncio, se é possível o silêncio, havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo..."

The Flowers Series, Romualdas Rakauskas, 1970
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As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem que palavras?

E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.
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Manuel António Pina.

domingo, 11 de maio de 2014

Possibilidades...

Hannah Höch, Da-Dandy, 1919
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Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas,
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
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Wisława Szymborska.
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

"Na significação, três coisas."

Three Studies for a Self-Portrait, Francis Bacon, 1976
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"Na significação, tal como ela é concebida desde os estóicos, há três coisas: o significante, o significado e o referente. Mas agora, se imagino uma lingüística do valor (entretanto, como edificá-la, permanecendo nós mesmos fora do valor, como edificá-la “cientificamente”, “lingüisticamente”?), essas três coisas que existem na significação não são mais as mesmas; uma é conhecida, é o processo de significação, domínio habitual da linguística clássica, que nele se detém, se mantém e proíbe que dele se saia, mas as outras o são menos. São a notificação (assento minha mensagem e assento meu ouvinte) e a assinatura (exibo-me, não posso evitar de me exibir). Por essa análise, não faríamos mais do que desdobrar a etimologia do verbo “significar”: fabricar um signo, fazer sinal (a alguém), reduzir-se imaginariamente a seu próprio signo, sublimar-se nele."
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Roland Barthes.
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sábado, 19 de abril de 2014

Música para curar a alma: Led Zeppelin

Stairway to Heaven, Ann & Nancy Wilson ft. Jason Bonham, Tributo a Led Zeppelin 
a música é faixa original do álbum Led Zeppelin IV, 1971
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

"porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão, não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra."

Gabriel García Márquez, 06/03/1927 - 17/04/2014
© foto de Isabel Steva Hernández (Colita), s.d
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"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza..."
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Gabriel García Márquez, in: Memória de Minhas Putas Tristes.
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"Todos, absolutamente todos estamos sós..."
 Assista a entrevista que Gabo concedeu à RTVE.es, em 1982.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

"O ingrediente secreto para o sexo é o amor."

The Ash Yggdrasil, Friedrich Wilhelm Heine, 1886
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Ninfomaníaca é, entre outras coisas, uma grande tiração de sarro (mais uma) do diretor Lars von Trier, com aqueles que previsivelmente classificariam o filme como "o primeiro pornô soft exibido em cinemas multiplex". 

Assim como a polifonia de Bach em justaposição com os amantes diletos de Joe, o filme louva a tríade que marca o "estilo" do cineasta: o pensamento estético e filosófico + o tragicômico + o lúdico. 

Ponto para quem mortificou-se mais com a cena da montanha e menos com a chuva de falos. 

domingo, 9 de março de 2014

"O desfolhar habitual das memórias é agora mais geral e também mais súbito..."

Noon on the Beach of Valencia, Joaquín Sorolla y Bastida, 1904
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"Há manchas de mar por vezes sobrepostas
à rusticidade doce da casa.
Mas um sentido rural que se demora
traz imagens tangíveis tão próximas
daquilo que para mim as coisas eram."
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Fiama Hasse Pais Brandão.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

A arte de esculpir o tempo...

Alain Renais, 03/06/1922 - 01/03/2014
© foto de Georges Pierre, 1961
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"O tempo é o pleno, quer dizer, a forma inalterável preenchida pela mudança. O tempo é a reserva visual dos acontecimentos em sua justeza."
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Gilles Deleuze, in: A Imagem-Tempo.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"É inútil sonhar que desfazendo o fio da tua teia, há de ser livre o andar."

Contrejour, Paris, Sabine Weiss, 1953
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jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de 
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que 
recuam
ausência frequentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta.
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Ana Cristina Cesar.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

Portrait of Charles Baudelaire, Gustave Courbet, 1848
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A realidade bifurcou-se, na coisa real e em sua versão alternativa, duas vezes. Temos o evento e sua imagem. E temos o evento e sua projeção. Mas como para as pessoas os eventos reais muitas vezes não parecem ter mais realidade do que as imagens, nossas reações a eventos do presente recorrem, para confirmá-los, a esboços mentais, acompanhados de cálculos apropriados, do evento em sua forma projetada, final.
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A consciência do futuro é o hábito mental — bem como a corrupção intelectual  por excelência desse século, tal como a consciência histórica, conforme observou Nietzsche, transformou o pensamento do século XIX. A capacidade de avaliar o modo pela qual as coisas evoluirão no futuro é o subproduto inevitável de uma compreensão mais sofisticada (quantificável, testável) dos processos, tanto sociais quanto científicos. A capacidade de projetar eventos futuros com certo grau de precisão ampliou a própria definição de poder, por ser ampla fonte de instruções a respeito da maneira de se lidar com o presente. Mas, na verdade, a capacidade de antever o futuro, antes associada à noção de progresso linear, transformou-se  com a aquisição de um volume de conhecimentos maior do que se poderia imaginar  numa visão da catástrofe.
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Susan Sontag, in: Doença como Metáfora / Aids e suas Metáforas.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

"A vida es acto que conoce y cada acto, introducción al otro no saber. La inteligencia y el instinto encienden fuegos en la noche. Pero es del infinito que estamos exiliados..."

Juan Gelman, 03/05/1930 - 14/01/2014
© foto de Daniel Mordzinski, s.d.
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hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher/nem na alma
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje/que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando/e como
mas o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado.
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Juan Gelman, do livro Isso, Ed. UNB, 2004.
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sábado, 11 de janeiro de 2014

[ Ser ] [ Parecer ]

Mime, Marcel Marceau, © foto de Jack Mitchell, 1973
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Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida
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Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.
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Mia Couto, in: Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"Porquanto, como conhecer as coisas senão sendo-as?"

Bataille de Fleurs, Marc Chagall, 1967
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Ah, ouvir mazurcas de Chopin num velho bar, domingo de manhã!
Depois sair pelas ruas, entrar pelos jardins e falar com as crianças.
Olhar as flores, ver os bondes passarem cheios de gente,
E, encostado no rosto de casas, sorrir...

Saber que o céu está lá em cima.
Saber que os olhos estão perfeitos e que as mãos estão perfeitas.
Saber que os ouvidos estão perfeitos. Passar pela igreja.
Ver pessoas rindo. Ver os namorados cheios de ilusões.

Sair andando à toa entre plantas e os animais.
Ver as árvores verdes do jardim. Lembrar das horas mais apagadas.
Por toda parte sentir o segredo das coisas vivas.
Entrar por caminhos ignorados, sair por caminhos ignorados.

Ver gente diferente de nós nas janelas das casas, nas calçadas, nas quitandas.
Ver gente conversando na esquina, falando de coisas ruidosas.
Ver gente discutindo comércio, futebol e contando anedotas.
Ver homens esquecidos da vida, enchendo as praças, enchendo as travessas.

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que eles estão longe e ter saudades deles...

Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar das músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente viu.

Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto...

Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.
Pensar nos livros que a gente já leu, nas alegrias dos livros lidos.

Pensar nas horas vagas, nas horas passadas lendo as poesias de Anto.
Lembrar dos poetas e imaginar a vida deles muito triste.
Imaginar a cara deles como de anjos. Pensar em Rimbaud,
Na sua fuga, na sua adolescência, nos seus cabelos cor de ouro.

Não ter ideia de voltar para casa. Lembrar que a gente,
afinal de contas,
Está vivendo muito bem e é uma criatura até feliz. Ficar admirado.
Descobrir que não nos falta nada. Dar um suspiro bom de alívio,
Olhar com ternura a criação e ver-se pago de tudo.

Descobrir que, no final das contas, não se possui nenhuma queixa
E que se está sem nenhuma tristeza para dizer no momento.
Lembrar que não sente fome e que os olhos estão perfeitos.
Para falar a verdade, sentir-se quite com a vida.

(...) Como é bom a gente ter tido infância para poder lembrar-se dela
E trazer uma saudade muito esquisita escondida no coração.
Como é bom a gente ter deixado a pequena terra em que nasceu
E ter fugido para uma cidade maior, para conhecer outras vidas.
Como é bom chegar a este ponto e olhar em torno
E se sentir maior e mais orgulhoso porque já conhece outras vidas...

Como é bom lembrar-se da viagem, dos primeiros dias na cidade,
Da primeira vez que olhou o mar, da impressão de atordoamento.
Como é bom ter vindo de longe, estar agora caminhando
Pensando e respirando no meio de pessoas desconhecidas
Como é bom achar o mundo esquisito por isso, muito esquisito mesmo
E depois sorrir levemente pare ele com os seus mistérios...

Que coisa maravilhosa, exclamar. Que mundo maravilhoso, exclamar.
Como tudo é tão belo e tão cheio de encantos!
Olhar para todos os lados, olhar para as coisas mais pequenas,
E descobrir em todas uma razão de beleza.

Agradecer a Deus, que a gente ainda não sabe amar direito,
A harmonia que a gente sente, vê e ouve.
A beleza que a gente vê saindo das rosas, a dor saindo das feridas.
Agradecer tanta coisa que a gente não pode acreditar que esteja acontecendo.

Lembrar de certas passagens. Fechar os olhos para ver no tempo.
Sentir a claridade do sol, espalmar os dedos, cofiar os bigodes,
Lembrar que tinha saído de casa sem destino, que passara
num bar, que ouvira uma mazurca,
E agora estava ali, muito perdidamente lembrando coisas
bobas de sua pequena vida.
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Manoel de Barros.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Música para curar a alma: Carminho e Chico Buarque

Carolina, faixa do álbum "Chico Buarque de Hollanda Vol. 3", 1968
a regravação da cantora portuguesa é faixa do álbum "Alma", 2012
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Correspondências: Florbela e Apeles Espanca

Irmãos Espanca, 1904
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Mano Peles¹,
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Lá vai a última e irrevogável cravadela: envio-te a conta da toilette que me oferecestes. Fui a um alfaiate pelintra para conseguir um preço razoável, e foi o que felizmente aconteceu.
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Como eu não podia dispor deste dinheiro, pedi emprestado ao meu cunhado Manuel, que é bom rapaz e que imediatamente a isso se prontificou; peço-te pois para, por toda esta semana, fazeres o favor de lhe entregar essa importância que ele me emprestou para o pagamento do vestido. Vai, ou manda por um moço ou pelo correio à Rua da Betesga 7 e 9; se ele não estiver, podes deixar a qualquer dos sócios da loja, que depois lhe entregam tudo. Não te esqueças, não? E mais uma vez obrigada; desejo que não seja a última vez que navegues até o Brasil para não ser a última toilette oferecida à mana pelintra².
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Quando apareces? Olha que eu moro na Rua Josefa d’Óbidos, 24-4º (à Graça), Lisboa.
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O vestido está fixe³, digno da mana dum mano fixíssimo. 
Beijos ao Peles urso e os mercis todos da Bela.
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P.S. – Se o mano Peles estiver tão pelintra como a mana pelintra, não pague nada, que eu quando puder saldarei a minha dívida e, mesmo assim, tudo está fixe.
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Beijos e abraços da Bela.
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¹ Peles era o apelido de Apeles Demóstenes da Rocha Espanca. O irmão mais novo da poetisa faleceu em 1927, quando o hidroavião que pilotava caiu no Rio Tejo.
² Pelintra, o mesmo que sem fundos.
³ Fixe, espécie de gíria para algo muito bom.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Música para curar a alma: Richard Wagner

Tristão e Isolda, WWV 90: Prelúdio e Liebestod, Richard Wagner
Orquestra Sinfônica de Boston, com a condução do maestro Leonard Bernstein
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um bom lugar para ler um livro?

Young Girl Reading, Jean-Baptiste-Camille Corot,1868
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"Foi então que começou nossa grande viagem pelos Estados Unidos. Bem cedo, dentre diversos tipos de acomodações para turistas, passei a preferir o Motel Funcional — abrigos limpos, eficientes e seguros, realmente os lugares ideais para dormir, brigar, fazer as pazes e dedicar-se aos insaciáveis prazeres do amor ilícito."
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  Vladimir Nabokov, trecho do livro Lolita.
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domingo, 8 de dezembro de 2013

"...e minhas caminhadas nunca findarão..."

Study Head of a Woman Looking Up, Anthony van Dyck, 1618-20
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E o que é que vai ficar?
Suspiro, sofro, busco,
e minhas caminhadas
nunca findarão.
A sombra escura
que já persigo desde o começo
leva-me a profundas solidões invernais.
Lá eu fico quieta (…).
Fantasmas azuis saltam para o aposento.
Os que partiram, perdidos diante de mim,
Exigem como homens um antigo direito.
Agora são pagos com flores
que viram muitos verões
e que neste inverno caem irrompendo.
As árvores aninham frio diante de si
e lágrimas, que me atraiu o brilho da lua,
pendem no gelo como espigas secas.
Assim, como ali, sobre o iceberg,
os há muito falecidos escorreram seu sangue,
eu os sigo, para fazer o mesmo.
Ouço os séculos em minha direção
E não quero estar lá apagada inteira.
A sombra, que tão longe quer ir,
tento oprimir com meu rastro
apenas temendo desperdiçar-me
em vão.
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Ingeborg Bachmann.
Tradução: Cláudia Cavalcanti.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"Brada o anseio da liberdade e da estepe, dos corações entre cordões de isolamento..."

Nelson Rolihlahla Mandela (1918-2013)
 escultura de Marco Cianfanelli ¹ 
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Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
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Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
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Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
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Não importa o quão estreito seja o portão
e quão repleta de castigos seja a sentença,
eu sou o dono de meu destino,
e sou o capitão de minha alma.
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William Ernest Henley.
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¹ Escultura inaugurada em 2012, por ocasião do aniversário de 50 anos da prisão do líder africano pelo regime do Apartheid. O local é o mesmo onde Mandela foi capturado, em 05 de agosto de 1962, na província de Kwazulu Natal, Howick. Ele passaria 27 anos na prisão.
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sábado, 30 de novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

"... e sabe em simultâneo a condição para o não-ser..."

Orpheus and Eurydice (detail), Auguste Rodin, 1893
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Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já
para trás de ti, como o inverno que agora parte.
Pois que entre os invernos há um tão sem fim inverno
que só hibernando o teu coração resiste.

Sê sempre morto em Eurídice -, mas cantante, sobe,
mais laudante, sobe atrás, à pura relação.
Aqui, entre evanescentes, sê, no império das gotas que sobram,
sê um copo sonante, que já no som se quebrou.

Sê - e sabe em simultâneo a condição para o não-ser,
o fundamento infinito da tua vibração interior,
para que a leves a cabo por inteiro, desta única vez.

Ao desgastado aprovisionamento da repleta natureza, tanto
quanto ao entorpecido e mudo, aos indizíveis somatórios,
acrescenta-te rejubilando, e aniquila o número.

Rainer Maria Rilke, in: Sonetos a Orfeu.
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