terça-feira, 3 de julho de 2012

Representação de construções impossíveis...

 Relativity, Maurits Cornelis Escher, 1953
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"Grande aula, a do silêncio.
Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso. De tudo viverás.
Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas,
Projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.
Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais."
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Cecília Meireles,
Trecho do poema "O Estudante Empírico".
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quarta-feira, 27 de junho de 2012

| Borderline |

Untitled (Blue Divided by Blue), Mark Rothko, 1966
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Nós o chamamos de grão de areia.
Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.
Dispensa um nome
geral, particular,
passageiro, permanente,
errado ou apropriado.
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De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.
Não se sente olhado nem tocado.
E ter caído no parapeito da janela
é uma aventura nossa, não dele.
Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa
sem a certeza de já ter caído,
ou de estar ainda caindo.
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Da janela há uma bela vista para o lago,
mas a vista não vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.
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Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água.
Nem singular nem plural a onda
Que murmureja surda ao seu próprio murmúrio
ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.
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E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,
no qual o sol se põe na verdade não se pondo
e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem insciente.
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O vento a varre sem outra razão
que a de ventar.
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Passa um segundo.
Dois segundos.
Três segundos.
Mas são três segundos somente nossos.
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O tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes.
mas isso é apenas um símile nosso.
Uma personagem inventada, a sua pressa imposta
e a notícia inumana.
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Wislawa Szymborska.
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sábado, 23 de junho de 2012

"ah ‘persona’, como não te usar e ser!"

Marcel Marceau, The Mask Maker, 1959
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"Então, sem entender o que fazia – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era.

Na hora de sair de casa, fraquejou: não estaria exigindo demais de si mesma? Não seria uma bravata ir sozinha? Toda pronta, com uma másca­ra de pintura no rosto – ah ‘persona’, como não te usar e ser! – sem coragem, sentou-se na poltrona de sua sala tão conhecida e seu coração pedia para ela não ir. Parecia prever que ia se machucar muito e ela não era masoquista. Enfim apagou o cigarro-da-coragem, levantou-­se e foi..."
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Clarice Lispector, in: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
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sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Para cultivar pássaros e falar com as flores..."

Sem título, Juul Kraijer, 2006
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Para cultivar pássaros
e falar com as flores
subir à montanha,
capturá-la em seus abismos
com viril delicadeza
mergulhar na amplidão
de suas formas.

Um mergulho perigoso
de onde se sai aos pedaços.

Reunir os cacos
em melancólico mosaico
recompor a paisagem
do que se foi um dia
mesmo sabendo que inteiro
não se é nunca mais.


Dirce de Assis Cavalcanti.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself."

Red Headed Woman in the Garden of M.Foret, Toulouse-Lautrec, 1887
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"Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca."
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Virginia Woolf, in: Mrs. Dalloway.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Palabras degolladas, caídas de mis labios sin nacer..."

 Silence, Odilon Redon, 1900
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Palabras degolladas,
caídas de mis labios
sin nacer;
estranguladas vírgenes
sin sol posible;
pesadas de deseos,
henchidas...

Deformadoras de mi boca
en el impulso de asomar
y el pozo del vacío
al caer...
Desnatadoras de mi miel celeste,
apretadas en vosotras
en coronas floridas.

Desangrada en vosotras
—no nacidas—
redes del más aquí y el más allá,
medialunas,
peces descarnados,
pájaros sin alas,
serpientes desvertebradas...
No perdones,
corazón.


Alfonsina Storni.
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domingo, 20 de maio de 2012

Desenraizar-se...

 Roots, Frida Kahlo, 1943
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A aparência adere ao ser e somente a dor pode arrancá-los um do outro.
Quem tem o ser não pode ter a aparência. A aparência acorrenta o ser.
O curso do tempo arranca o parecer do ser e o ser do parecer, por violência.
O tempo manifesta que não é a eternidade.

É preciso desenraizar-se. Cortar a árvore e fazer dela uma cruz, e em seguida carregá-la todos os dias.

É preciso não ser eu, e menos ainda ser nós.
A cidade dá sentimento de estar em casa.
Ter o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraizado na ausência de lugar.

Desenraizar-se social e vegetativamente.
Exilar-se de toda a pátria terrestre
Fazer tudo isso a outrem, a partir de fora, é um ersatz de descriação.
É produzir irrealidade.
Mas ao nos desenraizarmos buscamos mais realidade.
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Simone Weil, in: A Gravidade e a Graça.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012

"como podes saber onde me circunscrevo, e de que modo me pode o teu desejo atingir?..."

 Lovers, Jarek Puczel, 2010
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Voz obstinada, por que insiste chamando
por um nome que não corresponde mais a mim?
Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite
e como o silêncio tenta mover-se inutilmente,
quando diriges teus ímãs sonoros,
sondando direções!
Não é do meu propósito, ó voz obstinada,
mas da minha condição.
As aparências dispersaram-se de mim,
como pássaros:
que sol se pode fixar nesta existência,
para te definir a minha aproximação?
Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?
Eu mesma deixei de entender a minha substância;
tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.
Como podes chamar por mim como às coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?
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Cecília Meireles.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Como isolar a alma se ela é corpo..."

The Reunion of the Soul and the Body, William Blake, 1808
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(...)
Quis possuir a alma
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.

Quis possuir a alma
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.

Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.

Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.

Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento.

Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?

Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?

Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.

Se o corpo não é seu,
alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.

Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
(...)

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Carlos Nejar.
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domingo, 29 de abril de 2012

"Olhar o rio feito de tempo e água, e recordar que o tempo é outro rio..."

 Ulysses Deriding Polyphemus, William Turner, 1829
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Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.
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Perceber que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que se chama sonho.
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Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo

dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
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Ver na morte o sonho, entrever no ocaso

Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.
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Às vezes durante as tardes um rosto

Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.
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Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.
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Também é como o rio interminável,

Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
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Jorge Luis Borges.
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terça-feira, 24 de abril de 2012

"... sentir é como o céu, vê-se mas não há nele que ver."

 False Mirror, René Magritte, 1928
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"Como ter leveza ao falar do coração dentro de uma cultura que se autodefine e se autocensura como uma cultura da cordialidade? Como nomear o outro diante de si mesmo, nomear-se outro diante de si mesmo? (...).
Uma vez que o coração esta na origem, começo por voltar a ele. Mas na direção dele o caminho não é tranquilo."
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Evando Nascimento, in: Jacques Derrida, Pensar a Desconstrução.
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terça-feira, 17 de abril de 2012

"A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

Winged Victory of Samothrace, 190 a.C
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"E se sou líquida como é líquido o informe, antes sou gotas de mercúrio do termômetro quebrado líquido metal que se faz círculo cheio de si e igual a si mesmo no centro e na superfície, prata que tomba e não derrama, liquidez sem umidade."
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Clarice Lispector apud Olga Borelli, in: Esboço para um Possível Retrato.
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domingo, 15 de abril de 2012

"Quando a memória transformada em ave pousar sobre o meu peito a sua leveza."


The Hours,
direção de Stephen Daldry, 2002
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E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura.

E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera

Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra (...)

Há certos rios que é preciso rever.
Por isso volto... àquelas margens
Onde na sombra um verde descansava (...)
Volto, seguindo a viagem
De mim mesma e aos poucos convergindo
Oculta, vária,
Até fechar um círculo e entender
Essa asa de fogo sobre as coisas.
Talvez neste canto eu te direi
Das estreitas passagens, do lodo
Convulsivo dos ancoradouros, dos funerais
Que vi, para chegar à luz da primeira paisagem.
Meu olhos deram volta à ilha.
Sigo pelos caminhos, transfiguro-me

Sei que um igual destino eu já cumpri
E ao mesmo tempo em tudo me descubro
Casta e incorpórea. Sou tantas,
Tantos vivem em mim e pródiga descerro-me (...)

Olhai o que mais vos convém.
Em tudo, o todo que sois feito
Se mantém. Pórticos, escadas
Ave sob um teto de chumbo,
O que estiver à tona, o mais fundo,
Ventre, ombro.

O caminho de dentro
é um grande espaço-tempo (...)

Àquele grande e pausado passo de ave que se parece.
Ah, que dor de ter assim um todo na memória
Que dor na fluidez do tempo e a mesma hora se fazendo sempre (...)

Hilda Hilst, fragmentos do poema "Memória".
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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Decair: v. intr. Diminuir pouco a pouco; Enfraquecer; Entrar em decadência.

Icarus, from the series The Four Disgracers, Hendrick Goltzius, 1588
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"Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas... por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados... Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.
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Assim, toda a questão se reduz a isto: pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?"
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Paul Valery.
citação do prefácio do livro "Modernidade Líquida", do Zygmunt Bauman.
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quinta-feira, 29 de março de 2012

Música para curar a alma: Edith Piaf


T'es Beau Tu Sais, música de Henri Contet e Georges Moustaki, 1959
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[...]
Reste là, ne bouge pas

Laisse-moi t'imaginer
T'as l'air d'être l'été
Celui qui pleut jamais
[...]

quarta-feira, 21 de março de 2012

"... a dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda..."

The Great Paranoiac, Salvador Dalí, 1936
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"... Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão..."
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Machado de Assis, in: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
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domingo, 18 de março de 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

"Para beber da água escrita..."

  The Poet, Egon Schiele, 1911
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houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
"para que nada se perca
ou se esqueça",
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo.
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Ana Cristina Cesar.
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