quarta-feira, 15 de outubro de 2014

[ Intimidar o poema a ser raiz ]

Sonho Poético, Martha Barros, 2009
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era um poema lateral aos sentidos.
ganhava formato ébrio
ao nem ser escrito.
longe dos pensamentos
imitava uma pedra 
[aí as palavras drummondeavam].
longe das lógicas
– com tendência vagabunda – 
o poema driblava lados avessos 
de noites
e animais
[aqui as sílabas manoelizam, barrentas].
mas uma estrela nunca brilha
tão solitária;
encarece-se também de luuandinar, 
miar à couto, 
esvair-se para guimarães...
era um poema carente de afetar-se
a ramos gracilianos.
assim alcançava
o estatuto
de raiz.
cheirado, emitia brilhos tímidos
– fosse um pirilampo.
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Ondjaki.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

 Portrait of the Marquise de Pompadour, François Boucher, 1756
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"Depois dessa crença central que, durante a minha leitura executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pela ação em que tomava parte, porque aquelas tardes eram  mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler; é verdade que as personagens por eles afetadas não eram "reais", como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem experimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar. Se é atingido por uma infelicidade, só numa pequena parte da noção total que dele temos é que podemos comover-nos com isso; muito mais ainda, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si é que ele mesmo poderá comover-se. O achado do romancista foi ter a idéia de substituir essas partes impenetráveis á alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as ações, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tornamos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantém sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar? E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, toda a emoção é decuplicada, estado em que o seu livro nos vai perturbar à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos a dormir, e cuja lembrança irá durar mais tempo, então, eis que ele desencadeia em nós durante uma hora todas as felicidades e todas as infelicidades possíveis, algumas das quais levaríamos anos de vida a conhecer, e as mais intensas das quais nunca nos seriam reveladas, porque a lentidão com que se produzem nos retira a percepção delas (assim, na vida, o nosso coração muda, e essa é a pior dor; mas só na leitura, em imaginação, a conhecemos: na realidade ele muda, como certos fenômenos da natureza se produzem, com suficiente lentidão para que, se pudermos detectar sucessivamente cada um dos seus estados diferentes, em contra-partida nos seja poupada a própria sensação de mudança."
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Marcel Proust, in: Em Busca do Tempo Perdido,
 No Caminho de Swann.
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domingo, 21 de setembro de 2014

Música para curar a alma: Maurizio Pollini

Piano Concerto No.5 in E flat major Op.73, "Emperor": II. Adagio un poco mosso, Beethoven
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"Há belezas para as quais não fomos feitos 
e que são demasiado plenas e definitivas
 para as oscilações de nossa alma..." 
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Emil Cioran.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Nulla dies sine linea

Number 14: Gray, Jackson Pollock, 1948
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A memória é uma ilha de edição - um qualquer
passante diz, em um estilo nonchalant,
e imediatamente apaga a tecla e também
o sentido do que queria dizer.
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Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser
levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?
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A vida não é uma tela e jamais adquire
o significado estrito
que se deseja imprimir nela.
Tampouco é uma estória em que cada minúcia
encerra uma moral.
Ela é recheada de locais de desova, presuntos,
liquidações, queimas de arquivos,divisões de capturas,
apagamentos de trechos, sumiços de originais,
grupos de extermínios e fotogramas estourados.
Que importa se as cinzas restam frias
ou se ainda ardem quentes
se não é selecionada urna alguma adequada,
seja grega seja bárbara,
para depositá-las?
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Antes que o amanhã desabe aqui,
ainda hoje será esquecido o que traz
a marca d'água d'hoje.
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Hienas aguardam na tocaia da moita enquanto
os cães de fila do tempo fazem um arquipélago
de fiapos do terno da memória.
Ilhotas. Imagens em farrapos dos dias findos.
Numerosas crateras ozonais.
Os laços de família tornados lapsos.
Oco e cárie e cava e prótese,
assim o mundo vai parindo o defunto
de sua sinopse.
Sem nenhuma explosão final.
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Nulla dies sine linea. Nenhum dia sem um traço.
Um, sem nome e com vontade aguada,
ergue este lema como uma barragem
anti-entropia.
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E os dias sucedem-se e é firmada a intenção
de transmudar todo veneno e ferrugem
em pedaço do paraíso. Ou vice-versa.
Ao prazer do bel-prazer,
como quem aperta um botão da mesa
de uma ilha de edição
e um deus irrompe afinal para resgatar o humano fardo.
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Corrigindo:
......................o humano fado.
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Waly Salomão, in: Carta Aberta a John Ashbery
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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

"Pensamento individido, pensando um todo simples de ver?"

Monk by the Sea, Caspar David Friedrich, c. 1809
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O curso de um dia nunca é constante.
As horas experimentam dor e prazer.
Na hora da cama só conhece vertigem.
Mas quanto dura um dia?
Tanto quanto o amor, dizem uns.
Mas o amor vai embora cedo,
Antes que o amanhã e a morte se manifestem.
E quanto tempo dura o dia-a-dia?
Uns dizem desde sempre,
Mas começando quando?
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No mesmo instante em que pela primeira vez 
Os olhos se arregalaram e não viram tudo — 
Num não tão tarde quando, pela última vez,
O tempo durou não mais que um dia,
Um dia de adivinhar:
Por quanto tempo é permitido
Chamar de tanto o que é tão pouco?
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Laura Riding.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"É sempre bom lembrar... que a dor ocupa metade da verdade..."

"Copo Vazio", faixa do álbum "Gil Luminoso", de 2006
 gravada originalmente por Chico Buarque, em 1974, para o álbum "Sinal Fechado, a composição é do próprio Gil
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Ontem assisti "O Homem das Multidões", de Cao Guimarães e Marcelo Gomes. Se é sempre constrangedor observar pessoas levantando e abandonando um filme no meio da projeção, é absolutamente lindo que ao final dela alguns tipos de alma permaneçam com seus olhos marejados e seus silêncios.
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"Aqui tudo grita silenciosamente,
e, tirando o chapéu,
sinto-me encanecer
lentamente.
E eu próprio
sou um maciço grito sem som..."
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Ievgueni Ievtuchenko.

domingo, 20 de julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"tudo é muito eterno, só choramos por sermos condizentes..."

"Qualquer Coisa Que Brilhe", Adélia Prado
 programa Roda Viva, março de 2014
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Minha vida ganhou outros contornos quando aprendi a ler. Desde as primeiras palavras por meio das histórias em quadrinhos aos títulos exigidos na escola. Dos clássicos devorados no fim da adolescência aos livros de psicologia e filosofia. Todos, certamente, me disseram algo, contribuíram para um aprimoramento e enriquecimento não só cultural, mas sobretudo humano. No entanto, nenhum deles me ofereceu o entendimento, a beleza e a epifania que experimento através da POESIA. Não pretiro a prosa, absolutamente, mas é na poesia que eu encontro sentido e alivio para a rudeza do mundo, e o assombramento de viver.
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* * * 
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São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste,
a morte não ameaça, tudo é parado e vive,
num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu deus!
Que lugar perfeito!
Ainda que volta e meia alguém morra, tudo é muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
tanto mais que descubro:
Deus espera de mim o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
desde que abri meus olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui o meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso é único e não cintila.
Veio de vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.
Abba! Abba! Aceita o que me enoja,
gosma que me ocultou Teu rosto.
Vivo do que não é meu.
Toma pois minha vida
e não me prives mais
desta nova inocência que me infundes.
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Adélia Prado, in: Qualquer coisa que brilhe.
Miserere, Ed. Record, 2013.
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domingo, 6 de julho de 2014

"um abrangente e resumido aterro de sinônimos..."

Narcissus, after Caravaggio, Vik Muniz, 2005
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se o mundo não fosse
esse aterro de
máquinas
barbas
pilhas

débitos
prazos
e canetas
marca-texto

medos
dúvidas
e embalagens
tetrapak

se o mundo não fosse
um aterro de babacas
ou se o mundo não fosse
um abrangente
e resumido
aterro de sinônimos (...)
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Bruna Beber, Neighborhoods.
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quinta-feira, 19 de junho de 2014

"... porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/ y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/ y cuándo/ y cómo..."

... I Went to the Garden of Love I, Evelyn Williams,2000
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Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.
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Herberto Helder.
Tríptico II.
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quarta-feira, 18 de junho de 2014

"parecia que a alma toda se sacudia..."

View, Antony Gormley, 1985
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"Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e ainda assim, estava no mesmo lugar! Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas..."
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João Guimarães Rosa, in: Manuelzão e Miguilim.
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

"... Lá de fora é de dentro para quem olha..."

 Newman, Mark Rothko, 1949
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Esta vibração verde é uma planta envolta em ar
este verde é o ar que perfuma
este perfume é a linguagem da planta

Eu não sou nada
se não sou a planta 
o ar
a fragrância
e nada é nada
se não se vê que nada é nada
aqui
agora

Um menino brinca no gramado
escolhe uma árvore
outra
outra
vai de uma árvore até o meio do jardim
corre até outra árvore
até outra
volta ao centro

Um pássaro canta
e lá de fora
árvores menino e pássaro
não são isso

Lá de fora é 
de dentro
para quem olha como quem
luta
como quem
passa através de nenhum 
obstáculo

A prova mais dura
o salto que consiste em
ficar imóvel à margem da 
plenitude sem margens
que
(a plenitude)
não existe como imagem nem suporte

E então 
o menino chega até a árvore
e se entende que não havia pássaro cantando
que o canto era esse nome
que recebe esse ato
para quem está olhando como quem 
ama
como quem
vive
como quem
sabe que as árvores
a verde vibração
que é a planta
envolta em ar
o salvam de ser aquilo
que todo o resto insiste em dar-lhe
a partir de sapatos
mulheres
espetáculos
dias

O que olha é agora o olhado
mas o menino
escolhe novamente uma árvore
corre e retorna
e outra vez corre e volta

O olhado fica para lá
e o que olhava volta a ser aquele que olha

Até que algum dia quem sabe
Até que não haja retorno
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Julio Cortázar.
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sábado, 24 de maio de 2014

Um bom lugar para ler um livro?

 Philosopher Reading, Rembrandt, 1631
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"Acho que deveria começar a fazer alguma coisa, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos e não aconteceu praticamente nada. Recapitulemos: escrevi um estudo, ruim, sobre Carpaccio, um drama intitulado Casamento e que quer mostrar algo falso com recursos ambíguos, e versos. Ah, mas versos escritos cedo não são grande coisa! Deveríamos esperar para escrever, e juntar senso e doçura por uma vida inteira, longa, se possível, e então, bem no fim, talvez pudéssemos escrever dez linhas que fossem boas. Pois versos não são, como pensam as pessoas, sentimentos (deles temos o bastante na juventude) — são experiências. Por causa de um único verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como os pássaros voam e saber com que gestos  as pequenas flores se abrem pela manhã. É preciso ser capaz de recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas que vemos se aproximar por longo tempo... doenças de infância  que começam tão estranhamente, com tantas metamorfoses profundas e difíceis, dias em quartos quietos e reservados, e manhãs junto ao mar, sobretudo o mar, os mares, as noites de viagem que passavam ruidosamente e voavam com todas as estrelas — e ainda não é o bastante se precisamos pensar em tudo isso. É preciso ter lembrança de muitas noites de amor, todas diferentes entre si... Mas ainda não basta ter recordações. É preciso ser capaz de esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que retornem. Pois elas ainda não são as recordações mesmas. Apenas quando elas se tornam sangue em nós, olhar e gesto, anônimas e indistinguíveis de nós mesmos, só então poderá acontecer que numa hora muito rara se levante e saia do meio delas a primeira palavra de um verso..."
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Rainer Maria Rilke, in: Os Cadernos de Malte Laurids Brigge.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014

"e até o silêncio, se é possível o silêncio, havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo..."

The Flowers Series, Romualdas Rakauskas, 1970
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As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem que palavras?

E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma.
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Manuel António Pina.

domingo, 11 de maio de 2014

Possibilidades...

Hannah Höch, Da-Dandy, 1919
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Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas,
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
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Wisława Szymborska.
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

"Na significação, três coisas."

Three Studies for a Self-Portrait, Francis Bacon, 1976
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"Na significação, tal como ela é concebida desde os estóicos, há três coisas: o significante, o significado e o referente. Mas agora, se imagino uma lingüística do valor (entretanto, como edificá-la, permanecendo nós mesmos fora do valor, como edificá-la “cientificamente”, “lingüisticamente”?), essas três coisas que existem na significação não são mais as mesmas; uma é conhecida, é o processo de significação, domínio habitual da linguística clássica, que nele se detém, se mantém e proíbe que dele se saia, mas as outras o são menos. São a notificação (assento minha mensagem e assento meu ouvinte) e a assinatura (exibo-me, não posso evitar de me exibir). Por essa análise, não faríamos mais do que desdobrar a etimologia do verbo “significar”: fabricar um signo, fazer sinal (a alguém), reduzir-se imaginariamente a seu próprio signo, sublimar-se nele."
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Roland Barthes.
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sábado, 19 de abril de 2014

Música para curar a alma: Led Zeppelin

Stairway to Heaven, Ann & Nancy Wilson ft. Jason Bonham, Tributo a Led Zeppelin 
a música é faixa original do álbum Led Zeppelin IV, 1971
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

"porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão, não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra."

Gabriel García Márquez, 06/03/1927 - 17/04/2014
© foto de Isabel Steva Hernández (Colita), s.d
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"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza..."
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Gabriel García Márquez, in: Memória de Minhas Putas Tristes.
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"Todos, absolutamente todos estamos sós..."
 Assista a entrevista que Gabo concedeu à RTVE.es, em 1982.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

"O ingrediente secreto para o sexo é o amor."

The Ash Yggdrasil, Friedrich Wilhelm Heine, 1886
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Ninfomaníaca é, entre outras coisas, uma grande tiração de sarro (mais uma) do diretor Lars von Trier, com aqueles que previsivelmente classificariam o filme como "o primeiro pornô soft exibido em cinemas multiplex". 

Assim como a polifonia de Bach em justaposição com os amantes diletos de Joe, o filme louva a tríade que marca o "estilo" do cineasta: o pensamento estético e filosófico + o tragicômico + o lúdico. 

Ponto para quem mortificou-se mais com a cena da montanha e menos com a chuva de falos. 

domingo, 9 de março de 2014

"O desfolhar habitual das memórias é agora mais geral e também mais súbito..."

Noon on the Beach of Valencia, Joaquín Sorolla y Bastida, 1904
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"Há manchas de mar por vezes sobrepostas
à rusticidade doce da casa.
Mas um sentido rural que se demora
traz imagens tangíveis tão próximas
daquilo que para mim as coisas eram."
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Fiama Hasse Pais Brandão.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

A arte de esculpir o tempo...

Alain Renais, 03/06/1922 - 01/03/2014
© foto de Georges Pierre, 1961
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"O tempo é o pleno, quer dizer, a forma inalterável preenchida pela mudança. O tempo é a reserva visual dos acontecimentos em sua justeza."
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Gilles Deleuze, in: A Imagem-Tempo.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"É inútil sonhar que desfazendo o fio da tua teia, há de ser livre o andar."

Contrejour, Paris, Sabine Weiss, 1953
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jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de 
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que 
recuam
ausência frequentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta.
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Ana Cristina Cesar.
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