terça-feira, 3 de maio de 2011

O dulcíssimo peso...

The Embrace, Egon Schiele, 1917
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O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
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o peso
o peso que carregamos
é o amor.
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Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
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sai para fora do coração
ardendo de pureza -
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pois o fardo da vida
é o amor,
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mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
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Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
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o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
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Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
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sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
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Allen Ginsberg, in: Canção.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Correspondências: Vincent e Théo van Gogh

The Potato Eaters, Van Gogh, 1885
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E enquanto trabalho num quadro em que não se veem claridades de uma lâmpada à maneira de Dou¹ ou de van Schendel², talvez não seja inútil observar que uma das coisas mais belas dos pintores de nosso século foi pintar a obscuridade, que apesar de tudo é cor.
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Tenho esperança de que a pintura destes comedores de batata dará certo. Fora isto estou trabalhando num pôr de sol vermelho.
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Para pintar a vida do camponês, é preciso ser mestre em tantos temas. Que bom é isto sobre os personagens de Millet³: seu camponês parece ter sido pintado com a terra que semeia!
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[...] No que diz respeito aos comedores de batata, é um quadro que ficaria bem cercado de ouro, tenho certeza. Ficaria igualmente bem numa parede coberta por um papel que tivesse o tom profundo do trigo maduro.
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Caso ele não seja destacado do resto desta maneira, ele simplesmente nem deve ser visto.
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[...] As sombras foram pintadas com azul e uma cor dourada produz efeito sobre isto. Ontem eu o levei a Eindhoven na casa de um amigo que também pinta. Daqui a três ou quatro dias eu o terminarei lá, com um pouco de clara de ovo, e trabalharei ainda em certos detalhes... Como este amigo também trabalha a partir de modelos, ele também vê muito bem o que existe numa cabeça ou numa mão de camponês e, falando em mãos, ele me disse ter chegado a uma noção totalmente diferente de como fazê-las.
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Apliquei-me conscientemente em dar a ideia de que estas pessoas que, sob o candeeiro, comem suas batatas com as mãos, que levam ao prato, também lavraram a terra, e que meu quadro exalta portanto o trabalho manual e o alimento que eles próprios ganharam tão honestamente.
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Quis que ele fizesse pensar num modo de vida totalmente diferente do nosso, de gente civilizada. Assim, portanto, não desejo nem um pouco que todo mundo o ache nem sequer belo ou bom.
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[...] Mas quem preferir ver camponeses edulcorados que passe ao largo. Por mim, estou convencido que afinal obtêm-se melhores resultados pintando-os em sua rudeza que conferindo-lhes uma beleza convencional.
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Com sua saia e sua camisola azuis, cobertas de poeira e remendadas, e que sob o efeito do tempo, do vento e do sol tenham tomado os mais delicados matizes, uma camponesa é, na minha opinião, mais bonita que uma dama; que ela se vista como uma dama, e tudo que há de verdadeiro nela desaparece.
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[...] Se uma pintura de camponeses cheira a toucinho, a comida, a batatas, perfeito!
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VAN GOGH, Vincent. Cartas a Théo, Ed. L&PM, 2010.
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¹ Guerrit Dou, pintor barroco holandês do século XVII, discípulo de Rembrandt.
² Petrus van Schendal, pintor romântico belga do século XIX.
³ Jean-François Millet, pintor realista francês do século XIX .

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Amor em quatro atos...

Pink Lovers, Marc Chagall, 1916
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Parte: não te separas! Que jamais
Sairei de tua sombra. Por distante
Que te vás, em meu peito, a cada instante
Juntos dois corações batem iguais.
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Não ficarei mais só. Nem nunca mais
Dona de mim, a mão, quando a levante
Deixará de sentir o toque amante
Da tua, — ao que fugi. Parte: não sais!
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Como o vinho, que às uvas donde flui
Deve saber, é quanto faço e quanto
Sonho, que assim também todo te inclui
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A ti, amor! minha outra vida, pois
Quando oro a Deus, teu nome ele ouve e o pranto
Em meus olhos são lágrimas de dois.
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Elizabeth Barrett Browning.
Sonetos Portugueses, III.
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sábado, 23 de abril de 2011

De Drummond ficou muito...


"Tudo passa num minuto mesmo...", entrevista concedida à jornalista Leda Nagle, em 1980
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De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
vazio de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
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Carlos Drummond de Andrade, in: Resíduo.
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terça-feira, 19 de abril de 2011

Variações sobre um mesmo tema: o beijo tácito

In Bed The Kiss, Henri de Tolouse-Lautrec, 1892
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The Lovers, René Magritte, 1928
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The Stolen Kiss, Jean-Honoré Fragonard, 1780
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Rayograph, Man Ray, 1922
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The Taking of Christ or The Kiss of Judas, Caravaggio, 1602
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The Kiss, Théodore Géricault, 1822
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Le Baiser du Faune, Aimé-Jules Dalou, d.i.
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The Kiss, Edvard Munch, 1897
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The Kiss, Francesco Hayez, 1859
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The Kiss, Auguste Toulmouche, 1886
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The Kiss, Theophile Alexandre Steinlen, 1895
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The Kiss Bestowed, Jean Antoine Houdon, 1778
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Mother's Goodnight Kiss, Mary Cassat, 1888
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Two Figures, Francis Bacon, 1953
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The Kiss, Constantin Brancusi, 1916
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The Kiss, Gustav Klimt, 1907-1908
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Eternal Spring, Auguste Rodin, 1906-1907
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"E nesse beijo, amor, que eu te não dei..."
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Florbela Espanca.
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domingo, 10 de abril de 2011

O Ser e O Nada...

Nabucodonosor, William Blake, 1795
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(( Pessoas são mais importantes do que coisas ))
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Isso deveria virar slogan em outdoor.

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Teoriza-se muito sobre a automatização do cotidiano, o acesso a informação, o estilo de vida que exige cada vez mais tempo, resultados e a padronização do indivíduo; e suas influências na formação de uma sociedade com perfil misantrópico.
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Antes que Marshall McLuhan discutisse a interferência dos meios de comunicação na sociedade, Jean-Jacques Rosseau já havia proposto que as formas celulares de organização social nivelam e artificializam nosso modo de ser.
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Teorias, teorias, teorias... embasadas, legítimas, discutíveis, distintas, incompreensíveis, brilhantes, teorias.
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Talvez a existência seja mais simples, como quase sempre é, e só exista uma única regra básica: pessoas são mais importantes do que coisas!
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Não se pode imaginar que alguém tenha um desenvolvimento sádio, sem que lhe seja devotado tempo de qualidade, sem educação, sem afetividade, sem atenção, sem respeito, sem limites, sem exemplos, sem responsabilidades, sem bom senso e coerência.
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É imoral se furtar ou delegar a outros a responsabilidade de criar um repositório de valores na formação de uma pessoa.
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Embora não signifique a cura para os males do mundo, ainda assim é o antídoto mais eficaz contra a bestialização.
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"O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo."
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Jean Paul Sartre, in: O Existencialismo é um Humanismo.
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

"más allá de cualquier zona prohibida, hay un espejo para nuestra triste transparencia."

Female Posing, Ofey, pseudônimo de Richard Feynman, 1968
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"No sé cuando empecé a buscar a esa persona. No sé quién es esa persona. No la conozco. Es raro cómo y cuándo la busqué... Yo ya no soy yo, yo soy mis ojos. Busquen. Entre las hojas muertas, en los árboles filosos, en el sí y en el no, en el revés y el derecho, en un vaso de agua y en mi sed de siempre..."
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."Não sei quando comecei a buscar esta pessoa. Não sei mesmo quem é, não a conheço. É estranho como e quando a busquei... Eu já não sou eu mesma, sou meus olhos. Procurem. Entre as folhas mortas, entre as árvores filósofas, no sim e no não, no revés e no direito, em um copo de água e em minha sede de sempre".
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Diários de Alejandra Pizarnik.
Organização de Ana Maria Becciu, Ed. Lumen, 2003*.
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* Essa é uma edição espanhola, por uma dessas coisas 
inexplicáveis, 
a poesia de Alejandra nunca foi editada no Brasil. 
O livro pode ser encontrado na Amazon.com
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Soneto das vogais

"Voyelles", Arthur Rimbaud, 1871
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A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais, 
Ainda desvendarei seus mistérios latentes: 
A, velado voar de moscas reluzentes 
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais; 

E, nívea candidez de tendas areais, 
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes; 
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes 
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais; 

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos, 
Paz de verduras, pas dos pastos, paz dos anos 
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos; 

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos, 
Silêncios assombrados de anjos e universos; 
– Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos! 
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Arthur Rimbaud.
(Tradução de Augusto de Campos)
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domingo, 27 de março de 2011

Agenda: Fernando Pessoa, Fayga Ostrower, Galeria de Arte Brasileira do Século XIX...

"Fernando Pessoa, Plural como o Universo"
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O Centro Cultural dos Correios traz ao Rio de Janeiro, a obra do maior poeta da língua portuguesa do século XX (com todo respeito a Camões, Drummond, Bandeira...).
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“Fernando Pessoa, Plural como o Universo”, é uma celebração não só da vida e obra do escritor, como também da palavra. Pessoa está em toda parte, “ele mesmo” e seus “eus” em alguns de seus heterônimos mais conhecidos.
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Raridades também fazem parte da exposição, como a primeira edição do livro "Mensagem", único publicado por ele em vida, e que pode ser folheado virtualmente com o auxílio de um e-reader em tamanho família, os dois primeiros exemplares da "Revista Orpheu", edições da "Revista A Águia", onde publicou seus primeiros artigos, entre outras relíquias e publicações dedicadas a obra do escritor em diversos idiomas.
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Fernando Pessoa ocupa lugar privilegiado dentre tantas coisas que me falam ao coração. Se não pelo motivo que o tornou célebre, a literatura, tanto mais pela utilização, pela forma como apodera-se da linguagem e a torna tão íntima e pessoal.
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O apoderar-se aqui se manifesta na existência de tantos “eus”. O que causa assombro de prodigiosidade, o parir-se, o reinventar-se, o multiplicar-se em sujeitos singulares, heterônimos. Fugas?
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E se eu pudesse ser tudo o que quisesse, não por megalomania, mas por instinto de sobrevivência? Parte de mim divida em pequenas chagas e também pequenos antídotos. Poderia experimentar a dor de cada um, como a cura de um mal maior até quando me bastasse, e “o outro”, “o aquele”, absorveria-me, mas nunca ao ponto de ABSOLVER-ME. Não. Nunca. Eu sei.
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Por mais grandiloquente que fosse, no fim só seríamos eu e eu, eu e a melancolia, eu e uma série de espaços vãos e alguns despojos.

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Exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo"
Centro Cultural dos Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro
Ter à dom, das 12h às 19h
De 25 de Março à 22 de Maio
Entrada Franca

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Descanso do Modelo, Almeida Junior, 1882
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Depois de três anos fechada para reforma do espaço, modernização da expografia e restauração de pinturas, esculturas e mobiliário, o Museu Nacional de Belas Artes expõe ao público a “Galeria de Arte Brasileira do Século XIX”, o maior e mais importante acervo de arte brasileira.
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O espaço com mais de 2 mil m², mostra a evolução da arte produzida no país, esculturas e pinturas que passeiam por vários estilos, desde o romantismo, neoclassicismo, realismo, até os episódios históricos, retratos, natureza-morta, paisagens que caracterizam a arte oitentista. Trabalhos assinados por Almeida Junior, Debret, Nicolas-Antoine Taunay, Victor Meirelles, Rodolfo Amoedo, Pedro Américo, Rodolfo Bernardelli, Castagneto, Facchinetti, Zeferino da Costa, entre dezenas de artistas.
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A Primeira Missa, Victor Meirelles, 1860
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Cristo e a Mulher Adúltera, Rodolfo Bernardelli, 1888
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Más Notícias, Rodolfo Amoedo, 1895
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Exposição "Galeria de Arte Brasileira do Século XIX"Museu Nacional de Belas ArtesAv. Rio Branco, 199, CinelândiaTer à Sex, das 10h às 18h
Sáb, Dom e Feriados, das 12h às 17h

Ingressos: R$ 5,00 (e
ntrada franca aos domingos)
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Princesa Isabel e Conde d'Eu no exílio, © foto de P. Gavelle, 1919
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Algumas fotografias da família imperial brasileira em momentos cotidianos e históricos, como o período no exílio após a Proclamação da República, as comemorações pelo fim da Guerra do Paraguai e a Abolição da Escravatura, fazem parte da exposição “Retratos do Império e do Exílio”. As 150 fotografias expostas fazem parte de um acervo de 781 itens, registros de fotógrafos como Marc Ferrez, Revert Henry, Alberto Henschel, Otto Hess, Luiz Terragno, John Jabez Edwin Mayall e Félix Nadar, entre outros.
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Exposição "Retratos do Império e do Exílio"
Instituto Moreira Salles
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Ter à Sex, das 13h às 20h

Sáb, Dom e Feriados, das 11h às 20h
De 23 de Fevereiro à 29 de Maio
Entrada Franca

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Johnny Depp, © foto de Robert Wilson, 2006
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O trabalho de vanguarda do dramaturgo Robert Wilson, um dos principais nomes do teatro contemporâneo americano, pode ser visto em exposição no Instituto Moreira Salles até o dia 15 de maio.
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“Vídeo Portraits” são retratos de anônimos e celebridades interpretando personagens num formato que vai além da fotografia, e que liquidifica teatro, cinema, música e literatura. A série completa é composta por 150 retratos exibidos em telas de até 1,5 de altura e que variam de acordo com a cidade em que são expostos. Para a amostra do IMS foram escolhidos 14 videorretratos que mostram desde o artista chinês Zhang Huan à atriz francesa Jeanne Moreau.
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Exposição "Vídeo Portraits, de Robert Wilson"
Instituto Moreira Salles
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea

Ter à Sex, das 13h às 20h

Sáb, Dom e Feriados, das 11h às 20h

De 16 de fevereiro à 15 de maio
Entrada Franca

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"Ten Chi", Companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, © foto de Gert Weigelt, 2004
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Em plena atividade após a perda de sua idealizadora, em 2009, a Companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch apresenta o espetáculo “Ten Chi” no Teatro Municipal, entre os dias 05 e 07 de abril.
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“Ten Chi” que significa “Céu e Terra” foi criado por Pina Bausch em 2004. O espetáculo explora temas da cultura moderna japonesa com extrema delicadeza. Na ocasião, coreógrafa e bailarinos moraram por algumas semanas no Japão registrando aspectos do comportamento, hábitos e sutilezas daquele país.
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Companhia de Dança Tanztheater Wuppertal Pina Bausch - "Ten Chi"
Teatro Municipal 

Praça Marechal Floriano Peixoto, s/nº, Cinelândia
Dias 05, 06 e 07 de Abril às 20h
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Ingressos:
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Frisa e camarote: R$ 200,00 (por assento)
- Plateia e Balcão Nobre: R$ 200,00
- Balcão Superior: R$ 150,00
- Galeria: R$ 80,00

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Maternidade, Fayga Ostrower, 1950
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Fayga Ostrower é uma artista de características plurais, foi pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, ceramista, escritora e professora. Nascida na Polônia, em 1920, veio para o Brasil na década de 30, e foi aqui, no Rio de Janeiro, que faleceu em 2001.
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O trabalho de Fayga que transita entre o expressionismo figurativo e o abstracionismo, é revisitado em exposição que reúne 100 itens divididos em três segmentos. O primeiro, mostra trabalhos figurativos, entre eles, as gravuras feitas para o livro “O Cortiço”, de Aluísio de Abreu.
O segundo caracteriza-se pela passagem da figuração para a abstração. E o terceiro segmento, é totalmente abstracionista, onde vê-se uma inserção maior de cores em xilografias e serigrafias, dentre elas, as publicadas em “O Rio”, de João Cabral de Melo Neto.
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Lembrando que todos os itens da mostra pertencem ao Instituto Fayga Ostrower.
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8102, Fayga Ostrower, 1981
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8508 Crepúsculo Dourado, Fayga Ostrower, 1985
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Menino do Morro, Fayga Ostrower, 1947
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Exposição "Fayga Ostrower, Ilustradora"
Instituto Moreira Salles
Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea

Ter à Dom, das 13h às 20h

De 26 de março à 15 de maio
Entrada Franca

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"Ser uma coisa é não ser suscetível de interpretação".

Alberto Caeiro.
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quarta-feira, 23 de março de 2011

The violet eyes...

Elizabeth Taylor
27/02/1932 - 23/03/2011
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na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos
eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres
eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;
(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:
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(de atélogos e, cinzas)
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e.e. cummings.
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terça-feira, 15 de março de 2011

(( Inside ))

Model Near The Wicker Armchair, Edvard Munch, 1921
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Louvado seja Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete...
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Adélia Prado.

Trecho do poema "Bendito".
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quinta-feira, 10 de março de 2011

A vida sem mitificação...

 The Ecstasy of Saint Teresa (detail), Gian Lorenzo Bernini, 1652
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Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu...
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Rainer Maria Rilke, in: Elegias de Duíno.
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