segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"se a gente se dedica a recordar, quanto tempo sobra para a vida propriamente dita?"

Moacyr Scliar
23/03/1937 | 27/02/2011

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"De uma coisa posso me orgulhar, caro neto: poucos chegam, como eu, a uma idade tão avançada, àquela idade que as pessoas costumam chamar de provecta. Mais: poucos mantêm tamanha lucidez. Não estou falando só em raciocinar, em pensar; estou falando em lembrar. Coisa importante, lembrar. Aquela coisa de "recordar é viver" não passa, naturalmente, de um lugar-comum que jovens como você considerariam até algo meio burro: se a gente se dedica a recordar, quanto tempo sobra para a vida propriamente dita? A vida, que, para vocês, transcorre principalmente no mundo exterior, no relacionamento com os outros? Esse cálculo precisa levar em conta a expectativa de vida, precisa quantificar (como?) prazeres e emoções. É difícil de fazer, exige uma contabilidade especial que não está ao alcance nem mesmo das pessoas vividas e supostamente sábias. Que eu saiba, não há nenhum programa de computador que possa ajudar — e, mesmo que houvesse, eu não saberia usá-lo, sou avesso a essas coisas. Vejo-me diante de uma espinhosa tarefa: combinar muito bem a vivência interior, representada sobretudo pela recordação e pela reflexão, com a vivência exterior, inevitavelmente limitada pela solidão, pela incapacidade física, pelo fato de que tenho mais amigos entre os mortos do que entre os vivos. E, de novo, qual a fórmula adequada para essa combinação? Setenta por cento de vivência interior com trinta por cento de vivência exterior? Quarenta por cento de interior com sessenta por cento de exterior? O clássico meio a meio? Ou quem sabe quarenta e cinco por cento de cada — os dez por cento que sobram ficando reservados para aquele misterioso e indefinido território que não é nem interior nem exterior, mas que pode estar em cima, em baixo, ou em dimensão nenhuma?..."
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Moacyr Scliar, in: Eu Vos Abraço, Milhões.
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Para não arrefeceres...

The Quaker, Andrew Wyeth, 1976
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"… às vezes isso acontece com quem se nega ou se cala, com quem se guarda e se sepulta, vai desaparecendo sem remédio e chegamos a desacreditar que em verdade existisse ou se desse, tendemos a desconfiar incrivelmente de nossas percepções quando já são passado e não se veem confirmadas nem ratificadas desde fora por nada...

...é que não suportamos apenas as certezas, nem sequer as que nos convêm e reconfortam, não dizemos as que nos desagradam ou questionam, ou doem, ninguém quer se converter nisso, em sua própria dor, sua lança, sua febre."
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Javier Marías, in: Seu Rosto Amanhã, Vol 1: Febre e Lança.
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Single Woman...


"I Loves You Porgy",
Nina Simone, 1962
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Quando Nina Simone faleceu em 21 de abril de 2003, jazia com ela o fim de uma era das grandes divãs do jazz. Billy Holiday, Dina Washington, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald haviam de algum modo desbravado o sectarismo radical que não fazia questão de esconder-se atrás de eufemismos. Eram mulheres, negras, oriundas de famílias pobres e cantoras de jazz no período conturbado entre as décadas de 30 e 60.
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Algumas características as aproximam ou seria o universo jazzístico um meio fatídico? O fato é que Nina era megalomaníaca e irrascível demais para aceitar realidades que lhe fossem impostas. Não era introvertida como Ella ou autodestrutiva como Billy Holiday. Não que fosse de fácil trato, muito pelo contrário. Seu comportamento bipolar (mais tarde diagnosticado como esquizofrenia) rendeu-lhe uma mítica fama de “difícil”, “temperamental” e “aborrecida”.
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Nascida Eunice Kathleen Waymon, adotou o nome artístico para que pudesse cantar em clubes noturnos escondida dos pais. “Nina” veio do espanhol Niña e “Simone” de uma homenagem à atriz francesa Simone Signoret.
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Cantora de recursos inestimáveis, compositora, exímia pianista, foi também ferrenha ativista pelo movimento dos direitos civis. A música “Mississipi Goddamn” sobre o revoltante assassinato de quatro crianças negras numa igreja do estado do Alabama, em 1963, é considerada um hino anti-segregacional que notabilizou-a como uma espécie de musa de uma nova conscientização negra.
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A cantora gostava de pensar que era a encarnação de uma princesa egípcia. Aos súditos só cabe assentir. Nina Simone é rainha de qualquer dimensão visível e das invisíveis também


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Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
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Habitou-me um deus exigente,

que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,

Sopro de Orixá, c´est moi

Nina Simone.
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Donizete Galvão, in: Solilóquio de Nina Simone.
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre desintegrar-se...

Anna Pavlova, "The Dying Swan", de Camille Saint Saëns, 1925
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Parte do público frequentador de cinema certamente anseia por uma atmosfera que os mantenham em suas zonas de conforto. Afinal, "cinema é para divertir".
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O cineasta Darren Aronofsky não seria tão assertivo. Nenhum dos cinco filmes que dirigiu até hoje flertam com soluções de fácil digestão. "Pi", "Réquiem para um Sonho", "A Fonte da Vida", "O Lutador" e o recente "Cisne Negro", discorrem sobre um mesmo tema; dramas humanos em toda a sua visceralidade e exageros. O que se vê são trajetórias marcadas por algum excesso, por alguma danação que nos torna tão humanos e improváveis.
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Algumas pessoas presentes à exibição de "Cisne Negro", há um par de dias, pareciam desconhecer essa predileção de Aronofsky pela via crucis do corpo.
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Nina Sayers é uma bailarina que se divide entre a rotina árdua da profissão e uma relação castradora com a mãe. A companhia de dança a qual faz parte, planeja encenar uma versão de "O Lago dos Cisnes", de Tchaikovsky. Nina é escolhida, com restrições, para o papel principal. Seu comportamento reprimido e a obsessão pela perfeição a qualificam para viver Odete, o virginal e convencional Cisne Branco, ao ponto que esbarra na sensualidade e despudor exigidos na composição de Odile, o Cisne Negro.
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Interpretações literais são quase sempre limitantes. Talvez tenham sido elas a causar reações desconfortáveis na sala de exibição e a criar inúmeras opiniões sobre o filme.
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"Cisne Negro" não é sobre o mundo do balé clássico, sobre dicotomias óbvias ou demonstrações do nosso descontrole ante situações extremas.
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Via crucis do corpo, recordam-se? O sacrifício da vez se manifesta na desintegração psicológica da personagem. O antagonismo dos cisnes é um aforismo à destruição dos "sistemas" que mantém qualquer um de nós em equilíbrio.
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A realidade asfixiante de um ambiente profissional competitivo e da relação com a mãe, não são causa, e sim, efeito. Eles apenas agitam, principiam o processo confuso que é a perda do discernimento. O filme se mostra impecável ao retratar o quão é excruciante essa deterioração dos sentidos. A exata percepção de quem não separa mais o real, do ficcional.

Para tanto, Aronofsky faz uso de farta referência psicanalítica, sobretudo no que concerne a imagem constante de sua anti-heroína refletida em espelhos. A duplicidade do sujeito é referida por Freud e explicitada por Lacan, que observou que a constituição do ser humano está marcada pela imagem especular, a partir da qual ele se estrutura e se aliena, pois nos reconhecemos inicialmente em uma imagem que não corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos.

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O próprio conceito de inconsciente carrega consigo a marca dessa divisão estrutural e da constante alienação do sujeito a esse algo que ele desconhece. "Quem sou?". A questão vai além da aparência, do conceito narcísico; por detrás da imagem produzida pelo espelho, alinha-se a busca incessante da verdadeira identidade do ser.
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A personagem (vivida excepcionalmente pela atriz Natalie Portman), passa todo o filme numa busca delirante por essa identidade já fragmentada e débil, odisséia que alcança o seu clímax no momento derradeiro em que ela atinge a "perfeição".
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"Cisne Negro" possui a grande virtude de transportar-nos para além da experiência visual. Como visitar o caos da desintegração psicológica sem experimentar o claustro, o desconforto, a alucinação ou a histeria?
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Cinema pode ser sensorial, metafísico e transcendente.
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"O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – então percebeu o seu mistério.
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....descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro – e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante – nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água."
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Clarice Lispector.
Trecho do conto "Os Espelhos".
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Resiliências...

Summer Interior, Edward Hopper, 1909
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Com o tempo as pessoas se recuperam de qualquer coisa. Dizem que eu sempre estou bem-disposta, e têm razão. Graças a Deus, estou.
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... Contudo, sem ser mórbida e mexendo nas lembranças, devo confessar que vejo nisto alguma coisa de triste na vida. Não me refiro à tristeza que todos nós conhecemos, como a doença, a pobreza e a morte. Não, é algo diferente. É lá no fundo, bem no fundo, faz parte da gente, como a respiração. Por mais que trabalhe, por mais que me canse, basta parar para sentir que essa coisa está lá, esperando. Muitas vezes eu me pergunto se todo mundo sente do mesmo jeito. Nunca se pode saber. Mas não é extraordinário que dentro de seu canto alegre, doce, tudo o que eu ouvia era: tristeza? Ah, o que é isto?
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Katherine Mansfield.
Trecho de “O Canário”, do livro Felicidade e Outros Contos.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Agenda: Nise da Silveira, Escher, Cora Coralina, Andy Warhol e Nara Leão

Doce Aninha, Cora Coralina, 1889-1985
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Blog retornando do período de férias em boas companhias. Agende-se...
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Os 25 anos de falecimento da poetisa e contista Cora Coralina são lembrados em exposição no CCBB. Entre os objetos pessoais expostos, encontram-se manuscritos, cartas, livros, fotografias e o caderno de receitas da escritora.
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Doceira de profissão, Cora começou a escrever aos 14 anos, mas só publicou seu primeiro livro ("O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais") aos 76 anos de idade. Sua obra é marcada pela doçura e singeleza das pequenas narrativas cotidianas.
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Exposição "Cora Coralina, Coração do Brasil"
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro
Ter à Dom, das 9h às 21h
De 11 de janeiro à 13 março
Entrada franca

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Warhol Multimídia, Andy Warhol, 1928-1987
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Andy Warhol é conhecido fundamentalmente por sua produção nas artes plásticas, expressão máxima da Pop Art. Ao menos era essa a única referência que tinha conhecimento. Para os desavisados como eu, o Espaço Oi Futuro apresenta a exposição “Warhol TV”, reunião de sua obra exclusiva para a televisão. São filmes, programas para canais a cabo, entrevistas, e videoclipes feitos em meados dos 60 e nas duas décadas seguintes. Entre os vídeos mais interessantes está “Screen Test” feito por Warhol com Marcel Duchamp, em 1966.
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Exposição "Warhol TV"
Espaço Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 6, Flamengo
Ter à Dom, das 11h às 20h
De 2 de fevereiro à 3 de abril
Entrada franca

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"A rosa triste que vivia fechada se abriu ao ver a banda passar",
Nara Leão, 1942-1989

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Parte da carreira e da vida da cantora Nara Leão são temas do espetáculo musical “Nara”.
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A peça, apresentada em ordem cronológica, mostra passagens biográficas, bem como as parcerias musicais que deram origem à Bossa Nova. A trilha sonora é composta por 20 músicas, dentre elas, “Opinião”, “Insensatez”, “Diz Que Fui Por Aí”, “A Banda” e “Com Açúcar, Com Afeto”.
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Espetáculo "Nara"
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro I
Qui à Dom, às 19h30
De 02 de janeiro à 27 de fevereiro
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

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"Não me atrevo a definir a loucura", Nise da Silveira, 1905-1999
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O legado incontestável da Dra. Nise da Silveira, é contado em espetáculo multimídia que reúne teatro, cinema, música, fotografia e dança.

“Nise da Silveira: Senhora das Imagens”
faz um apanhado dos acontecimentos marcantes da vida da mulher que revolucionou o tratamento psiquiátrico que se fazia no Brasil na década de 40. Métodos invasivos e agressivos usuais no atendimento de portadores de transtornos mentais, deram lugar a valorização do contato afetivo e à terapias ocupacionais por meio da pintura, desenho, escultura e modelagem.
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Exposição "Nise da Silveira: Senhora das Imagens"
Espaço Caixa Cultural
Av. Almirante Barroso, 25, Centro
Qua à Sáb, às 19h
De 11 de fevereiro à 26 de fevereiro
Sessão extra no dia 15 de fevereiro em homenagem ao nascimento da Dra.Nise, às 20h
Ingressos: 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)
Classificação: 16 anos
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Revolução pela Arte, Raphael Domingues, Sem título, 1948
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Raphael Domingues Filho foi interno do Hospital Psiquiátrico Pedro II, hoje Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, onde frequentou as oficinas de artes plásticas do Setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação.
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Alguns de seus trabalhos e de outros artistas, integram o acervo do "Museu de Imagens do Inconsciente" idealizado e inaugurado pela Dra. Nise em maio de 1952.
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Iludindo os Sentidos, Maurits Cornelis Escher, 1898-1972
Three Worlds, 1955

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Depois da grande exposição que foi Islã, o CCBB volta-se ao ocidente, mas precisamente às artes gráficas. “O Mundo Mágico de Escher” mergulha no universo cheio de perspectivas e estruturas inverossímeis do artista holandês Mauritis Cornelis Escher.
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A mostra reúne mais de 90 obras, entre gravuras originais e desenhos, além de um filme em 3D e de instalações. Parte da produção prolífica de quem fez mais de 400 litografias, xilografias e gravuras em madeira, e mais de 2000 desenhos e esboços.
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Maior que a técnica que transita por traços ascendentes e descendentes, grupos de combinações isométricas, relatividade, luz e sombra; está a sua paixão pelo reflexo, pela multiplicação e pela ilusão, evidentes na divisão regular do plano em figuras geométricas que se transfiguram, se multiplicam e se refletem por camadas de pavimentações. E se tudo soa lúdico demais, ele vem e preenche as superfícies com a realidade de figuras concretas, perceptíveis e existentes na natureza.
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Exposição "O Mundo Mágico de Escher"
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Centro
Ter à Dom, das 9h às 21h
De 18 de janeiro à 27 de março
Entrada franca

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Day & Night, M.C. Escher, 1938
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Concentric Rinds, M.C. Escher, 1953
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Inside St. Peter's, M.C. Escher, 1935
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Bond of Union, M.C. Escher, 1956
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"Recria tua vida
sempre, sempre
Remove pedras e
planta roseiras
e faz doces.
Recomeça..."
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Cora Coralina, in: Aninha e suas pedras, 1981.
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Introspectiva[mente]

Melancholy, Edgar Degas, 1874
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Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
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Clarice Lispector, in: Correspondências.
Carta enviada a Fernando Sabino em 05 de outubro de 1953.
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Variações sobre um mesmo tema: Cupido e Psiquê

Cupid and Psyche as Children, William Bouguereau, 1890
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O mito da princesa mortal que transformou-se em deusa e cuja beleza despertou o ciúme de Vênus e o amor de seu filho, Cupido, foi contada pela primeira vez pelo escritor romano Lúcio Apuleio, em “O Asno de Ouro”, século II d.C. Desde então, vem sendo retratado por vários artistas, da antiguidade ao período neoclássico.
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Pode-se dizer, que os aspectos mitológicos, alegóricos e de fábula, conferem ao mito tamanha empatia, mas que talvez seu maior atrativo, seja mesmo o ideal de amor. Seja ele qual for.

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Cupid and Psyche Studying Butterfly, Antonio Canova, 1808

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Cupid and Psyche Studying Butterfly (Detail), outra escultura de Canova, "Psyche Revived by the Kiss of Love", possivelmente a mais famosa representação de Cupido e Psiquê, já ilustrou o blog no post "O que está por trás daquilo que você não vê?!"

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Psyché et L'Amour, François Gérard, 1798

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Cupid, Antoine-Denis Chaudet, 1802-1807
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Cupid With a Bow, François-Joseph Bosio, 1808
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Cupid and Psyche, Paul Baudry, 1892

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Cupid Making a Bow Out of the Club of Hercules, Admé Bouchardon, 1750
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Amor and Psyche, Bertel Thorvaldsen, 1807

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Cupid, Etienne Maurice-Falconet, 1757

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The Abduction of Psyche, William Bouguereau, 1895

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Cupid and Psyche, Edvard Munch, 1907

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Cupid and Psyche, Claude-Augustin Cayot, 1706

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Psyché et l’Amour Endormi, Peter Paul Rubens, 1636

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Love Conquers All, Caravaggio, 1601-1602

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Triumph of Cupid and Psyche, Giulio Bonasone, 1560

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Le Mariage de Psyché et de L'Amour, François Boucher, 1744
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Eros and Psyche, Reinhold Begas, 1870
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Cupid and Psyche, Jacques-Louis David, 1817

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Cupid and Psyche, Auguste Rodin, 1893

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Sleeping Cupid, Caravaggio, 1608

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Cupid Revives Psyche, Bertel Thorvaldsen, 1810

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Cupid and Psyche, Orazio Gentileschi, 1628-1630

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"Amor vincit omnia..."
Virgílio.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Ser e o Devir.

Ensaio "Pele Preta", © foto de Maurren Bisilliat, 1966
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É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir –
Um qualquer que não este por ser este –
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir, não nós ou o mundo –
Mas existir em si?
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Fernando Pessoa.
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Todo o tempo é irredimível. O que poderia ter sido é uma abstração."

The Persistence of Memory (Detail), Salvador Dalí, 1931
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As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Pode apenas morrer. As palavras, após a fala, alcançam
O silêncio. Apenas pelo modelo, pela forma,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio sempre estiveram lá
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
Estalam e muitas vezes se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem quedar-se quietas.
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T.S. Elliot, in: Burnt Norton (trecho).
Primeiro poema de "Four Quartets".

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sábado, 27 de novembro de 2010

"como é que consegue, todos os dias e todas as horas, ser tão exatamente a mesma?"

The Hours, Philip Glass, por Branka Parlic
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Ela espia o relógio sobre a mesa. Passaram-se quase duas horas. Ainda se sente vigorosa, embora saiba que no dia seguinte talvez olhe para o que escreveu e ache tudo aéreo. Descomedido. É sempre melhor o livro que se tem na cabeça do que aquele que se consegue pôr no papel. Toma um gole do café frio e se permite ler o que escreveu até o momento.
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Parece bom o bastante; certos trechos parecem bem bons. Ela nutre esperanças fartas, é claro – quer que esse seja seu melhor livro, aquele que finalmente fará jus a suas expectativas. Mas será que um único dia na vida de uma mulher comum pode conter o suficiente para um romance?
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[...]
Virgínia larga a caneta. Gostaria de escrever o dia todo, de encher trinta páginas, em vez de três, mas, após as primeiras horas, alguma coisa lá dentro falha e ela receia, caso ultrapasse os limites, prejudicar toda a empreitada. Receia se perder num reino de incoerências, do qual talvez nunca mais retorne.
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Michael Cunningham, in: As Horas.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Teoria do caos.

La Guerre, James Pradier, 1840-41
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"Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente". ¹
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La Prudence et la Justice, James Pradier, 1840-41
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A matemática é ingenuamente fácil:
Onde existe negligência de direitos, instalam-se o caos e a intolerância.

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O antídoto é dicotômico.
Em doses homeopáticas, claro.
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La Sagesse et l'Eloquence, James Pradier, 1840-41
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"A violência é por natureza instrumental; como todos os meios, ela sempre depende
da orientação e da justificação pelo fim que almeja. E aquilo que necessita de
justificação por outra coisa não pode ser a essência de nada." ²
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Hannah Arendt, in: Sobre a Violência ²
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