Susan Sontag at Petra, Jordan, Annie Leibovitz, 1994
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Pensamento dando para pensamento Faz de alguém um olho. Um é a mente cega-de-si, O outro é pensamento ido Para ser visto de longe e não sabido. Assim se faz um universo brevemente. A
suposição imensa nada em círculos,
E cabeças ficam mais
sábias
Enquanto notam a grandeza,
E a dimensão
imbecil
Espaça a Natureza, E
ouvidos reportam primeiro os ecos,
Depois os sons, distinguem
palavras
Cujos sentidos chegam por último ─ Vocabulários
jorram das bocas
Como por encanto.
E assim falsos
horizontes se ufanam em ser
Distância na cabeça
Que a
cabeça concebe lá fora. O
maravilhar-se, que escapa dos olhos,
Regressa a cada lição.
O
tudo, antes segredo,
Agora é o conhecível,
A vista da
carne, a grandeza da mente. Mas
e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo
simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao
prever em si, de repente demais,
A visão evidente
demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mudamente
atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável. . Laura Riding. .
The Melancholic Temperament, Virgil Solis, 1530-1562
. . . Minha alma teve um árduo, longo dia e está cansada e procura para si o esquecimento. Ai! que no mundo não há lugar para uma alma encontrar o seu esquecimento, o escuro perfeito de sua paz, pois o homem matou o silêncio da terra e violentou cada lugar de esquecimento e paz, onde os anjos costumavam pousar. . D. H. Lawrence. .
. . . «Quando me dizes "Vem!" já eu parti e já estou tão próximo de ti que sou eu quem me chama e quem te chama e é o meu amor que em ti me ama. Se me olhas sou eu que me contemplo longamente através do teu olhar e moro em ti e sou eu o lugar e demoro-me em ti e sou o tempo. Eu sou talvez aquilo que me falta (a alma se sou corpo, o corpo se sou alma) em ti, e afogo-me na tua vida como na minha imagem desmedida: Sol, Lua, água, ouro, horizontalidade, concordância, indiferente ordem da infância, união conjugal, morte, repouso.» . Manuel António Pina. .
Les Jardins du Champs de Mars, Robert Doisneau, 1944
. . Recomeçar é verbo que conjugo cada dia que morre e já não volta, enquanto, neste mundo, houver crepúsculo, e após a alva noite, estrela d'alva. Recomeçar criança o velho jogo de sombra e sol, na zona de luz negra, onde rasuro versos, reescrevo muito depressa com mindinha letra. Recomeçar a obra grande que liberta ao fim de muitas noites de relento, enquanto, neste mundo, houver um só poeta e, dentro do poema, nenhum teto. Recomeçar até não haver mais início, onde ir buscar pontos finais. António Barahona. .
É absolutamente legítimo, até mesmo necessário que, conscientemente ou não, alicercemos mecanismos de autodefesa. Mas é ainda melhor quando prescindimo-nos parcial ou totalmente deles com a mais absoluta naturalidade. Algo acerca de confiança e, sobretudo, um sentimento pacífico de que suas vulnerabilidades não se voltarão contra você.É uma dádiva.
Café Müller, Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, de 1978
cena extraída do filme "Pina", direção de Wim Wenders, 2011
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Eu-te-amo. A figura não se refere à declaração de amor, à confissão, mas ao repetido proferimento do grito de amor.
Eu-te-amo não tem nuanças. Dispensa as explicações, as organizações, os graus, os escrúpulos. De uma certa forma - paradoxo exorbitante da linguagem -, dizer eu-te-amo é fazer como se não existisse nenhum teatro da fala, e é uma palavra sempre verdadeira (não tem outro referente a não ser seu proferimento: é um performativo).
(Embora seja dito milhões de vezes, eu-te-amo não está no dicionário; é uma figura cuja definição não pode exceder o título.)
A palavra (a palavra-frase) só tem sentido no momento em que eu a pronuncio: não há nela outra informação a não ser seu dizer imediato: nenhuma reserva, nenhum depósito do sentido. Tudo está no lançamento: é uma "fórmula", mas essa fórmula não corresponde a nenhum ritual; as situações em que digo eu-te-amo não podem ser classificadas: eu-te-amo é irreprimível e imprevisível.
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Roland Barthes, in: Fragmentos de um Discurso Amoroso.
"Tudo está ainda mais incerto, mas sinto que agora alcancei um estado de tranquilidade interior: enquanto pudermos controlar nossos números telefônicos e não houver ninguém para atender continuaremos os três a correr para a frente e para trás ao longo destas linhas brancas, sem lugares de partida ou de chegada que façam pairar aglomerados de sensações e significados por sobre a univocidade de nossa corrida, libertos finalmente da espessura estorvadora de nossas pessoas e vozes e estado de espírito, reduzidos a sinais luminosos, único modo de ser apropriado a quem quer se identificar ao que está dizendo sem o zumbido deformante que a nossa presença ou a alheia transmite ao que dizemos.
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Verdade que o preço a ser pago é alto, mas temos que aceitá-lo: não podemos nos distinguir dos muitos sinais que passam por este caminho, cada um com um significado seu que permanece escondido e indecifrável, pois fora daqui não há mais ninguém capaz de nos receber e de nos entender."
. . . Eu também não gosto dela: há coisas bem mais importantes que [toda esta frioleira. Lendo-a, porém, com um profundo desprezo por ela, a gente descobre nela, de qualquer modo, um lugar para o que é genuíno. Mãos que podem reter, olhos que podem se ampliar, cabelos que podem se eriçar se for preciso, essas coisas são importantes, não porque uma altissonante interpretação lhes possa ser dada mas porque são utéis. Quando elas começam a derivar a ponto de se tornarem ininteligíveis, a mesma acusação pode ser feita a nós outros, que não admiramos o que não podemos entender: o morcego pendente de cabeça para baixo ou à procura de algo para comer, elefantes se empurrando, um cavalo selvagem rolando, um lobo [incansável sob uma árvore, o crítico imóvel com arrepios na pele como um cavalo que [sente uma pulga, o torcedor de baseball, o técnico em estatística... E nem vale o argumento para discriminar entre "documentos profissionais e livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes. É preciso fazer [uma distinção, porém: quando arrastada à fama por meios-poetas, o resultado [não é poesia, a menos que os poetas entre nós possam ser "interprétes rigorosos da imaginação" - acima de insolência e trivialidades e que possam apresentar para inspeção, jardins imaginários contendo rãs verdadeiras; então [nós a teremos encontrado. Neste ínterim, se você exige para uma mão o rude material da poesia em toda a sua rudeza e para o que está na outra mão legitimidade, então você se interessa por poesia. . . Marianne Moore. . .
. . . era um poema lateral aos sentidos. ganhava formato ébrio ao nem ser escrito. longe dos pensamentos imitava uma pedra [aí as palavras drummondeavam]. longe das lógicas – com tendência vagabunda – o poema driblava lados avessos de noites e animais [aqui as sílabas manoelizam, barrentas]. mas uma estrela nunca brilha tão solitária; encarece-se também de luuandinar, miar à couto, esvair-se para guimarães... era um poema carente de afetar-se a ramos gracilianos. assim alcançava o estatuto de raiz. cheirado, emitia brilhos tímidos – fosse um pirilampo. . Ondjaki. .
Portrait of the Marquise de Pompadour, François Boucher, 1756
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"Depois dessa crença central que, durante a minha leitura executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pela ação em que tomava parte, porque aquelas tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler; é verdade que as personagens por eles afetadas não eram "reais", como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem experimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar. Se é atingido por uma infelicidade, só numa pequena parte da noção total que dele temos é que podemos comover-nos com isso; muito mais ainda, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si é que ele mesmo poderá comover-se. O achado do romancista foi ter a idéia de substituir essas partes impenetráveis á alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as ações, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tornamos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantém sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar? E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, toda a emoção é decuplicada, estado em que o seu livro nos vai perturbar à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos a dormir, e cuja lembrança irá durar mais tempo, então, eis que ele desencadeia em nós durante uma hora todas as felicidades e todas as infelicidades possíveis, algumas das quais levaríamos anos de vida a conhecer, e as mais intensas das quais nunca nos seriam reveladas, porque a lentidão com que se produzem nos retira a percepção delas (assim, na vida, o nosso coração muda, e essa é a pior dor; mas só na leitura, em imaginação, a conhecemos: na realidade ele muda, como certos fenômenos da natureza se produzem, com suficiente lentidão para que, se pudermos detectar sucessivamente cada um dos seus estados diferentes, em contra-partida nos seja poupada a própria sensação de mudança."
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Marcel Proust, in: Em Busca do Tempo Perdido, No Caminho de Swann. . .
. . . A memória é uma ilha de edição - um qualquer passante diz, em um estilo nonchalant, e imediatamente apaga a tecla e também o sentido do que queria dizer. . Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser levado junto de roldão. Onde e como armazenar a cor de cada instante? Que traço reter da translúcida aurora? Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas? O perfume, acaso, daquela rosa desbotada? . A vida não é uma tela e jamais adquire o significado estrito que se deseja imprimir nela. Tampouco é uma estória em que cada minúcia encerra uma moral. Ela é recheada de locais de desova, presuntos, liquidações, queimas de arquivos,divisões de capturas, apagamentos de trechos, sumiços de originais, grupos de extermínios e fotogramas estourados. Que importa se as cinzas restam frias ou se ainda ardem quentes se não é selecionada urna alguma adequada, seja grega seja bárbara, para depositá-las? . Antes que o amanhã desabe aqui, ainda hoje será esquecido o que traz a marca d'água d'hoje. . Hienas aguardam na tocaia da moita enquanto os cães de fila do tempo fazem um arquipélago de fiapos do terno da memória. Ilhotas. Imagens em farrapos dos dias findos. Numerosas crateras ozonais. Os laços de família tornados lapsos. Oco e cárie e cava e prótese, assim o mundo vai parindo o defunto de sua sinopse. Sem nenhuma explosão final. . Nulla dies sine linea. Nenhum dia sem um traço. Um, sem nome e com vontade aguada, ergue este lema como uma barragem anti-entropia. . E os dias sucedem-se e é firmada a intenção de transmudar todo veneno e ferrugem em pedaço do paraíso. Ou vice-versa. Ao prazer do bel-prazer, como quem aperta um botão da mesa de uma ilha de edição e um deus irrompe afinal para resgatar o humano fardo. . Corrigindo: ......................o humano fado. . . Waly Salomão, in: Carta Aberta a John Ashbery. .
. . . O curso de um dia nunca é constante. As horas experimentam dor e prazer. Na hora da cama só conhece vertigem. Mas quanto dura um dia? Tanto quanto o amor, dizem uns. Mas o amor vai embora cedo, Antes que o amanhã e a morte se manifestem. E quanto tempo dura o dia-a-dia? Uns dizem desde sempre, Mas começando quando? . No mesmo instante em que pela primeira vez Os olhos se arregalaram e não viram tudo — Num não tão tarde quando, pela última vez, O tempo durou não mais que um dia, Um dia de adivinhar: Por quanto tempo é permitido Chamar de tanto o que é tão pouco? . Laura Riding. .
"Copo Vazio",faixa do álbum "Gil Luminoso", de 2006
gravada originalmente por Chico Buarque, em 1974, para o álbum "Sinal Fechado, a composição é do próprio Gil
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Ontem assisti "O Homem das Multidões", de Cao Guimarães e Marcelo Gomes. Se é sempre constrangedor observar pessoas levantando e abandonando um filme no meio da projeção, é absolutamente lindo que ao final dela alguns tipos de alma permaneçam com seus olhos marejados e seus silêncios.
"Qualquer Coisa Que Brilhe", Adélia Prado programa Roda Viva, março de 2014
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Minha vida ganhou outros contornos quando aprendi a ler. Desde as primeiras palavras por meio das histórias em quadrinhos aos títulos exigidos na escola. Dos clássicos devorados no fim da adolescência aos livros de psicologia e filosofia. Todos, certamente, me disseram algo, contribuíram para um aprimoramento e enriquecimento não só cultural, mas sobretudo humano. No entanto, nenhum deles me ofereceu o entendimento, a beleza e a epifania que experimento através da POESIA. Não pretiro a prosa, absolutamente, mas é na poesia que eu encontro sentido e alivio para a rudeza do mundo, e o assombramento de viver.
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São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste,
a morte não ameaça, tudo é parado e vive,
num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu deus!
Que lugar perfeito!
Ainda que volta e meia alguém morra, tudo é muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
tanto mais que descubro:
Deus espera de mim o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
desde que abri meus olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui o meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso é único e não cintila.
Veio de vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.