sábado, 2 de março de 2013

A sagração da primavera...

Le Sacre Du Printemps, Pina Bausch, © Maarten Vanden Abeele
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"Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas (...) quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne (...) tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão. Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto que em mim se prepara (...) há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. Que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria." 
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Clarice Lispector, in: A Descoberta do Mundo.
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Agenda: Adriana Varejão, William Kentridge e XXI Filmes Franceses Contemporâneos

Drawing from Stereoscope, William Kentridge, 1998-99
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Última chamada para conferir a exposição "William Kentridge: fortuna". O público tem até o próximo domingo para ver os 38 desenhos, 184 gravuras, 10 esculturas, 27 filmes e animações, além de seis séries inéditas.
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William Kentridge é sul africano e um dos maiores animadores em atividade. Entre os destaques da mostra, realizada pela parceria entre o Instituto Moreira Salles, a Fundação Iberê Camargo e a Pinacoteca de São Paulo, estão os dez filmes da série Drawings for Projection. Do Rio a exposição segue para Porto Alegre e São Paulo.
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Drawing for the film Sobriety, Obesity & Growing Old, (Her Absence Filled the World), William Kentridge, 1991
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History of the Main Complaint, William Kentridge, 1996
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Drawing for the film Felix in Exile, William Kentridge, 1994
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Drawing for the film Monument (Harry, Close Up of Head and Load), William Kentridge, 1990
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 Cambio, William Kentridge, 1999
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A Poem I used to Know, William Kentridge, 2012
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Exposição William Kentridge: fortuna
Instituto Moreira Salles

Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Ter à Dom, das 11h às 20h
De 24 de Outubro de 2012 à 17 de Fevereiro de 2013
Entrada franca.

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Ervas Daninhas, Alain Resnais, 1999
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A mostra "XXI Filmes Franceses Contemporâneos - 2ª edição", começa a partir do dia 19,  na Caixa Cultural, reunindo clássicos e produções recentes, bem como filmes de pouca ou quase nenhuma circulação no país.
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Programação:
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Terça-feira - 19/02
15h – A filha do juiz, de William Karel (França, 2006, 90min, digital, 14 anos)
17h – Encontros para a conquista, de Euzhan Palcy (França, 1994/2006, 57min, digital, 14 anos)
19h – Comédia do poder, de Claude Chabrol (França/Alemanha, 2005, 110min, 35mm, 10 anos)
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Quarta-feira - 20/02
15h – Claude Lévi-Strauss por ele mesmo, de Annie Chevallay e Pierre-André Boutang (França, 2008, 93 min, digital, 14 anos)
17h – A força de olhar o amanhã, de Euzhan Palcy  (França, 1994/2006, 52min, digital, 14 anos).
19h – Crônica da inocência, de Raoul Ruiz (Franca, 2001, 100min, 35mm, 16 anos)
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Quinta-feira - 21/02
15h – A Travessia, de Elizabeth Leuvrey (França, 2006, 55 min, digital, 14 anos)
17h – Percursos de dissidentes, de Euzhan Palcy (França, 2006, 88 min, digital, 14 anos)
19h – A Riviera não é aqui, de Dany Boon (França, 2008, 106min, digital, 12 anos)
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Sexta-feira - 22/02
15h – Crônica da inocência, de Raoul Ruiz (Franca, 2001, 100min, 35mm, 16 anos)
17h – 7 anos, de Jean-Pascal Hattu (França, 2007, 86min, digital, 16 anos)
19h – Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache (França, 2011, 112min, 35mm, 14 anos)
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Sábado - 23/02
15h – A comédia do poder, de Claude Chabrol (França/Alemanha, 2005, 110min, 35mm, 10 anos)
17h – A professora de piano, de Michael Haneke (França/Áustria, 2001, 131min, digital, 18 anos)
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Domingo - 24/02
15h – A outra, de Patrick-Mario Bernard e Pierre Trividic (França, 2009, 97 min, digital, 14 anos)
17h – O escafandro e a borboleta, de Julian Schnabel (França/EUA, 2007, 112min, digital, 10 anos)
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Terça-feira - 26/02
15h – Percursos de dissidentes, de Euzhan Palcy (França, 2006, 88 min, digital, 14 anos)
17h – A travessia, de Elizabeth Leuvrey (França, 2006, 55 min, digital, 14 anos)
19h – O tempo que resta, de François Ozon (França, 2005, 85min, 35mm, 16 anos)
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Quarta-feira - 27/02
15h – Encontros para a conquista, de Euzhan Palcy (França, 1994/2006, 57min, digital, 14 anos)
17h – A filha do juiz, de William Karel (França, 2006, 90min, digital, 14 anos)
19h – Film socialisme, de Jean-Luc Godard (França, 2008, 102 min, 35mm, 14 anos)
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Quinta-feira - 28/02
15h – A outra, de Patrick-Mario Bernard, Pierre Trividic (França, 2009, 97 min, digital, 14 anos)
17h – A força de olhar o amanhã, de Euzhan Palcy (França, 1994/2006, 52min, digital, 14 anos).
19h – As neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguian (França, 2011, 90min, 35mm, 12 anos)
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Sexta-feira - 01/03
15h – O escafandro e a borboleta, de Julian Schnabel (França/EUA, 2007, 112min, digital, 10 anos)
17h – Claude Lévi-Strauss por ele mesmo, de Annie Chevallay, Pierre-André Boutang (França, 2008, 93 min, digital, 14 anos)
19h – Ervas daninhas, de Alain Resnais (França, 2009, 104min, 35mm, 10 anos)
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Sábado - 02/03
15h – E se vivêssemos todos juntos, de Stéphane Robelin (França, 2012, 96min, 35mm, 14 anos)
17h – Os infiéis, de Alexandre Courtès, Emmanuelle Bercot, Eric Lartigau, Fred Cavayé (França, 2011, 119min, 35mm, 16 anos)
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Domingo - 03/03
15h – O pequeno Nicolau, de Laurent Tirard (França, 2008, 90min, 35mm, livre)
17h – A professora de piano, de Michael Haneke (França/Áustria, 2001, 131min, digital, 18 anos)
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Mostra "XXI Filmes Franceses Contemporâneos – 2ª edição"
Caixa Cultural - Cinemas 1 e 2
Av. Almirante Barroso, 25 – Centro (Metrô: Estação Carioca)
Ter à Dom, das 10h às 20h.
De 19 de Fevereiro à 03 de Março de 2013
Ingressos: R$ 4,00. 
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Prato Mestiça, com Adriana Varejão em primeiro plano, 2012
foto Leonardo Aversa
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O Museu de Arte Moderna exibe desde o último dia 17, a exposição "Adriana Varejão – Histórias às Margens". Trata-se da primeira e mais importante retrospectiva de trabalhos da artista na cidade. Adriana que nasceu no Rio, tem peças expostas em acervos importantes como o do Museu Guggenheim, de Nova York e a Tate Modern, de Londres. Além de 42 obras produzidas ao longo de 20 anos (metade delas nunca expostas no Brasil), foram criados três trabalhos especialmente para a mostra: o quadro “Panorama da Bahia de Guanabara”, um prato oriental que é a continuidade da série “Terra Incógnita”, de 1992 e um painel de 18 metros intitulado "Carnívoras"
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Mãe d'Água, Adriana Varejão, 2009
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Ama Divers, Adriana Varejão, 2011
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Prato com Mexilhões, Adriana Varejão, 2011
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O Selvagem, Adriana Varejão, 2011
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 Ruína de Charque Caruaru, Adriana Varejão, 2000
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 Irezumi em Ponta de Diamante, Adriana Varejão, 1997
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Carnívoras (detalhe), Adriana Varejão, 2012
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Figura de Convite, Adriana Varejão, 1997
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Varejão Acadêmico, Musas, Adriana Varejão, 1997
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Exposição: Adriana Varejão – Histórias às Margens
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. infante Don Henrique, 85, Parque do Flamengo
Ter à Sex, das 12h às 18h - Sáb, Dom e Feriados, das 12h às 19h
De 17 de Janeiro à 10 de Março de 2013
Ingresso: R$ 12,00.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Nada é mais claro que o amor imerso em sua ilusão..."

Amour, de Michael Haneke, 2012
para seguir com fundo musical... Montserrat Figueras, Lamento della Ninfa, Madrigali Guerrieri et Amorosi, de Claudio Monteverdi
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Difícil escrever sobre a experiência de assistir "Amour", sem cair no desagradável que são os tais spoilers. Talvez o mais importante a ser dito seja: não compre um livro pela capa. 
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Num primeiro momento o espectador desavisado pode pensar: "Amour" é sobre tudo, menos amor. Familiarizada com a filmografia do diretor Michael Haneke, algo dizia que a experiência reservaria-me mais que meia dúzia de situações clichês.
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Amor de interesses comuns, de companheirismo, de admiração, de afetividade, de gestos corriqueiros que ganham visibilidade num cenário de metáforas. Um piano. Móveis robustos de madeira forte, cd's comprados na "Virgin", discos, livros, muitos deles. Quadros. Álbuns de fotografia. Cenário de cozinha esmaecido. 
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Amor que supunha sobreviver numa atmosfera minunciosamente preparada e preservada - como se costuma fazer com o que nos é caro - cruelmente aniquilado física e emocionalmente; sem concessões. Significâncias que hoje não passam de um mausoléu frequentado por pombos.
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Amor ressignificado diante a precariedade do corpo, dos espaços e objetos de empréstimo, da perecividade, do desconhecido.
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Amor sem abstrações, em estado bruto, mas ainda assim, e mais do que tudo, amour.
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“O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? Que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? O limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória...”
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Raduan Nassar, in: Lavoura Arcaica.
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domingo, 13 de janeiro de 2013

"aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo..."

Guernica, The Woman Fleeing, (detail),  Pablo Picasso, 1937
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Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.
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Rubem Braga, in: A Viajante. 
Rio de Janeiro, abril de 1952.


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O cronista, que teria completado 100 anos ontem, talvez não seja tão lido quanto merece, mas tem o mérito de ter retratado o cotidiano como poucos. 
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Cuarto solo

The Day After, Edvard Munch, 1894
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Si te atreves a sorprender
la verdad de esta vieja pared;
y sus fisuras, desgarraduras,
formando rostros, esfinges,
manos, clepsidras,
seguramente vendrá
una presencia para tu sed,
probablemente partirá
esta ausencia que te bebe.
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Alejandra Pizarnik.
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Há 92 anos...

'Silêncio Lispectoriano', Claudia Andujar, 1961
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–  Você tem paz, Clarice?
–  Nem pai, nem mãe.
–  Eu disse "paz". 
–  Que estranho, pensei que tivesse dito "pais". Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei – mamãe – e então não ouvi mais nada.
Paz? Quem é que tem?
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Benjamin Moser, in: Clarice,
 Ed. Cosac Naify, 2009.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ressignificação do tempo...

Chronos, Franz Ignaz Günther, 1765-70
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O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.
Não sei.
Outros ecos
Se aninham no jardim. Seguiremos?
Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os
Na curva do caminho. Pela primeira porta,
Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos
A trapaça do tordo? Em nosso mundo primeiro,
Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,
Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E o pássaro cantou, em resposta
À inaudita música oculta na folhagem.
E um radiante olhar impressentido trespassou o espaço,
porque as rosas
Tinham a aparência de flores contempladas.
Lá estavam eles, como nossos hóspedes, acolhidos e acolhedores.
Assim, caminhamos, lado a lado, em solene postura,
Ao longo da alameda deserta, rumo à cerca de buxos,
Para mergulhar os olhos no tanque agora seco.
Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,
E o tanque inundado pela água da luz solar,
E os lótus se erguiam, docemente, docemente,
A superfície flamejou no coração da luz,
E eles atrás de nós, refletidos no tanque.
Passou então uma nuvem, e o tanque esvaziou.
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,
Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
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T. S. Eliot, Four Quartets 1: Burnt Norton.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Os rios de um dia."

 Sertão Sem Fim, Araquém Alcântara, 2008
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Os rios, de tudo o que existe vivo,
vivem a vida mais definida e clara;
para os rios, viver vale se definir
e definir viver com a língua da água.
O rio corre; e assim viver para o rio
vale não só ser corrido pelo tempo:
o rio o corre; e pois que com sua água,
viver vale suicidar-se, todo o tempo.
   
Pois isso, que ele define com clareza,
o rio aceita e professa, friamente,
e se procuram lhe atar a hemorragia,
ou a vida suicídio, o rio se defende.
O que um rio do Sertão, rio interino,
prova com sua água, curta nas medidas:
ao se correr torrencial, de uma vez,
sobre leitos de hotel, de um só dia;
ao se correr torrencial, de uma vez,
sem alongar seu morrer, pouco a pouco,
sem alongá-lo, em suicídio permanente
ou no que todos, os rios duradouros;
esses rios do Sertão falam tão claro
que induz ao suicídio a pressa deles:
para fugir na morte da vida em poças
que pega quem devagar por tanta sede.
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João Cabral de Melo Neto.
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terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Serão esses caminhos somente des-caminhos, des-caminhos de ti a ti?"

 "Corriendo por la Playa", Joaquín Sorolla y Bastida, 1908
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"...Quando então se pensa em poemas, tomam-se tais caminhos com poemas? Serão esses caminhos somente des-caminhos, des-caminhos de ti a ti? Mas ao mesmo tempo são também, em tantos outros caminhos, caminhos nos quais a língua se torna sonora, são encontros, encontros de uma voz com um Tu perceptível, caminhos de criaturas, esboços de existência talvez, um antecipar-se para si mesmo, à procura de si mesmo... Uma espécie de volta à casa..."
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Paul Celan.
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sábado, 3 de novembro de 2012

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