segunda-feira, 23 de novembro de 2009

De quando se enxerga o outro.

Charles Chaplin, Luzes da Cidade, 1931
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Passava das duas da manhã, havia consumido cinco taças de prosecco e me equilibrado em saltos assassinos, quando resolvi sentar numa mesa de canto. Não me aventurei naquela rodada de dança, o equilíbrio me faltava. Concentrei-me em observar os convidados ainda mais ‘desequilibrados’. Festas de casamento são tão curiosas. Acontecem às dezenas, todos os dias, e em detrimento do pensamento mais pessimista, geram as maiores expectativas.
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Alguns teorizam (especialistas inclusive) sobre a falência do sistema, ou como dizem, da instituição. Não consigo fazer uso de termos burocráticos para algo que lida com emoção, nem mesmo acreditar que uniões estão fadadas a ruir com os vícios do tempo.
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É tão ingênuo atribuir ao casamento os desgastes que rondam a vida a dois. É supervalorizá-lo. O convívio só potencializa o que estava inadequado desde o começo, mas que por um motivo ou outro não era visível. Dizem que a paixão turva a vista. Mas é sabido que sempre enxergamos os pequenos sinais, só fazemos vista grossa quando nos é conveniente. Pegamos caminhos mais longos, quando poderíamos abreviar, optamos pela refeição menos saudável, quando poderíamos poupar as artérias. Tudo pelo entusiasmo, mesmo fugaz, que aquele pequeno delito proporciona. A teia que une e desune as pessoas, funciona da mesma forma. Pense que a oferta diversa é a mesma que ratifica cada um de nós, o que chamam de personalidade. Como ‘ajustar’ uma a outra?
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Existe validade na teoria de que parte das uniões apaixonadas, acontece entre pessoas mais generosas e, outras que preferem ser o objeto da paixão, mais egoístas. Seria pensar que uma oferece, porque idealiza. E a outra recebe, porque dramatiza a relação. Penso que toda a celeuma acerca da dinâmica dos relacionamentos, culmina num mesmo princípio: Afinidades aproximam as pessoas, enquanto diferenças as afastam. Dividir o cotidiano quando os interesses e temperamentos divergem, aguça a irritabilidade, a insatisfação. Enquanto ‘falar a mesma língua’ implica em conhecer bem e entender a pessoa que se ama. Isso potencializa a intimidade, a cumplicidade, o respeito, a admiração, dando margem a solidez que vem da paz que se sente na presença do outro. No amor precisamos de apego, de amparo. Não de mudança, que é o que geralmente ocorre nas relações díspares. O amor não tem a necessidade de improvisação do sexo. Ele precisa de unidade. Estar em sintonia, por isso a parecença. Significa enxergar o outro não só como alguém que divide a vida, planos, o melhor e o pior do cotidiano, mas que possui expectativas, fragilidades, carências e sobretudo individualidade. Relações assim independem de rituais, têm a ver com a mágica de alguns encontros.
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Com a certeza de que presenciava um desses encantamentos, espanei as nuvens de pensamentos, retirei os sapatos e fui dançar. Sem desconforto e com aquela pontinha de alegria desmedida dos que bebem sem hábito.
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Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
Suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
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Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito!
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O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeiras
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
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Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
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Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
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Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
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Carlos Drummond de Andrade, in: O Amor Bate na Aorta.
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